Gordura no fígado (esteatose hepática): o que é, o que o grau do ultrassom significa, como avaliar a fibrose e o que ajuda
Resposta direta
Gordura no fígado, ou esteatose hepática, é o acúmulo de gordura nas células do fígado, quase sempre ligado a excesso de peso, glicose, pressão ou colesterol alterados. Pode regredir: com sobrepeso, as diretrizes indicam perder 5% do peso para reduzir a gordura e 7% a 10% para a inflamação. O grau do ultrassom não mede fibrose (cicatriz), estimada pelo FIB-4, cálculo com exames de sangue, e pela elastografia, que avalia a rigidez do fígado.
Gordura no fígado virou assunto de almoço de família: alguém conta que também tem um pouco, outro diz que é coisa de quem bebe, um terceiro já indica um chá. A naturalidade tem explicação. Uma revisão de 92 estudos, publicada em 2023 na revista Hepatology, estimou que cerca de 30% das pessoas no mundo têm o problema. Segundo a associação americana de hepatologia (AASLD), na maioria dos casos a pessoa não sente nada.
Neste artigo, explico o nome novo da doença, o que o grau do ultrassom deixa de fora, os exames que avaliam o risco, o que as diretrizes recomendam e os remédios aprovados.
Recebeu o diagnóstico de gordura no fígado?
Uma avaliação que olha peso, glicose, insulina, colesterol e composição corporal ajuda a definir por onde começar.
Agendar pelo WhatsAppEste artigo faz parte do guia Emagrecimento médico do Dr. Rodrigo Neves. Consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo. Livro do Dr. Rodrigo Neves sobre o tema: Por Que Você Não Emagrece.
O que é gordura no fígado e o que significa a sigla MASLD?
Esteatose hepática é o excesso de gordura dentro das células do fígado. Pela definição da AASLD (associação americana para o estudo das doenças do fígado), ela existe quando 5% ou mais dessas células acumulam gordura.
Em 2023, um consenso conduzido por três grandes associações internacionais de hepatologia, com 236 participantes de 56 países, trocou o nome antigo, doença hepática gordurosa não alcoólica, por doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, a MASLD (sigla em inglês). As palavras "não alcoólica" e "gordurosa" foram consideradas estigmatizantes por 61% e 66% dos participantes. A definição também mudou: o diagnóstico passou a exigir gordura no fígado mais pelo menos 1 de 5 fatores de risco:
- excesso de peso ou cintura aumentada;
- glicose alterada, pré-diabetes ou diabetes tipo 2;
- pressão alta ou uso de remédio para pressão;
- triglicérides altos ou tratamento para baixá-los;
- HDL (o colesterol chamado de bom) baixo ou tratamento para colesterol.
A forma com inflamação e lesão das células virou MASH (esteato-hepatite associada à disfunção metabólica), e quem tem esses fatores e bebe mais que um limite semanal de álcool entra numa categoria à parte, a MetALD. Em português, a Sociedade Brasileira de Diabetes usa a sigla DHEM. Pela diretriz europeia de 2024 (EASL, EASD e EASO, associações europeias de fígado, diabetes e obesidade), quase todo diagnóstico antigo cabe no novo, com 99,8% de concordância num grande grupo de pacientes.
Gordura no fígado é grave? O que o grau 1, 2 ou 3 do ultrassom quer dizer
O grau do laudo (leve, moderado ou acentuado) é uma estimativa visual da quantidade de gordura. A AASLD descreve essa leitura do ultrassom comum como subjetiva e pouco sensível para pouca gordura, sobretudo na obesidade. A diretriz brasileira de 2023, da Sociedade Brasileira de Hepatologia com as sociedades de endocrinologia e de obesidade, registra que o ultrassom só detecta a gordura quando ela passa de cerca de 12,5% do fígado.
O grau mede gordura e não mede inflamação nem fibrose (a cicatriz que se forma quando a agressão ao fígado se prolonga). Grau 1 não garante um fígado sem cicatriz, grau 3 não quer dizer cirrose, e um ultrassom sem gordura visível não exclui inflamação nem fibrose, lembra a AASLD. A fibrose vai de F0 (sem cicatriz) a F4 (cirrose), com F2 moderada e F3 avançada, e a AASLD aponta o estágio dela como o que melhor prevê a evolução a longo prazo.
A gravidade também passa pelo coração: para a AASLD, as causas de morte mais comuns em quem tem gordura no fígado são as doenças cardiovasculares e os cânceres fora do fígado, à frente da doença hepática. A diretriz europeia aponta maior risco de fibrose progressiva em homens acima de 50 anos, mulheres depois da menopausa e quem soma fatores metabólicos, com destaque para diabetes tipo 2 e obesidade abdominal.
O que causa gordura no fígado?
O consenso de 2023 aponta a resistência à insulina (quando as células respondem mal a esse hormônio e o pâncreas precisa produzir mais) como a principal disfunção metabólica por trás da MASLD, e a AASLD a descreve como praticamente universal nesses pacientes: a gordura do corpo, resistente à insulina, solta mais ácidos graxos (as moléculas de gordura do sangue) mesmo em jejum, e parte deles se acumula no fígado.
