Metabolismo

Gordura no fígado (esteatose hepática): o que é, o que o grau do ultrassom significa, como avaliar a fibrose e o que ajuda

Dr. Rodrigo Neves 8 de outubro de 2026 Leitura: 11 min

Resposta direta

Gordura no fígado, ou esteatose hepática, é o acúmulo de gordura nas células do fígado, quase sempre ligado a excesso de peso, glicose, pressão ou colesterol alterados. Pode regredir: com sobrepeso, as diretrizes indicam perder 5% do peso para reduzir a gordura e 7% a 10% para a inflamação. O grau do ultrassom não mede fibrose (cicatriz), estimada pelo FIB-4, cálculo com exames de sangue, e pela elastografia, que avalia a rigidez do fígado.

Gordura no fígado virou assunto de almoço de família: alguém conta que também tem um pouco, outro diz que é coisa de quem bebe, um terceiro já indica um chá. A naturalidade tem explicação. Uma revisão de 92 estudos, publicada em 2023 na revista Hepatology, estimou que cerca de 30% das pessoas no mundo têm o problema. Segundo a associação americana de hepatologia (AASLD), na maioria dos casos a pessoa não sente nada.

Neste artigo, explico o nome novo da doença, o que o grau do ultrassom deixa de fora, os exames que avaliam o risco, o que as diretrizes recomendam e os remédios aprovados.

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O que é gordura no fígado e o que significa a sigla MASLD?

Esteatose hepática é o excesso de gordura dentro das células do fígado. Pela definição da AASLD (associação americana para o estudo das doenças do fígado), ela existe quando 5% ou mais dessas células acumulam gordura.

Em 2023, um consenso conduzido por três grandes associações internacionais de hepatologia, com 236 participantes de 56 países, trocou o nome antigo, doença hepática gordurosa não alcoólica, por doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, a MASLD (sigla em inglês). As palavras "não alcoólica" e "gordurosa" foram consideradas estigmatizantes por 61% e 66% dos participantes. A definição também mudou: o diagnóstico passou a exigir gordura no fígado mais pelo menos 1 de 5 fatores de risco:

A forma com inflamação e lesão das células virou MASH (esteato-hepatite associada à disfunção metabólica), e quem tem esses fatores e bebe mais que um limite semanal de álcool entra numa categoria à parte, a MetALD. Em português, a Sociedade Brasileira de Diabetes usa a sigla DHEM. Pela diretriz europeia de 2024 (EASL, EASD e EASO, associações europeias de fígado, diabetes e obesidade), quase todo diagnóstico antigo cabe no novo, com 99,8% de concordância num grande grupo de pacientes.

Gordura no fígado é grave? O que o grau 1, 2 ou 3 do ultrassom quer dizer

O grau do laudo (leve, moderado ou acentuado) é uma estimativa visual da quantidade de gordura. A AASLD descreve essa leitura do ultrassom comum como subjetiva e pouco sensível para pouca gordura, sobretudo na obesidade. A diretriz brasileira de 2023, da Sociedade Brasileira de Hepatologia com as sociedades de endocrinologia e de obesidade, registra que o ultrassom só detecta a gordura quando ela passa de cerca de 12,5% do fígado.

O grau mede gordura e não mede inflamação nem fibrose (a cicatriz que se forma quando a agressão ao fígado se prolonga). Grau 1 não garante um fígado sem cicatriz, grau 3 não quer dizer cirrose, e um ultrassom sem gordura visível não exclui inflamação nem fibrose, lembra a AASLD. A fibrose vai de F0 (sem cicatriz) a F4 (cirrose), com F2 moderada e F3 avançada, e a AASLD aponta o estágio dela como o que melhor prevê a evolução a longo prazo.

A gravidade também passa pelo coração: para a AASLD, as causas de morte mais comuns em quem tem gordura no fígado são as doenças cardiovasculares e os cânceres fora do fígado, à frente da doença hepática. A diretriz europeia aponta maior risco de fibrose progressiva em homens acima de 50 anos, mulheres depois da menopausa e quem soma fatores metabólicos, com destaque para diabetes tipo 2 e obesidade abdominal.

