Metabolismo

Efeitos colaterais do Mounjaro (tirzepatida): o que é comum, quando passa e quais sinais pedem atendimento

Dr. Rodrigo Neves 8 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

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Os efeitos colaterais mais comuns do Mounjaro (tirzepatida) são digestivos: náusea, diarreia, prisão de ventre e vômito. Nos estudos citados na bula americana, a náusea atingiu de 25% a 29% das pessoas, contra 8% no grupo placebo (que recebeu injeção sem remédio). Eles aparecem mais no início e nos aumentos de dose e tendem a diminuir. Dor abdominal forte e persistente pede atendimento imediato.

Nos dois estudos de obesidade da bula americana da tirzepatida, 30% das pessoas do grupo placebo relataram algum sintoma digestivo. Entre quem recebeu o remédio, foram 56%. A diferença explica por que enjoo, diarreia e intestino preso lideram as queixas de quem usa Mounjaro, e mostra que parte desses sintomas aparece até sem o remédio.

A seguir, o que as bulas brasileira e americana registram sobre frequência, sinais de alerta, contraindicações, anticoncepcional, gravidez e anestesia. A comparação com a semaglutida está em Mounjaro ou Ozempic: o que muda com o GIP e o GLP-1.

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Quais são os efeitos colaterais mais comuns do Mounjaro?

A bula brasileira, publicada pela Anvisa em maio de 2026, classifica náusea e diarreia como muito comuns (pelo menos 1 em cada 10 pessoas tratadas); no controle do peso, vômito e prisão de ventre também. Dor abdominal, má digestão, arroto, gases, barriga estufada e refluxo são comuns, entre 1 em 100 e 1 em 10.

A bula aprovada pela FDA, a agência de medicamentos dos Estados Unidos, para obesidade traz os números de dois estudos do programa SURMOUNT: 2.519 adultos com obesidade ou sobrepeso, com ou sem diabetes tipo 2, que receberam o remédio por até 72 semanas (fora os do grupo placebo). Conforme a dose:

Entre 1,9% e 4,3% pararam o tratamento por sintomas digestivos, contra 0,5% no placebo. No SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine em 2022 com 2.539 adultos com obesidade e sem diabetes, a maioria desses efeitos foi leve a moderada.

Sentir menos fome faz parte do efeito esperado. O apetite também depende da leptina e da grelina, explicadas no artigo sobre os hormônios da fome.

Mounjaro dá diarreia, enjoo ou prisão de ventre? Quando aparece e quanto dura

O remédio retarda o esvaziamento do estômago e reduz o apetite. Segundo a bula brasileira, náusea, vômito e diarreia foram mais frequentes no período de aumento de dose e diminuíram com o tempo. A bula americana acrescenta que a maioria de quem parou por efeito adverso o fez nos primeiros meses, por sintomas digestivos.

A continuação do SURMOUNT-1, publicada em 2025 com 1.032 pessoas com obesidade e pré-diabetes tratadas por 176 semanas (pouco mais de 3 anos), manteve o padrão: efeitos digestivos à frente, a maioria leve a moderada, concentrados nas primeiras 20 semanas, e nenhum novo sinal de segurança.

Após a comercialização, a bula americana passou a registrar prisão de ventre grave, com fezes endurecidas presas no intestino, e obstrução intestinal.

Diarreia e vômito persistentes trazem a desidratação, que, segundo a bula brasileira, pode piorar os rins, até com insuficiência renal aguda, sobretudo em idosos. O guia do paciente da bula americana orienta beber líquidos e avisar o médico quando enjoo, vômito ou diarreia não passam.

Quais sinais pedem atendimento imediato?

Alguns sinais descritos nas bulas brasileira e americana não devem esperar a próxima consulta:

Na suspeita de pancreatite ou de reação alérgica grave, as duas bulas orientam interromper o remédio e procurar atendimento.

Mounjaro causa pancreatite? E problema na vesícula?

