Metabolismo

Exames antes de usar Mounjaro ou Ozempic: o que a avaliação confere e o que muda durante o tratamento

Dr. Rodrigo Neves 8 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

Antes de usar Mounjaro ou Ozempic, a avaliação confere a indicação (diabetes tipo 2, ou IMC a partir de 30, ou de 27 com doença associada), contraindicações e cautelas, como câncer medular de tireoide na família, pancreatite e gravidez, e o ponto de partida: glicemia, hemoglobina glicada (média da glicose dos últimos meses), rins, colesterol e fígado. Durante o uso, glicose e triglicérides costumam cair, e a lipase, enzima do pâncreas, pode subir sem doença.

Antes da primeira aplicação de Mounjaro ou Ozempic, a lista de exames que circula na internet costuma ser longa: glicose, colesterol, fígado, rins, tireoide, calcitonina, amilase, lipase e, às vezes, um ultrassom do pescoço. Nas bulas, a ênfase é outra: a sua história pesa tanto quanto o exame de sangue, e alguns dos exames mais citados têm valor incerto quando pedidos de rotina.

Depois que o tratamento começa, alguns resultados mudam porque o remédio está agindo, como a glicose e os triglicérides. Outros mudam sem significar doença, como a lipase. Neste artigo eu explico o que a avaliação confere antes, quais exames costumam entrar e por quê, e o que esperar dos números durante o uso.

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Precisa fazer exames antes de usar Mounjaro ou Ozempic?

Precisa de avaliação médica, e os exames fazem parte dela. A tirzepatida (Mounjaro) e a semaglutida (Ozempic) imitam o GLP-1, um hormônio do intestino ligado à saciedade e ao controle da glicose; a tirzepatida age também sobre um segundo hormônio, o GIP. A diferença entre os dois está no artigo Mounjaro ou Ozempic: o que muda.

As bulas não trazem um pacote fixo de exames; trazem indicações, contraindicações e cuidados. A avaliação responde a três perguntas: o remédio está indicado para você? Existe algo na sua história que contraindica ou pede cautela? Qual é o seu ponto de partida, para comparar depois?

Na bula brasileira, a tirzepatida está indicada para o diabetes tipo 2 e para o controle crônico do peso em adultos com IMC (índice de massa corporal) a partir de 30, ou a partir de 27 com pelo menos uma doença ligada ao peso, como pressão alta, colesterol alterado, apneia do sono ou pré-diabetes. A semaglutida injetável é vendida como Ozempic, aprovado para o diabetes tipo 2, e numa versão para controle de peso, com os mesmos cortes de IMC. O caminho completo está no guia de emagrecimento com acompanhamento médico.

O que a história clínica precisa conferir antes de começar?

Câncer medular de tireoide na família. Pela bula brasileira, a tirzepatida é contraindicada para quem tem história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide (um tipo raro de câncer da tireoide) ou de NEM2 (neoplasia endócrina múltipla tipo 2, síndrome genética que favorece tumores em glândulas). Nas bulas brasileiras da semaglutida, a mesma história aparece como uso com cautela; na bula americana, como contraindicação. O alerta vem de tumores das células C da tireoide observados em roedores; em pessoas, ainda não se sabe se acontece.

Pancreatite no passado. A tirzepatida não foi estudada em quem já teve pancreatite (inflamação do pâncreas), e a bula pede cautela; a da semaglutida recomenda precaução. A diretriz de 2026 da Associação Americana de Diabetes (ADA) orienta não iniciar esses remédios em quem tem alto risco de pancreatite.

Gravidez e anticoncepção. Nenhum dos dois é usado para perder peso na gravidez. A bula orienta suspender a tirzepatida pelo menos 1 mês antes de uma gravidez planejada, e a semaglutida, pelo menos 2 meses antes. Quem usa pílula precisa rever o método com a tirzepatida; o que a bula orienta está no artigo sobre efeitos colaterais do Mounjaro.

Diabetes com lesão na retina. A queda rápida da glicose já foi associada a piora temporária da retinopatia diabética (lesão da retina causada pelo diabetes). A ADA recomenda avaliar a retina quando o tratamento do diabetes é intensificado com esses remédios.

Estômago lento e sedação. A bula não recomenda a tirzepatida para quem tem gastroparesia grave (estômago que esvazia devagar demais). E como esses remédios retardam o esvaziamento do estômago, quem vai fazer endoscopia, colonoscopia ou cirurgia com sedação precisa avisar que usa.

Quais exames costumam ser pedidos antes de começar, e por quê?

A base é metabólica:

Quando há suspeita de resistência à insulina, a insulina de jejum pode ser acrescentada para calcular o HOMA-IR. Exames da tireoide, como o TSH, entram quando há sintoma ou motivo clínico; as bulas não orientam dosá-los antes de começar, e o artigo sobre check up hormonal depois dos 40 explica como os exames hormonais são escolhidos pela queixa.

Calcitonina, amilase e lipase entram na rotina?