O que causa gordura no fígado?

O consenso de 2023 aponta a resistência à insulina (quando as células respondem mal a esse hormônio e o pâncreas precisa produzir mais) como a principal disfunção metabólica por trás da MASLD, e a AASLD a descreve como praticamente universal nesses pacientes: a gordura do corpo, resistente à insulina, solta mais ácidos graxos (as moléculas de gordura do sangue) mesmo em jejum, e parte deles se acumula no fígado.

O mecanismo está no artigo sobre resistência à insulina e emagrecimento, e o caminho da gordura da barriga até o fígado, no de gordura visceral. A diretriz europeia admite medir a resistência com o HOMA-IR (índice calculado com a glicose e a insulina de jejum) em quem tem suspeita de MASLD e não tem diabetes.

Antes de fechar o diagnóstico, outras causas precisam ser afastadas: álcool, alguns remédios, hepatites virais, doenças autoimunes do fígado e o acúmulo de ferro chamado hemocromatose, investigado com ferritina e saturação de transferrina (o quanto do transportador de ferro do sangue está ocupado). Quando a ferritina vem alta, vale ler o artigo sobre ferritina alta.

Quais exames avaliam a gordura no fígado e o risco de fibrose?

As enzimas do fígado, TGO e TGP (também chamadas AST e ALT), não servem sozinhas para rastrear o problema, diz a diretriz brasileira, voltada a adultos com sobrepeso ou obesidade. O documento registra que uma TGP normal não garante a ausência de inflamação com fibrose avançada.

O exame de partida para estimar a fibrose é o FIB-4, um índice calculado com idade, TGO, TGP e plaquetas (células do sangue ligadas à coagulação). Pela diretriz europeia, abaixo de 1,3 o risco de fibrose avançada é baixo (acima dos 65 anos, esse corte sobe para 2,0); de 1,3 para cima, pede-se um segundo exame. Acima de 2,67, a AASLD fala em risco alto.

O segundo exame costuma ser a elastografia hepática, parecida com um ultrassom, que mede a rigidez do fígado: quanto mais cicatriz, mais duro o órgão. O resultado sai em quilopascais (kPa, a unidade da rigidez), e a técnica de referência nas diretrizes é a elastografia transitória, feita no aparelho FibroScan. Na diretriz europeia, abaixo de 8 kPa o risco é baixo, e 8 kPa ou mais levam ao hepatologista. A biópsia fica para casos selecionados, como a dúvida sobre outra doença do fígado.

Esteatose hepática: o que fazer para tirar a gordura do fígado?

Perder peso de forma sustentada é a medida com melhor evidência, e o efeito cresce com o tamanho da perda. Para adultos com MASLD e sobrepeso, a diretriz europeia recomenda mirar uma redução mantida de 5% ou mais do peso para diminuir a gordura, de 7% a 10% para melhorar a inflamação e de 10% ou mais para melhorar a fibrose. A brasileira sugere mais de 7% para melhorar a esteato-hepatite sem piora da fibrose.

Um estudo publicado na revista Gastroenterology em 2015 acompanhou por 52 semanas, num único centro em Havana, 293 pessoas com esteato-hepatite confirmada por biópsia e orientadas a mudar o estilo de vida. Entre quem perdeu 10% ou mais do peso, 90% tiveram resolução da esteato-hepatite e 45%, regressão da fibrose. Só 30% chegaram a perder 5%.

Na obesidade, a cirurgia bariátrica é uma opção prevista nas diretrizes. Para suplementos, chás e fitoterápicos, a diretriz europeia considera a evidência insuficiente para recomendá-los como tratamento da MASLD; quando algum entra, é por decisão médica individual, com acompanhamento.