Pode, mas é incomum: a bula brasileira coloca a pancreatite aguda entre 1 em 1.000 e 1 em 100 pessoas. Nos dois estudos de obesidade da bula americana, a pancreatite confirmada por um comitê de avaliação apareceu em 0,2% de quem usou tirzepatida e em 0,2% do placebo. Depois da comercialização, a mesma bula registra casos graves; por isso, dor abdominal forte e persistente não espera a próxima consulta.

Em janeiro de 2026, a MHRA, agência de medicamentos do Reino Unido, atualizou as informações da classe GLP-1, incluindo a tirzepatida, sobre o risco pequeno de pancreatite aguda grave e investiga se os genes influenciam esse risco. A bula brasileira afirma que, com o diagnóstico confirmado, o remédio não deve ser reiniciado, e que o aumento isolado de amilase e lipase (enzimas do pâncreas), sem outros sinais, não indica pancreatite.

Na vesícula, a bula brasileira classifica a doença aguda como comum no controle do peso. Nos estudos americanos, houve cálculo em 1,1% de quem usou o remédio e em 1% do placebo; colecistite (inflamação da vesícula) em 0,7% contra 0,2%; e retirada da vesícula em 0,2% contra nenhum caso. A bula americana associa esses eventos à perda de peso, e a brasileira indica exames da vesícula na suspeita de cálculo.

Mounjaro faz cair o cabelo?

Pode acontecer. A bula brasileira lista a queda de cabelo como comum no controle do peso. Na bula americana, ela apareceu em 4% a 5% de quem usou o remédio, contra 1% no placebo, foi bem mais relatada por mulheres (7,1%) do que por homens (0,5%) e foi associada à perda de peso. Ninguém que usava o remédio parou o tratamento por isso.

Uma meta-análise (estudo que reúne vários outros) publicada em 2026 na revista Diabetes Research and Clinical Practice juntou 9 estudos de intervenção, com 4.114 usuários de remédios da classe GLP-1: o risco de queda de cabelo foi cerca de três vezes o do placebo, com o evento em 3,9% dos usuários. Um artigo de revisão de 2026 lembra que a causa ainda não foi provada e aponta como mecanismo possível a perda de peso rápida, que pode desencadear o eflúvio telógeno, uma queda difusa e reversível que costuma surgir cerca de 3 meses depois do início do remédio que a provoca. Os autores recomendam proteína e micronutrientes suficientes e acompanhamento de perto quando o peso cai rápido.

Quem não pode usar Mounjaro? Contraindicações e alertas da bula

A bula brasileira traz duas contraindicações: alergia grave conhecida à tirzepatida ou aos componentes, e histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide (tipo raro de câncer da tireoide) ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, a NEM 2 (síndrome hereditária ligada a esse câncer). Em ratos, a tirzepatida causou tumores nas células C da tireoide, e não se sabe se isso ocorre em humanos; por isso, caroço no pescoço, dificuldade para engolir, falta de ar ou rouquidão persistente devem ser levados ao médico.

A mesma bula traz outros alertas:

Na gravidez, a bula afirma que o Mounjaro não deve ser usado para perder peso e que, quando a mulher deseja engravidar, deve ser suspenso pelo menos 1 mês antes, por causa da meia-vida longa, de cerca de 5 dias (tempo que o organismo leva para eliminar metade do remédio).

Mounjaro corta o efeito do anticoncepcional?

Pode reduzir o efeito da pílula, porque o esvaziamento lento do estômago muda a absorção do que é tomado pela boca. A bula brasileira não considera clinicamente relevante a queda no nível dos hormônios da pílula após uma aplicação e dispensa ajuste em mulheres com IMC (índice de massa corporal) normal, mas registra que há poucos dados em mulheres com obesidade ou sobrepeso e que a perda de eficácia não pode ser descartada.

