HOMA-IR: o que é, valores de referência e o que fazer quando está alto
Resposta direta
HOMA-IR é um índice calculado com a glicose e a insulina colhidas em jejum que estima a resistência à insulina, situação em que o corpo precisa de mais insulina para manter a glicose no lugar. Não existe um valor normal único. No Brasil, o estudo BRAMS, feito com adultos sem diabetes, propôs acima de 2,7 como sinal de resistência, e o laudo traz a referência do próprio laboratório.
O HOMA-IR nasceu em 1985, num artigo da revista Diabetologia, como um atalho para a pesquisa. Medir diretamente a ação da insulina exigia o clamp, um exame trabalhoso e demorado, feito com infusão de insulina e glicose na veia. A proposta foi estimar a mesma informação com uma única coleta de sangue em jejum.
Mais de quarenta anos depois, o índice entrou nos pedidos de check-up, e com ele vieram tabelas na internet com limites diferentes: 2, 2,5, 2,7, 3. Neste artigo, explico de onde vem a conta, por que os cortes mudam de um estudo para outro, quando o índice não vale, o que um valor alto significa e como ele entra na avaliação.
Seu HOMA-IR veio fora da referência?
Na avaliação com o Dr. Rodrigo, o número é lido junto com os outros exames, a composição corporal e a sua história.
Agendar pelo WhatsAppEste artigo faz parte do guia Emagrecimento médico do Dr. Rodrigo Neves. Consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo. Livro do Dr. Rodrigo Neves sobre o tema: Diabetes Começa Dez Anos Antes.
O que é o HOMA-IR e como a conta é feita?
HOMA é a sigla em inglês de modelo de avaliação da homeostase, o equilíbrio que o corpo mantém em jejum. Nesse estado, a glicose e a insulina se ajustam uma à outra, num circuito em que uma regula a outra. Quando os tecidos respondem bem à insulina, pouca insulina basta para segurar a glicose; quando respondem mal, o pâncreas precisa liberar mais. O HOMA-IR (IR vem de insulin resistance, resistência à insulina) transforma essa relação num número.
Na versão mais usada, a conta é a glicemia de jejum multiplicada pela insulina de jejum, dividida por 405 quando a glicose vem na unidade dos laudos brasileiros (ou por 22,5 quando vem em milimol por litro). Veja como a mesma glicemia, 90, pode corresponder a situações bem diferentes:
- glicemia 90 e insulina 5: HOMA-IR de cerca de 1,1;
- glicemia 90 e insulina 12: HOMA-IR de cerca de 2,7;
- glicemia 90 e insulina 20: HOMA-IR de cerca de 4,4.
É assim que aparece a combinação insulina alta com glicose normal: o pâncreas compensa a menor resposta dos tecidos produzindo mais hormônio, e a glicemia continua dentro da faixa. O mecanismo, os sinais no corpo e a relação com o peso estão no artigo sobre resistência à insulina e emagrecimento.
No estudo original, a estimativa do HOMA acompanhou de perto a medida do clamp, mas os autores registraram a baixa precisão de uma medida isolada: variação de cerca de 31% para a resistência à insulina. Por isso o índice funciona melhor como pista do que como veredito.
Qual é o valor normal do HOMA-IR?
Não existe um valor normal único. O corte depende de quem foi estudado, do método que mede a insulina e do que se quer identificar:
- Brasil, estudo BRAMS (2009): o Brazilian Metabolic Syndrome Study avaliou 1.203 adultos sem diabetes, de 18 a 78 anos. O corte para resistência à insulina foi HOMA-IR acima de 2,7, o percentil 90 de um grupo saudável de 297 pessoas (valor que só 10% delas ultrapassavam). Para síndrome metabólica (o conjunto de cintura, pressão, glicose e gorduras do sangue alterados), o corte foi acima de 2,3.
- Brasil, Rio de Janeiro (2024): um estudo com dados de laboratório de 21.684 adultos de 20 a 60 anos, a maioria mulheres, propôs a faixa de referência de 0,39 a 2,86.
- Japão (2011): com 2.153 adultos saudáveis, a faixa ficou entre 0,4 e 2,4, e os autores sugeriram 2,5 ou mais como indicador de resistência à insulina naquela população. É um dos estudos em que aparece o 2,5 de muitas tabelas.
Na Espanha, o estudo EPIRCE, com 2.459 adultos sorteados da população geral, mostrou o peso do critério: pelo percentil 90, o corte seria 3,46; usando os componentes da síndrome metabólica, caiu para 2,05, e para 1,85 nos homens sem diabetes.
A faixa de referência descreve onde ficam 95% das pessoas de uma população escolhida como padrão; o ponto de corte tenta separar quem tem de quem não tem uma alteração. Um 2,9 pode passar um pouco da faixa de um laboratório sem que isso, sozinho, feche o diagnóstico.