Gordura no fígado tem remédio? O que já foi aprovado

Para a gordura sem inflamação, não há remédio específico aprovado. A novidade está na MASH com fibrose moderada ou avançada (F2 ou F3), sem cirrose, em que dois remédios receberam aprovação de agências reguladoras, sempre junto de dieta e atividade física:

As aprovações aceleradas se basearam na melhora vista na biópsia, e os estudos seguem para confirmar o benefício clínico a longo prazo. A diretriz europeia orienta considerar o resmetirom na MASH com fibrose F2 ou mais, onde estiver aprovado, e não recomenda remédio específico para MASH na cirrose. A pioglitazona (usada no diabetes) e a vitamina E recebem recomendações diferentes de uma diretriz para outra. Indicar qualquer um deles é decisão médica individual. Os exames de quem usa GLP-1 estão no artigo sobre exames antes e durante o GLP-1.

Quando procurar o hepatologista?

Com baixo risco de fibrose, o acompanhamento pode ficar fora da hepatologia, segundo a AASLD. O hepatologista (médico que cuida das doenças do fígado) entra quando:

Como é feita a avaliação no consultório

A consulta começa pela história: evolução do peso, consumo de álcool, remédios em uso, diabetes e doença do fígado na família, sono e atividade física. O exame físico registra peso, cintura e pressão, e os exames de sangue seguem o que as diretrizes listam: glicemia, insulina, hemoglobina glicada (a média da glicose dos últimos meses), colesterol, triglicérides, TGO, TGP, plaquetas para o FIB-4, rins e, conforme o caso, ferritina e hepatites virais. A bioimpedância (exame que estima músculo, gordura e água pela passagem de uma corrente elétrica fraca) ajuda a acompanhar se a perda de peso vem da gordura e se o músculo se mantém.

No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, essas medidas se repetem nos retornos para que a evolução apareça em números. Quando o risco de fibrose não está afastado, o encaminhamento ao hepatologista faz parte do plano.

Perguntas frequentes

Esteatose hepática é reversível?

Pode regredir, principalmente antes da cirrose. A gordura diminui com perda de peso sustentada, e estudos com biópsia mostram que perdas maiores também reduzem a inflamação e a fibrose: num estudo de 2015, 45% de quem perdeu 10% ou mais do peso teve regressão da fibrose. Na cirrose, o foco passa a ser evitar complicações, com o hepatologista.

Gordura no fígado dá sintoma ou causa dor?

Na maioria das pessoas, não dá sintoma ou dá sintomas vagos, segundo a AASLD (associação americana para o estudo das doenças do fígado). Por isso, o diagnóstico costuma aparecer num exame de imagem feito por outro motivo. Fígado endurecido, baço aumentado e líquido na barriga são sinais de doença avançada e pedem avaliação médica sem demora.

Exame de sangue normal descarta gordura no fígado?

Não. As enzimas do fígado (TGO e TGP) podem estar normais em quem tem gordura, inflamação e até fibrose avançada, e a diretriz brasileira de 2023 não recomenda usá-las sozinhas para rastrear o problema. Em quem tem excesso de peso ou diabetes, a investigação junta exame de imagem, FIB-4 e, quando indicado, elastografia.

Quem tem gordura no fígado pode beber álcool?

A diretriz brasileira registra que não há quantidade segura estabelecida. A europeia orienta desencorajar o consumo e parar por completo quando há fibrose avançada ou cirrose, e a americana pede abstinência total a partir da fibrose moderada (F2). O álcool potencializa a agressão ao fígado de quem tem obesidade ou diabetes.

Café faz bem para quem tem gordura no fígado?

Há sinais a favor, vindos de estudos observacionais, que acompanham hábitos sem sortear quem toma café. A AASLD registra que 3 xícaras ou mais por dia, com ou sem cafeína, se associam a doença do fígado menos avançada, se não houver contraindicação; a diretriz brasileira considera 1 a 3 xícaras por dia.

Conclusão

Gordura no fígado é comum, costuma não dar sintoma e pode regredir, e o futuro do fígado depende da fibrose. Perda de peso sustentada, alimentação melhor, atividade física e pouco ou nenhum álcool são a base.

A sigla nova, MASLD, resume a mensagem: a gordura no fígado faz parte do metabolismo, e o cuidado começa por ele.

Referências

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