O mecanismo está no artigo sobre resistência à insulina e emagrecimento, e o caminho da gordura da barriga até o fígado, no de gordura visceral. A diretriz europeia admite medir a resistência com o HOMA-IR (índice calculado com a glicose e a insulina de jejum) em quem tem suspeita de MASLD e não tem diabetes.
Antes de fechar o diagnóstico, outras causas precisam ser afastadas: álcool, alguns remédios, hepatites virais, doenças autoimunes do fígado e o acúmulo de ferro chamado hemocromatose, investigado com ferritina e saturação de transferrina (o quanto do transportador de ferro do sangue está ocupado). Quando a ferritina vem alta, vale ler o artigo sobre ferritina alta.
Quais exames avaliam a gordura no fígado e o risco de fibrose?
As enzimas do fígado, TGO e TGP (também chamadas AST e ALT), não servem sozinhas para rastrear o problema, diz a diretriz brasileira, voltada a adultos com sobrepeso ou obesidade. O documento registra que uma TGP normal não garante a ausência de inflamação com fibrose avançada.
O exame de partida para estimar a fibrose é o FIB-4, um índice calculado com idade, TGO, TGP e plaquetas (células do sangue ligadas à coagulação). Pela diretriz europeia, abaixo de 1,3 o risco de fibrose avançada é baixo (acima dos 65 anos, esse corte sobe para 2,0); de 1,3 para cima, pede-se um segundo exame. Acima de 2,67, a AASLD fala em risco alto.
O segundo exame costuma ser a elastografia hepática, parecida com um ultrassom, que mede a rigidez do fígado: quanto mais cicatriz, mais duro o órgão. O resultado sai em quilopascais (kPa, a unidade da rigidez), e a técnica de referência nas diretrizes é a elastografia transitória, feita no aparelho FibroScan. Na diretriz europeia, abaixo de 8 kPa o risco é baixo, e 8 kPa ou mais levam ao hepatologista. A biópsia fica para casos selecionados, como a dúvida sobre outra doença do fígado.
Esteatose hepática: o que fazer para tirar a gordura do fígado?
Perder peso de forma sustentada é a medida com melhor evidência, e o efeito cresce com o tamanho da perda. Para adultos com MASLD e sobrepeso, a diretriz europeia recomenda mirar uma redução mantida de 5% ou mais do peso para diminuir a gordura, de 7% a 10% para melhorar a inflamação e de 10% ou mais para melhorar a fibrose. A brasileira sugere mais de 7% para melhorar a esteato-hepatite sem piora da fibrose.
Um estudo publicado na revista Gastroenterology em 2015 acompanhou por 52 semanas, num único centro em Havana, 293 pessoas com esteato-hepatite confirmada por biópsia e orientadas a mudar o estilo de vida. Entre quem perdeu 10% ou mais do peso, 90% tiveram resolução da esteato-hepatite e 45%, regressão da fibrose. Só 30% chegaram a perder 5%.
- Alimentação: padrão parecido com o mediterrâneo, rico em vegetais, fibras e gorduras insaturadas; menos ultraprocessados; nada de bebidas adoçadas, como refrigerante (diretriz europeia).
- Atividade física: de preferência mais de 150 minutos por semana de atividade moderada ou 75 de atividade intensa (diretriz europeia); a brasileira recomenda exercício aeróbico e de força pelo menos três vezes por semana.
- Álcool: reduzir ou parar, e parar de vez quando já existe fibrose importante (detalhes nas perguntas frequentes).
- Peso normal: quem tem MASLD sem excesso de peso também recebe a recomendação de dieta e exercício (diretriz europeia).
Na obesidade, a cirurgia bariátrica é uma opção prevista nas diretrizes. Para suplementos, chás e fitoterápicos, a diretriz europeia considera a evidência insuficiente para recomendá-los como tratamento da MASLD; quando algum entra, é por decisão médica individual, com acompanhamento.
Gordura no fígado tem remédio? O que já foi aprovado
Para a gordura sem inflamação, não há remédio específico aprovado. A novidade está na MASH com fibrose moderada ou avançada (F2 ou F3), sem cirrose, em que dois remédios receberam aprovação de agências reguladoras, sempre junto de dieta e atividade física:
- Resmetirom: comprimido que age num receptor do hormônio da tireoide presente no fígado. Teve aprovação acelerada da FDA, a agência americana, em março de 2024, e autorização condicional (dada enquanto faltam dados a completar) na União Europeia em agosto de 2025. No estudo de 2024 da revista New England Journal of Medicine, com 966 pacientes, a esteato-hepatite se resolveu sem piora da fibrose em 26% a 30% de quem recebeu o remédio, contra cerca de 10% no placebo (comprimido sem princípio ativo), em 52 semanas.