Por que o laboratório faz tanta diferença?
A dosagem de insulina ainda não é padronizada entre os fabricantes, e a diretriz laboratorial americana de 2023 recomenda essa padronização. Num estudo britânico de 2008, as mesmas amostras de 97 pessoas foram dosadas por 11 métodos de insulina. No pequeno grupo com glicose normal, de 12 pessoas, o HOMA-IR típico foi de 0,8 em um método e de 2,0 em outro. Para os autores, resultados de métodos diferentes podem divergir em até 100% e não devem ser comparados diretamente.
Há ainda duas versões do índice. O HOMA1, da conta acima, é o mais comum; o HOMA2 sai de um programa de computador e tem outra escala. No BRAMS, o corte para resistência foi 2,7 no HOMA1 e 1,8 no HOMA2. Vale conferir a versão que está no laudo.
Quando o HOMA-IR não serve ou pode enganar?
O índice pressupõe que a insulina medida é a que o próprio pâncreas produziu, em jejum, num momento de equilíbrio. Quando isso não vale, o número perde o sentido. O estudo britânico de 2008 reuniu os cuidados principais:
- Uso de insulina: quem aplica insulina não deve ter o HOMA-IR calculado. O modelo foi feito para ler a insulina produzida pelo próprio corpo.
- Anticorpos contra a insulina: interferem na dosagem.
- Jejum: o modelo foi construído para o estado de jejum, e coleta depois de comer não serve. As regras de preparo estão no artigo sobre jejum e preparo para exames hormonais.
- Amostra hemolisada: quando as hemácias (os glóbulos vermelhos) se rompem no tubo, liberam enzimas que degradam a insulina, e a amostra não deve ser usada.
- Coleta única: a insulina é liberada em pulsos, e o modelo original usava três coletas com 5 minutos de intervalo por isso. Um resultado é a fotografia de um momento.
O HOMA-IR também não é o exame que diagnostica diabetes nem que acompanha o controle. Segundo a diretriz laboratorial de 2023 da Associação Americana de Diabetes (ADA) com a associação americana de química clínica, o diagnóstico usa glicemia ou hemoglobina glicada (a média da glicose dos últimos meses), e o controle, hemoglobina glicada e medidas de glicose.
HOMA-IR alto: o que significa e o que não significa?
Um HOMA-IR acima da referência indica que, naquele jejum, o corpo precisou de mais insulina do que o esperado para manter a glicose, o que sugere menor sensibilidade à insulina. No grupo saudável do BRAMS, valores mais altos andaram junto com gordura concentrada na barriga, triglicerídeos e colesterol total mais altos.
O que o número sozinho não faz:
- não diagnostica diabetes nem pré-diabetes, que se definem pela glicemia, pela hemoglobina glicada ou pela curva de glicose;
- não aponta a causa: gordura abdominal, gordura no fígado e pouca atividade física estão entre os fatores ligados à resistência à insulina, e cada um pede investigação própria;
- não resolve a dúvida quando o valor está perto do corte, porque a variação entre coletas e entre métodos é grande;
- não indica, por si, nenhum remédio.
A mesma diretriz da ADA não recomenda dosar insulina de rotina na maioria das pessoas com diabetes ou com risco de diabetes ou de doença cardiovascular. Por isso o HOMA-IR não entra como exame de pacote: o médico pede quando a história, a cintura ou outros exames apontam para resistência à insulina, e lê o resultado junto com o restante da avaliação.
Que outros exames completam a leitura?
O HOMA-IR ganha sentido quando conversa com outros dados:
- Glicemia de jejum e hemoglobina glicada: mostram se a glicose já saiu da faixa normal.
- Curva de glicose (teste oral de tolerância à glicose): mede a glicose em jejum e após uma bebida açucarada padronizada, olhando a resposta do corpo a uma carga de açúcar.
- Triglicerídeos, HDL, cintura e pressão arterial: junto com a glicemia, formam os cinco critérios da síndrome metabólica; três alterados já fecham a definição, segundo o consenso internacional de 2009.
- Índice TyG: usa triglicerídeos e glicose de jejum e dispensa a dosagem de insulina. Uma revisão de 2022 mostrou que, como o HOMA-IR, ele também não tem um corte único.
- Fígado: enzimas hepáticas e ultrassom, quando indicados. A ligação entre insulina e acúmulo de gordura no fígado está no artigo sobre gordura no fígado.
- Composição corporal: a bioimpedância estima quanto do peso é músculo e quanto é gordura, informação que a balança sozinha não dá.
O que ajuda a melhorar a sensibilidade à insulina?