Por isso, a recomendação da bula é trocar para um método que não seja oral ou somar um método de barreira, como a camisinha, por 4 semanas no início do tratamento e por 4 semanas depois de cada aumento de dose. Métodos hormonais que não são tomados pela boca, como DIU hormonal, implante anticoncepcional ou adesivo, não devem ser afetados. A escolha do método é feita com o médico.

Vai fazer cirurgia ou exame com sedação? O que dizem as sociedades sobre anestesia e jejum

Com o estômago esvaziando devagar, pode sobrar alimento mesmo após o jejum habitual. A bula brasileira registra broncoaspiração (conteúdo do estômago indo para os pulmões) com a classe GLP-1 sob anestesia geral ou sedação profunda, e pede que o médico pergunte sobre o uso antes desses procedimentos.

Em maio de 2026, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) atualizou o consenso feito com a Sociedade Brasileira de Diabetes e a ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica). A orientação é que quem usou esses remédios nos últimos 6 meses e tem cirurgia eletiva marcada passe antes por consulta pré-anestésica. Manter ou suspender o remédio, e por quanto tempo, é decisão do anestesiologista, tomada com a equipe cirúrgica, o médico que acompanha o tratamento e o paciente; a nota prevê a suspensão nos casos de maior risco. O preparo da véspera e o jejum, mais cuidadosos que o habitual, também são definidos pela equipe, e um ultrassom do estômago no dia, quando disponível, mostra se ele está vazio.

A nota considera de maior risco o início do remédio há menos de 12 semanas, o aumento de dose nos últimos 3 meses, sintomas como enjoo, vômito, refluxo ou estômago cheio, e o uso sem acompanhamento médico adequado. Na prática: avise o anestesiologista com antecedência e não suspenda nem mude o remédio por conta própria.

Como é feita a avaliação antes e durante o uso do Mounjaro

A bula brasileira indica o Mounjaro no controle crônico do peso para adultos com IMC a partir de 30, ou a partir de 27 com uma doença ligada ao peso, junto de dieta e atividade física. Dentro dessa indicação, a avaliação pesa benefício e risco em cada pessoa.

Na consulta, a avaliação percorre na história da pessoa e da família os alertas descritos acima, os remédios em uso e os planos de gravidez ou de cirurgia; o roteiro completo está em exames antes e durante o uso de GLP-1. O exame físico inclui o pescoço, e a bioimpedância (exame que estima gordura, músculo e água do corpo) registra a composição de partida. O que acontece com o músculo está em GLP-1 e perda de massa muscular.

Nos retornos, o acompanhamento olha ritmo da perda de peso, hidratação, intestino, proteína na alimentação, cabelo e humor, e define com a pessoa o que ajustar. No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, esse acompanhamento faz parte do emagrecimento com acompanhamento médico.

Este artigo trata do medicamento registrado na Anvisa; as canetas manipuladas estão em caneta emagrecedora manipulada.

Perguntas frequentes

Mounjaro dá dor de cabeça ou dor no corpo?

Dor de cabeça e dor no corpo não estão na lista de reações adversas da bula brasileira, que traz cansaço e tontura como comuns. Vômito e diarreia podem levar à desidratação, que causa dor de cabeça e sensação de cabeça leve, segundo o serviço público de saúde britânico (NHS). Sintoma que persiste merece avaliação, porque pode ter outra causa.

Mounjaro causa depressão?

A bula brasileira mantém um alerta, comum aos remédios para perda de peso, para observar depressão e mudanças de humor. Em janeiro de 2026, a FDA analisou 91 estudos com placebo e 107.910 pacientes e não encontrou aumento de pensamentos suicidas, depressão ou ansiedade com a classe GLP-1. Mudança de humor durante o tratamento deve ser contada ao médico.

Mounjaro pode afetar a visão?