A calcitonina é um hormônio das células C da tireoide, as mesmas que dão origem ao carcinoma medular. A bula brasileira da tirzepatida diz que dosá-la de rotina, ou fazer ultrassom da tireoide, tem valor incerto para detectar cedo esse câncer e pode levar a procedimentos desnecessários, porque o exame é pouco específico e as doenças da tireoide são comuns. A bula americana da semaglutida diz o mesmo. A tireoide segue na avaliação: história familiar, sintomas (caroço no pescoço, dificuldade para engolir, rouquidão que não passa) e nódulo no exame físico ou de imagem pedem investigação.

A amilase e a lipase são enzimas do pâncreas. As bulas pedem que o paciente conheça os sintomas da pancreatite e que o remédio seja suspenso se houver suspeita; não orientam dosar essas enzimas de rotina antes de começar. Na prática, a lipase pode ser dosada no início como valor de base, para ter com o que comparar se surgir dor abdominal durante o tratamento. A decisão é individual, tomada na avaliação.

O que muda nos exames durante o tratamento?

Parte das mudanças é o efeito esperado; parte aparece sem significar doença.

Glicose e hemoglobina glicada

Nos estudos da tirzepatida com diabetes tipo 2, a glicemia de jejum já caía a partir de 2 semanas. Para quem tem diabetes, a ADA recomenda medir a hemoglobina glicada pelo menos duas vezes por ano e com mais frequência, por exemplo a cada 3 meses, depois de uma mudança no tratamento. Com insulina ou sulfonilureia (comprimidos que estimulam o pâncreas a liberar insulina, como a glimepirida), o risco de hipoglicemia (queda do açúcar no sangue) aumenta, e as bulas e a ADA orientam reavaliar esses remédios ao iniciar o tratamento.

Colesterol e triglicérides

No estudo SURMOUNT-1, descrito na bula da tirzepatida, 2.539 adultos com obesidade ou sobrepeso e sem diabetes foram acompanhados por 72 semanas. Os triglicérides caíram entre 24% e 31%, contra 6% no placebo; o HDL, o colesterol bom, subiu entre 7% e 9%; o LDL caiu pouco, entre 5% e 9%, contra 1% no placebo. Quem tem LDL alto segue com a meta do colesterol avaliada à parte.

Fígado, rins e nutrientes

Na bula da semaglutida para peso, no tratamento da esteato-hepatite (inflamação do fígado causada por gordura), o remédio reduziu a TGP e a TGO. A creatinina pode subir se houver desidratação por vômito ou diarreia, e a bula orienta acompanhar os rins de quem tem esses sintomas.

A bula da tirzepatida descreve casos de desnutrição. Na seção da ADA sobre obesidade em pessoas com diabetes, a orientação é investigar deficiências de micronutrientes, como ferro, vitamina D e vitamina B12, em quem perde mais de 20% do peso ou mais de 4% ao mês, com frequência definida caso a caso.

Lipase alta usando Mounjaro ou Ozempic: o que significa?

É um dos achados que mais assustam, e um dos mais esperados. Nos grandes estudos controlados por placebo descritos na bula brasileira, a tirzepatida aumentou a lipase, em média, de 31% a 42% em relação ao início; no placebo, ela não mudou. Na bula americana da semaglutida para peso, o aumento médio foi de 39%. As bulas brasileiras dos dois remédios dizem a mesma coisa: sem outros sinais e sintomas de pancreatite, a elevação isolada das enzimas não prevê a doença.

No estudo LEADER, publicado na revista Diabetes Care em 2017, 9.340 pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular foram sorteadas para usar liraglutida (outro remédio da mesma família) ou placebo por cerca de quatro anos. A lipase subiu 28% em relação ao placebo, mas entre quem teve as enzimas elevadas menos de 1% teve pancreatite depois, e a pancreatite foi rara nos dois grupos (0,4% e 0,5%).

O que pesa é o sintoma. Dor abdominal forte ou persistente, às vezes indo para as costas, com ou sem náusea e vômito, é motivo para procurar atendimento, qualquer que seja o exame. Os outros sinais de alarme estão no artigo sobre efeitos colaterais do Mounjaro. Com lipase alta e nenhuma queixa, a conduta é individual: o médico considera o quanto subiu, se o valor se repete e se há outra explicação.

De quanto em quanto tempo repetir os exames?

As bulas não trazem um calendário único. Para o peso, a ADA recomenda, em pessoas com diabetes, repetir as medidas do corpo pelo menos a cada 3 meses durante o tratamento ativo. Os outros se repetem quando há uma pergunta a responder: o efeito no colesterol, a evolução do fígado, um sintoma novo.

A balança sozinha não mostra o que foi perdido. A ADA cita a bioimpedância e a densitometria corporal (DXA, raio X de baixa dose que separa gordura, músculo e osso) como opções para medir a gordura do corpo; como ler o laudo está no artigo sobre resultado da bioimpedância, e o cuidado com o músculo, no artigo sobre GLP-1 e perda de massa muscular.

Como é feita a avaliação no consultório?