O alvo é o que o índice reflete. As intervenções com melhor evidência são as de estilo de vida, e os estudos medem efeito médio em grupos, sem garantia individual:
- Exercício somado à alimentação: uma meta-análise (estudo que reúne vários ensaios) publicada em 2023, com 50 estudos e 2.864 pessoas com sobrepeso ou obesidade, mostrou que exercício junto com mudança alimentar reduziu mais a resistência à insulina e a glicemia de jejum do que a mudança alimentar sozinha; no peso e na insulina de jejum, a diferença não foi significativa.
- Perda de peso com atividade física: no Diabetes Prevention Program, ensaio americano com 3.234 pessoas sem diabetes, mas com glicose acima do normal, o programa de estilo de vida tinha como meta perder pelo menos 7% do peso e fazer 150 minutos de atividade física por semana. Em cerca de 3 anos, reduziu em 58% os novos casos de diabetes, comparado ao placebo.
O tipo de dieta é escolhido caso a caso, de acordo com a rotina e os outros exames, para que dê para manter.
Os hormônios que regulam a fome e a saciedade ajudam a explicar por que a dieta precisa ser possível de manter; o artigo sobre leptina e grelina mostra como eles funcionam.
Remédios entram quando há um diagnóstico que os indique, e a escolha é individual, com acompanhamento. O papel da metformina, um dos remédios mais estudados nesse cenário, está no artigo sobre metformina para emagrecer.
Como a avaliação usa o HOMA-IR?
Na consulta, o HOMA-IR é uma peça entre várias. A conversa começa pela história: como o peso mudou nos últimos anos, onde a gordura se acumula, sono, atividade física, remédios em uso e diabetes na família. Depois vêm o exame físico, com cintura e pressão, e os exames de sangue lidos em conjunto.
A bioimpedância estima a composição do corpo, porque duas pessoas com o mesmo peso podem ter proporções muito diferentes de músculo e gordura. Tireoide, menopausa ou testosterona entram na conversa quando a história aponta para eles. Quando o peso faz parte do objetivo, o plano segue no acompanhamento médico de emagrecimento.
Para comparar resultados ao longo do tempo, o exame é repetido no mesmo laboratório e com o mesmo preparo. Uma queda do HOMA-IR ganha valor quando vem junto com mudança na cintura, na composição corporal e nos outros exames. É assim que a avaliação é conduzida no consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, presencialmente ou online.
Perguntas frequentes
HOMA-IR de 2,5 é alto?
Depende da referência. O 2,5 aparece num estudo japonês de 2011 como indicador de resistência à insulina naquela população. No Brasil, o estudo BRAMS propôs acima de 2,7, e um levantamento de laboratório no Rio de Janeiro, em 2024, chegou a uma faixa que vai até 2,86. Um 2,5 isolado, com glicemia e cintura normais, é um dado para acompanhar.
HOMA-IR é a mesma coisa que insulina ou hemoglobina glicada?
Não. A insulina de jejum é um dos dois valores medidos no sangue, e o HOMA-IR é a conta que junta essa insulina com a glicemia de jejum. A hemoglobina glicada é outro exame: mostra a média da glicose dos últimos meses e, com a glicemia, diagnostica diabetes, segundo a diretriz laboratorial da ADA de 2023.
O que é HOMA-beta?
É o outro índice do mesmo modelo de 1985: com a mesma glicemia e a mesma insulina de jejum, estima quanto as células beta do pâncreas, as que produzem insulina, estão trabalhando. O cálculo e o que significa alto ou baixo estão no artigo sobre HOMA-beta.
A referência do HOMA-IR muda entre mulher e homem?
Pelo estudo do Rio de Janeiro de 2024, não precisa mudar: a faixa foi de 0,39 a 2,86 nas mulheres e de 0,38 a 2,81 nos homens, diferença que, para os autores, não justificava tabelas separadas. Na Espanha, o EPIRCE viu efeito da idade nos cortes das mulheres sem diabetes.
Posso comparar HOMA-IR feito em laboratórios diferentes?
Com cautela. A insulina é dosada por métodos diferentes, e um estudo britânico de 2008 mostrou que as mesmas amostras podem gerar resultados que diferem em até 100% conforme o método. Para acompanhar a evolução, o ideal é repetir no mesmo laboratório e com o mesmo preparo. Se houve troca, a leitura se apoia mais nos outros exames.
Conclusão
O HOMA-IR estima, com um exame de jejum, quanto o corpo se esforça para manter a glicose no lugar, às vezes antes de a glicemia mudar. Os limites estão na falta de um corte único, na variação entre laboratórios e nas situações em que a conta não vale, como o uso de insulina.
Um resultado alto pede contexto, e é junto com os outros exames, a cintura, a composição corporal e a história que o número vira ponto de partida.
Referências
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