Em quem tem retinopatia diabética (lesão da retina pelo diabetes), a bula alerta para piora temporária quando a glicose melhora rápido. Também foram relatados, com a classe GLP-1, casos de neuropatia óptica isquêmica (falta de circulação no nervo do olho), condição rara que pode reduzir a visão de forma permanente. Mudança na visão deve ser comunicada ao médico; perda súbita pede atendimento imediato.

Quem amamenta pode usar Mounjaro?

Segundo a bula brasileira, após uma única aplicação a tirzepatida ficou indetectável ou muito baixa no leite materno, e o remédio só deve ser usado na amamentação se o benefício para a mãe justificar o risco para o bebê. A bula americana acrescenta que faltam dados sobre efeitos no bebê e na produção de leite. A decisão é individual e médica.

Mounjaro é seguro para idosos?

Nos estudos de controle do peso citados na bula brasileira, 9% dos tratados tinham 65 anos ou mais, sem diferença geral de segurança ou eficácia em relação aos mais jovens; acima de 85 anos, os dados são muito limitados. A bula pede atenção à desidratação nos idosos, mais sujeitos à piora dos rins quando há vômito ou diarreia.

Conclusão

Os efeitos colaterais mais frequentes do Mounjaro são digestivos, a maioria leve a moderada, concentrados nas primeiras semanas e nos aumentos de dose. Os mais sérios, como pancreatite, colecistite e reação alérgica grave, são menos frequentes, têm sinais conhecidos e pedem atendimento rápido. Anticoncepcional oral, gravidez e anestesia pedem conversa antes, não depois.

A avaliação inicial e os retornos servem para perceber esses sinais cedo e ajustar o plano.

Referências

  1. Eli Lilly do Brasil Ltda. Mounjaro (tirzepatida) solução injetável: bula para o profissional de saúde. Bulário Eletrônico da Anvisa, expediente 0498077268, publicação em 21/05/2026. https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/q/?nomeProduto=mounjaro
  2. Eli Lilly and Company. ZEPBOUND (tirzepatide) injection: prescribing information and Medication Guide. U.S. Food and Drug Administration, revisão de 08/2026 (DailyMed). https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/drugInfo.cfm?setid=487cd7e7-434c-4925-99fa-aa80b1cc776b
  3. Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35658024/
  4. Jastreboff AM, le Roux CW, Stefanski A, et al. Tirzepatide for Obesity Treatment and Diabetes Prevention. N Engl J Med. 2025;392(10):958-971. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39536238/
  5. Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA). MHRA updates guidance for GLP-1 prescribers and patients. 29 jan. 2026. https://www.gov.uk/government/news/mhra-updates-guidance-for-glp-1-prescribers-and-patients
  6. Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Nota de atualização sobre as recomendações do manejo perioperatório dos agonistas do receptor GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP (C.SBA 01744/2026). Rio de Janeiro, 15 maio 2026. https://www.sbahq.org/wp-content/uploads/2026/05/C1744_26.pdf
  7. Cheng PL, Chang HC. Glucagon-like peptide-1 receptor agonists and hair loss: A systematic review and meta-analysis. Diabetes Res Clin Pract. 2026;237:113333. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42155605/
  8. Piraccini BM, Vañó-Galván S, Blume-Peytavi U, et al. Hair Loss in Patients on Glucagon-Like Peptide 1 Receptor Agonists: Understanding Risks and Managing Outcomes. Dermatol Ther (Heidelb). 2026;16(7):3345-3360. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13280097/
  9. U.S. Food and Drug Administration. FDA Requests Removal of Suicidal Behavior and Ideation Warning from Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist (GLP-1 RA) Medications. Drug Safety Communication, 13 jan. 2026. https://www.fda.gov/drugs/drug-safety-communications/fda-requests-removal-suicidal-behavior-and-ideation-warning-glucagon-peptide-1-receptor-agonist-glp
  10. NHS (National Health Service, Reino Unido). Dehydration: symptoms and when to get help. https://www.nhs.uk/conditions/dehydration/

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Dr. Rodrigo Neves

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