Metabolismo

Mounjaro e Ozempic fazem perder massa muscular? O que os estudos mostram e como proteger o músculo

Dr. Rodrigo Neves 8 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

Sim, parte do peso perdido é massa magra, mas a maior parte é gordura. Nos estudos com densitometria de corpo inteiro (DXA, exame que separa gordura, osso e massa magra), a massa magra foi cerca de 25% do peso perdido com tirzepatida (Mounjaro) e 38% com semaglutida (do Ozempic e do Wegovy). Massa magra inclui músculo, órgãos e água, e as sociedades orientam treino de força com proteína suficiente para proteger o músculo.

A balança mostra quanto o corpo perdeu, mas não diz de onde o peso saiu. Com as canetas para emagrecer, essa diferença virou assunto: no buscador, "Mounjaro perde massa muscular ou gordura" aparece ao lado de "Mounjaro causa sarcopenia" e de "caneta emagrecedora sem perda de massa muscular".

Parte da resposta já existe: alguns estudos pesaram gordura, osso e massa magra separadamente durante o tratamento com semaglutida (substância do Ozempic e do Wegovy) e tirzepatida (substância do Mounjaro). As duas imitam o GLP-1, hormônio do intestino que aumenta a saciedade, e a tirzepatida imita também o GIP, outro hormônio intestinal. A seguir estão os números, quem tem mais risco, o que as sociedades médicas orientam e o que ainda falta saber. Os demais efeitos colaterais estão em efeitos colaterais do Mounjaro.

Está usando ou pensando em usar a caneta?

Uma avaliação que acompanha composição corporal e força ajuda a planejar o tratamento sem descuidar do músculo.

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Mounjaro e Ozempic fazem perder massa muscular? O que os estudos mediram

Fazem perder alguma massa magra, junto com uma quantidade maior de gordura. O dado mais citado vem do STEP 1, ensaio randomizado (em que um sorteio define quem recebe o remédio e quem recebe placebo, uma substância sem efeito) publicado no New England Journal of Medicine em 2021, com 1.961 adultos com sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, acompanhados por 68 semanas. Parte deles fez densitometria de corpo inteiro (DXA, exame de raio X de baixa dose que separa o peso em gordura, osso e massa magra). No grupo da semaglutida, de uma perda média de 13,6 kg, 8,3 kg foram gordura e 5,3 kg massa magra: 38% do peso perdido, pela conta de um documento conjunto de quatro sociedades americanas publicado em 2025.

Com a tirzepatida, a referência é o SURMOUNT-1, outro ensaio randomizado. Nos 160 participantes que fizeram DXA (73% mulheres), quem usou o remédio perdeu em média 21,3% do peso, 33,9% da gordura e 10,9% da massa magra em 72 semanas. Do peso perdido, cerca de 75% foi gordura e 25% massa magra, a mesma proporção do grupo placebo, que emagreceu bem menos.

Os dois números vêm de estudos diferentes e não servem de disputa entre os remédios. Uma revisão de 2024 na revista Diabetes, Obesity and Metabolism registra a variação: conforme o estudo, a massa magra respondeu por 40% a 60% do peso perdido, ou por 15% ou menos.

Uma meta-análise (estudo que junta os resultados de vários outros) publicada em 2026 na mesma revista reuniu ensaios randomizados com perda de pelo menos 10% do peso. A massa magra respondeu por 33,3% do peso perdido com os remédios dessa família, 34,2% com a cirurgia bariátrica e 14,9% com dieta: 22,3% nos estudos de dieta sem exercício e 7,7% nos de dieta com exercício.

Nada disso apaga o benefício do tratamento quando ele é indicado: segundo um resumo apresentado em congresso com dados do subgrupo do STEP 1 que fez DXA, a gordura visceral (a que envolve os órgãos do abdome) caiu 27,4%, e a fatia de massa magra no peso total do corpo subiu 3 pontos percentuais.

Massa magra é a mesma coisa que músculo?

Não. Na DXA, massa magra é o que sobra quando se separa a gordura: músculo, órgãos, líquidos do corpo, a água presente no próprio tecido gorduroso e, em parte dos estudos, o osso. A revisão de 2024 lembra que, por isso, a queda de massa magra nem sempre reflete a mesma queda de músculo.

O documento conjunto de 2025 faz a conta para o STEP 1: como o músculo corresponde a cerca de metade da massa magra, os 38% de massa magra equivalem a algo perto de 20% do peso perdido em músculo. É uma estimativa, mas mostra que nem todo quilo de massa magra é músculo perdido.

E a qualidade e a força do músculo que fica?

O músculo tem qualidade, que piora com gordura infiltrada entre as fibras, e tem força, que é o que permite subir a escada ou levantar da cadeira sem apoio.