Na consulta, a conversa vem antes do pedido de exames: o que você já tentou para o peso, as doenças e os remédios em uso (em especial insulina, sulfonilureia e anticoncepcional oral), a história de pancreatite, de cálculo na vesícula e de câncer de tireoide na família, os planos de gravidez e, para quem tem diabetes, o último exame de fundo de olho.

Depois vêm o exame físico, com peso, cintura, pressão, pescoço e frequência cardíaca (nos estudos da tirzepatida, os batimentos subiram de 2 a 4 por minuto, em média), e a bioimpedância, que registra a composição corporal de partida. Os exames de sangue saem disso. No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, ou por telemedicina, o plano já sai com o momento de repetir cada exame e os sinais que pedem contato antes do retorno.

Perguntas frequentes

Quem não tem tireoide ou tem hipotireoidismo pode usar Mounjaro?

Hipotireoidismo, uso de levotiroxina e retirada da tireoide por outro motivo não aparecem como contraindicação nas bulas brasileiras. O que contraindica a tirzepatida é a história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou de NEM2; quem retirou a tireoide por causa de um carcinoma medular está nesse grupo. A decisão é médica e individual.

Estou com lipase alta antes de começar. Posso usar Mounjaro?

Depende da causa. Uma lipase alta antes do tratamento não é efeito do remédio e precisa ser investigada antes. Se houver história de pancreatite, a bula da tirzepatida informa que ela não foi estudada nesse grupo e pede cautela, e a diretriz americana de diabetes orienta não iniciar em quem tem alto risco de pancreatite. A decisão é individual.

Mounjaro ou Ozempic alteram o exame de sangue?

Alteram, e na maior parte das vezes é o efeito esperado: glicemia, hemoglobina glicada e triglicérides costumam cair, e o HDL pode subir. A amilase e a lipase também sobem em média, sem significar pancreatite quando não há sintomas. A creatinina pode subir se houver desidratação por vômito ou diarreia.

Mounjaro ou Ozempic aumentam o colesterol?

Nos estudos, o efeito foi o oposto. No SURMOUNT-1, com tirzepatida em adultos sem diabetes, os triglicérides caíram entre 24% e 31% e o HDL, o colesterol bom, subiu entre 7% e 9%; o LDL caiu pouco. Quem tem LDL alto segue com a meta do colesterol avaliada à parte.

Precisa fazer exame de tireoide antes de usar Mounjaro ou Ozempic?

Não de rotina. As bulas brasileiras não pedem TSH, T3 ou T4 antes de começar. Dosar calcitonina ou fazer ultrassom de tireoide de rotina tem valor incerto para detectar cedo o câncer medular e pode levar a procedimentos desnecessários. O que conta antes é a história pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide ou de NEM2. A tireoide entra na investigação quando há essa história ou um sintoma.

Conclusão

A avaliação antes de Mounjaro ou Ozempic é mais conversa do que lista de exames: confirmar a indicação, achar na história o que contraindica ou pede cautela e registrar o ponto de partida. Durante o uso, saber o que costuma mudar evita interromper o tratamento por uma lipase alta sem sintomas e evita deixar passar um sintoma que importa.

Se você vai começar, ou já usa e tem exames para interpretar, a consulta coloca cada resultado no contexto da sua história.

Referências

  1. Eli Lilly do Brasil. Mounjaro (tirzepatida): bula do profissional de saúde. Registro Anvisa 1.1260.0202. Texto atualizado em 06/04/2026. https://www.bulas.med.br/p/bulas-de-medicamentos/bula/1502615/mounjaro.htm
  2. Novo Nordisk. Wegovy (semaglutida): bula do profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 04/05/2026. https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Wegovy_Bula_Profissional.pdf
  3. Novo Nordisk. Ozempic (semaglutida): bula do profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 17/04/2026. https://www.novonordisk.com.br/content/dam/nncorp/br/pt/pdfs/bulas/hcp/Ozempic_3mL_1mg_Bula_Profissional.pdf
  4. U.S. Food and Drug Administration / Novo Nordisk. Wegovy (semaglutide): prescribing information. Revisão de junho de 2026. DailyMed. https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/drugInfo.cfm?setid=ee06186f-2aa3-4990-a760-757579d8f77b
  5. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 6. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12690178/
  6. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 8. Obesity and Weight Management for the Prevention and Treatment of Diabetes: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12690172/
  7. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 9. Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12690185/
  8. American Diabetes Association Professional Practice Committee. 12. Retinopathy, Neuropathy, and Foot Care: Standards of Care in Diabetes 2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12690177/
  9. Steinberg WM, Buse JB, Ghorbani MLM, et al. Amylase, Lipase, and Acute Pancreatitis in People With Type 2 Diabetes Treated With Liraglutide: Results From the LEADER Randomized Trial. Diabetes Care. 2017;40(7):966-972. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28476871/

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Dr. Rodrigo Neves

Médico, CRM-SP 160969. Atua em reposição hormonal, longevidade e saúde metabólica. Mais de 10.000 pacientes atendidos. Conheça o Dr. Rodrigo Neves

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