- Semaglutida: da classe GLP-1 (que imita um hormônio do intestino ligado à saciedade), já usada no diabetes e na obesidade. Teve aprovação acelerada da FDA para a MASH em agosto de 2025, e a Anvisa ampliou em dezembro de 2025 a indicação da semaglutida usada na obesidade para adultos com MASH e fibrose moderada a avançada, sem cirrose. No estudo ESSENCE, de 2025, na mesma revista, entre 800 pacientes analisados em 72 semanas, a esteato-hepatite se resolveu sem piora da fibrose em 63% do grupo da semaglutida e 34% do placebo, e a fibrose melhorou em 37% e 22%.
As aprovações aceleradas se basearam na melhora vista na biópsia, e os estudos seguem para confirmar o benefício clínico a longo prazo. A diretriz europeia orienta considerar o resmetirom na MASH com fibrose F2 ou mais, onde estiver aprovado, e não recomenda remédio específico para MASH na cirrose. A pioglitazona (usada no diabetes) e a vitamina E recebem recomendações diferentes de uma diretriz para outra. Indicar qualquer um deles é decisão médica individual. Os exames de quem usa GLP-1 estão no artigo sobre exames antes e durante o GLP-1.
Quando procurar o hepatologista?
Com baixo risco de fibrose, o acompanhamento pode ficar fora da hepatologia, segundo a AASLD. O hepatologista (médico que cuida das doenças do fígado) entra quando:
- o FIB-4 vem de 1,3 ou mais e a elastografia mostra 8 kPa ou mais (diretriz europeia);
- o FIB-4 passa de 2,67, ou as enzimas do fígado ficam altas por mais de 6 meses (AASLD);
- o exame físico mostra sinais de doença avançada, como fígado endurecido, baço aumentado ou líquido na barriga.
Como é feita a avaliação no consultório
A consulta começa pela história: evolução do peso, consumo de álcool, remédios em uso, diabetes e doença do fígado na família, sono e atividade física. O exame físico registra peso, cintura e pressão, e os exames de sangue seguem o que as diretrizes listam: glicemia, insulina, hemoglobina glicada (a média da glicose dos últimos meses), colesterol, triglicérides, TGO, TGP, plaquetas para o FIB-4, rins e, conforme o caso, ferritina e hepatites virais. A bioimpedância (exame que estima músculo, gordura e água pela passagem de uma corrente elétrica fraca) ajuda a acompanhar se a perda de peso vem da gordura e se o músculo se mantém.
No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, essas medidas se repetem nos retornos para que a evolução apareça em números. Quando o risco de fibrose não está afastado, o encaminhamento ao hepatologista faz parte do plano.
Perguntas frequentes
Esteatose hepática é reversível?
Pode regredir, principalmente antes da cirrose. A gordura diminui com perda de peso sustentada, e estudos com biópsia mostram que perdas maiores também reduzem a inflamação e a fibrose: num estudo de 2015, 45% de quem perdeu 10% ou mais do peso teve regressão da fibrose. Na cirrose, o foco passa a ser evitar complicações, com o hepatologista.
Gordura no fígado dá sintoma ou causa dor?
Na maioria das pessoas, não dá sintoma ou dá sintomas vagos, segundo a AASLD (associação americana para o estudo das doenças do fígado). Por isso, o diagnóstico costuma aparecer num exame de imagem feito por outro motivo. Fígado endurecido, baço aumentado e líquido na barriga são sinais de doença avançada e pedem avaliação médica sem demora.
Exame de sangue normal descarta gordura no fígado?
Não. As enzimas do fígado (TGO e TGP) podem estar normais em quem tem gordura, inflamação e até fibrose avançada, e a diretriz brasileira de 2023 não recomenda usá-las sozinhas para rastrear o problema. Em quem tem excesso de peso ou diabetes, a investigação junta exame de imagem, FIB-4 e, quando indicado, elastografia.
Quem tem gordura no fígado pode beber álcool?
A diretriz brasileira registra que não há quantidade segura estabelecida. A europeia orienta desencorajar o consumo e parar por completo quando há fibrose avançada ou cirrose, e a americana pede abstinência total a partir da fibrose moderada (F2). O álcool potencializa a agressão ao fígado de quem tem obesidade ou diabetes.
Café faz bem para quem tem gordura no fígado?
Há sinais a favor, vindos de estudos observacionais, que acompanham hábitos sem sortear quem toma café. A AASLD registra que 3 xícaras ou mais por dia, com ou sem cafeína, se associam a doença do fígado menos avançada, se não houver contraindicação; a diretriz brasileira considera 1 a 3 xícaras por dia.
Conclusão
Gordura no fígado é comum, costuma não dar sintoma e pode regredir, e o futuro do fígado depende da fibrose. Perda de peso sustentada, alimentação melhor, atividade física e pouco ou nenhum álcool são a base.
A sigla nova, MASLD, resume a mensagem: a gordura no fígado faz parte do metabolismo, e o cuidado começa por ele.
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