Na parte do estudo SURPASS-3 que fez ressonância magnética da coxa, 246 adultos com diabetes tipo 2 usaram tirzepatida ou insulina por 52 semanas. Com a tirzepatida, a gordura infiltrada no músculo caiu mais do que o esperado para a perda de peso, e o volume muscular diminuiu na proporção esperada para o peso perdido, numa comparação com quase 3 mil pessoas do UK Biobank, banco de dados de saúde britânico. Na maior dose testada, a queda do volume ajustado para o tamanho do corpo foi um pouco maior que a esperada. A análise foi feita depois do estudo, sem planejamento prévio, e financiada pelo fabricante.

A revisão de 2024, com base em estudos de ressonância, interpreta as mudanças no músculo como adaptação: o músculo diminui na medida esperada para a idade, a doença e o peso perdido, e a menor infiltração de gordura sugere melhor qualidade. Os autores pedem medidas melhores de força, mobilidade e função nos próximos estudos.

Sobre a função, os dados vêm de questionário: no STEP 1 e no SURMOUNT-1, quem usou o remédio relatou melhora maior do funcionamento físico do que quem usou placebo. Força medida com teste ainda é dado escasso: a meta-análise de 2026 não conseguiu compará-la entre os tratamentos, porque foi medida de maneira inconsistente.

Quem tem mais risco de perder músculo com as canetas?

Segundo o documento conjunto de 2025, a perda de massa magra depende também do corte de calorias, da velocidade da perda de peso e do treino de força. Com menos apetite, fica difícil comer proteína suficiente, e o texto aponta risco maior de perda muscular em quem tem:

O mesmo documento pede avaliar o risco de sarcopenia (perda de força e de massa muscular) em pessoas mais velhas, sedentárias, com doença crônica, desnutridas ou com diabetes tipo 2. A revisão de 2024 acrescenta que idade avançada e doença mais grave podem pesar na escolha de quem é bom candidato ao tratamento. A perda de músculo com a idade está explicada em sarcopenia: por que você perde músculo depois dos 50, e o papel do hormônio masculino, em testosterona e massa muscular.

Como não perder massa muscular com Mounjaro: o que as sociedades orientam

Nenhuma medida garante perda zero de músculo. As duas que se repetem nas orientações das sociedades são treino de força e proteína suficiente, juntos.

Treino de força. O documento conjunto de 2025 afirma que programas estruturados de força, ou de força com aeróbico, estão bem estabelecidos para ajudar a preservar a massa magra durante o emagrecimento; o aeróbico sozinho tem efeito menor. A orientação é prescrever esses remédios junto com um programa de exercício: força pelo menos três vezes por semana e pelo menos 150 minutos semanais de aeróbico moderado, como caminhada rápida, ajustados ao condicionamento de cada pessoa. O consenso europeu de 2026 da EASO (Associação Europeia para o Estudo da Obesidade), feito com entidades de nutricionistas e de pacientes, vai na mesma linha: exercício de força progressivo e proteína adequada.

Um ensaio randomizado de 2021 mostra o valor da combinação: 195 adultos com obesidade que tinham emagrecido com dieta de poucas calorias passaram um ano com exercício, liraglutida (um GLP-1 mais antigo), os dois juntos ou placebo. A combinação reduziu o percentual de gordura em 3,9 pontos, o dobro, aproximadamente, do exercício ou do remédio isolados.

Proteína. A referência diária usada nos Estados Unidos para adultos é 0,8 g por quilo de peso. O documento de 2025 registra metas mais altas, de 1,2 a 1,6 g por quilo por dia, propostas durante a perda de peso, sem consenso sobre qual peso usar na conta em quem tem obesidade. Alerta ainda que o consumo prolongado a partir de 2 g por quilo por dia deve ser evitado e que mais proteína, sem treino de força, provavelmente não basta. Como o remédio tira o apetite, o texto sugere comer primeiro a parte de proteína da refeição.

Como é feita a avaliação e o acompanhamento do músculo durante o tratamento

Na consulta, a avaliação começa pela história: peso ao longo da vida, alimentação, quanto a pessoa consegue comer com menos apetite, exercício, sono, doenças e remédios em uso. O exame físico pode incluir testes simples de força e desempenho, como levantar da cadeira várias vezes seguidas, subir escada ou levantar, caminhar alguns metros e voltar a sentar contando o tempo, citados pelo documento de 2025 como úteis em pessoas mais velhas.

A composição corporal serve para acompanhar a trajetória, mais do que um número isolado. A bioimpedância, que estima gordura e massa magra pela passagem de uma corrente elétrica fraca, pode ser repetida ao longo do tratamento; como ler o laudo está em como ler o resultado da bioimpedância. A DXA é a referência, mas é mais cara; o documento de 2025 fala em repeti-la a cada um ou dois anos. Nenhum dos dois exames mede força nem qualidade do músculo, por isso os testes de força entram junto.

Exames de sangue e investigação hormonal entram conforme o caso, já que testosterona baixa e menopausa estão entre os fatores de risco. A meta de proteína considera o peso usado na conta, a função dos rins e o que a pessoa consegue comer. No consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo, a composição corporal é reavaliada ao longo do tratamento, e o consenso europeu de 2026 recomenda que decisões como iniciar, aumentar, pausar ou suspender o remédio sejam tomadas com o paciente, pesando os riscos de tratar e de não tratar. O caminho completo está no guia de emagrecimento médico.

O que ainda não se sabe sobre GLP-1 e massa muscular

Perguntas frequentes

Mounjaro causa sarcopenia?

A pesquisa disponível não mostra se esses remédios, por si, levam ao diagnóstico de sarcopenia, que pelo consenso europeu de 2019 exige força baixa confirmada por pouca quantidade ou qualidade de músculo. Os grandes estudos mediram massa magra, e a força foi medida de forma inconsistente. O risco preocupa mais em quem já tem pouca força ou pouco músculo; veja o artigo sobre sarcopenia.

A tirzepatida faz perder mais músculo que a semaglutida?

Não há resposta definitiva, porque os estudos com DXA de cada uma tiveram pessoas e durações diferentes. Uma análise de prontuários de 2026, divulgada como preprint (versão publicada antes da revisão por outros cientistas), com quase 8 mil pessoas medidas em sua maioria por bioimpedância, viu queda um pouco maior de massa magra com tirzepatida. Por ser observacional (sem sorteio) e ainda sem revisão, não basta para orientar a escolha.

Perder massa magra com a caneta é sempre ruim?

Não necessariamente. Quem engorda ganha um pouco de massa magra pelo esforço de carregar o peso extra, e é esperado que parte dela vá embora quando o peso cai bastante, lembra a análise do SURMOUNT-1. No STEP 1, a fatia de massa magra no peso total até aumentou. A preocupação cresce quando a perda é grande, rápida ou atinge quem já tem pouco músculo.

Quando o remédio é suspenso, o músculo perdido volta?

Ainda não se sabe bem como fica a composição corporal depois da suspensão; o consenso europeu de 2026 põe essa fase entre as prioridades de pesquisa. O documento americano de 2025 alerta que uso intermitente e reganho de peso, sem cuidado com alimentação e exercício, podem agravar a perda de músculo e de osso. O que acontece com o peso está em GLP-1 e efeito rebote.

Wegovy faz perder mais músculo que o Ozempic?

Os dois têm a mesma substância, a semaglutida, em apresentações aprovadas para indicações diferentes. Os 38% de massa magra do STEP 1 vêm da apresentação usada para obesidade. Segundo o documento americano de 2025, a perda de gordura, de massa magra e de músculo acompanha o tamanho da perda de peso: quem perde mais peso tende a perder mais massa magra em quilos.

Conclusão

Com as substâncias do Mounjaro e do Ozempic, o corpo perde sobretudo gordura, junto com uma fatia de massa magra que, nos estudos com DXA, ficou entre um quarto e pouco menos de 40% do peso perdido. Massa magra não é só músculo, e os dados de qualidade muscular e de função relatada não apontaram piora; força medida com teste e efeito a longo prazo ainda são pouco conhecidos.

O cuidado com o músculo começa junto com o tratamento: treino de força, proteína suficiente e acompanhamento de composição corporal e força, principalmente em quem tem mais idade, pouco músculo ou perde peso muito rápido.

Referências

  1. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33567185/
  2. Wilding J, Batterham R, Calanna S, et al. Impact of Semaglutide on Body Composition in Adults With Overweight or Obesity: Exploratory Analysis of the STEP 1 Study. J Endocr Soc. 2021;5(Suppl 1):A16-A17. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8089287/
  3. Look M, Dunn JP, Kushner RF, et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes Obes Metab. 2025;27(5):2720-2729. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11965027/
  4. Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. Obesity (Silver Spring). 2025;33(8):1475-1503. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12304835/
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  11. Murugadoss K, Venkatakrishnan AJ, Soundararajan V. Greater lean-body-mass decline with tirzepatide than semaglutide in routine care, revealed by body-composition digital phenotyping. Preprint (Research Square/medRxiv), 2026, sem revisão por pares. https://www.researchsquare.com/article/rs-9407186/v1
  12. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Bulário eletrônico: Ozempic (semaglutida), Novo Nordisk. Bula com as indicações aprovadas no Brasil. https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/q/?nomeProduto=OZEMPIC
  13. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Bulário eletrônico: Wegovy (semaglutida), Novo Nordisk. Bula com as indicações aprovadas no Brasil. https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/q/?nomeProduto=WEGOVY

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Médico, CRM-SP 160969. Atua em reposição hormonal, longevidade e saúde metabólica. Mais de 10.000 pacientes atendidos. Conheça o Dr. Rodrigo Neves

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