Saúde da Mulher

Reposição hormonal feminina: como é feita, quais são as vias (gel, adesivo, spray, comprimido, vaginal e implante), o papel da progesterona e como é o começo

Dr. Rodrigo Neves 29 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

A reposição hormonal feminina é feita com estradiol, usado em gel, adesivo ou spray na pele, em comprimido ou por via vaginal, e, em quem tem útero, com progesterona para proteger o endométrio (camada interna do útero). A via é escolhida pelo histórico de cada mulher. O tratamento começa na menor dose que controla os sintomas, com revisão em cerca de 3 meses e reavaliação pelo menos uma vez por ano.

A decisão já amadureceu: os calores, as noites mal dormidas e o cansaço pesaram mais do que o receio, e a conversa com o médico apontou que a reposição faz sentido. É aí que aparece a dúvida mais concreta de todas: como é feita, na prática? É comprimido ou gel? O adesivo troca quando? Precisa de progesterona? O que acontece nas primeiras semanas?

Na minha prática clínica, essa é a parte da consulta que mais tira peso das costas, porque a reposição deixa de ser ideia abstrata e vira rotina. Neste artigo eu explico o que se usa, quais são as vias e o que muda entre elas, por que a progesterona entra quando há útero, como é o começo e como é o acompanhamento.

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Reposição hormonal feminina: o que se usa, afinal?

A base da reposição é o estradiol, o principal estrogênio produzido pelos ovários antes da menopausa. O posicionamento de 2025 da Sociedade Brasileira de Cardiologia, feito com a FEBRASGO e a SBEM, registra que o estrogênio mais utilizado na terapia hormonal da menopausa é o 17-beta-estradiol, que pode ser administrado por via oral, transdérmica (adesivo, gel ou spray) ou vaginal.

O segundo componente depende do útero. Quem tem útero usa, junto com o estradiol, um progestagênio (hormônio da família da progesterona), e a progesterona micronizada é a opção recomendada pela diretriz brasileira de 2024 para mulheres que não retiraram o útero. Quem fez histerectomia (retirada do útero) em geral usa só o estradiol.

A testosterona não faz parte do esquema padrão: pelo consenso internacional de 2019 e pelo posicionamento brasileiro de 2025, sua única indicação com base em evidência na mulher é o transtorno do desejo sexual hipoativo (falta persistente de desejo que causa sofrimento) depois da menopausa. Os detalhes estão no artigo sobre testosterona na mulher.

E a reposição hormonal bioidêntica?

Bioidêntico quer dizer molécula igual à que o corpo produz. A North American Menopause Society (hoje The Menopause Society), no posicionamento de 2022, lembra que o termo pode confundir, porque existem hormônios bioidênticos registrados e aprovados, como o estradiol e a progesterona micronizada, e existem os manipulados. Bioidêntico, portanto, não é sinônimo de manipulado nem de mais seguro por si só. A diferença entre os dois está no artigo sobre hormônios bioidênticos.

Quais são as vias da reposição hormonal feminina e o que muda entre elas?

Segundo o posicionamento brasileiro de 2025, a terapia hormonal pode ser administrada de diversas formas, incluindo comprimidos, adesivos, géis ou spray. A Menopause Society acrescenta que as várias formulações, doses e vias têm eficácia comparável, e alta, para aliviar os calores. Como todas aliviam os sintomas, a escolha da via se decide por segurança, rotina e preferência.

Gel de estradiol

É aplicado todos os dias sobre a pele e absorvido para a circulação sem passar primeiro pelo fígado. Permite ajuste fino da quantidade e suspensão imediata, se for preciso. A rotina é diária, de preferência no mesmo horário.

Adesivo transdérmico

Funciona pelo mesmo princípio do gel: o estradiol atravessa a pele a partir de um adesivo colado no corpo, que fica no lugar por dias e é trocado em intervalos fixos, conforme o produto. Existem adesivos só de estradiol e adesivos que combinam estradiol com um progestagênio. A vantagem é dispensar a aplicação diária.

Spray transdérmico

É uma solução de estradiol borrifada sobre a pele. O posicionamento brasileiro de 2025 lista o spray ao lado do adesivo e do gel entre as formas transdérmicas, e a lógica de absorção e de segurança é a mesma das outras formas pela pele.

Comprimido (via oral)

O estradiol em comprimido é a forma usada nos grandes estudos, como o WHI, que empregou apenas a via oral. Depois de engolido, ele passa pelo fígado antes de chegar à circulação, e é nessa passagem que mexe em proteínas da coagulação e nos triglicerídeos. Para mulheres saudáveis, sem fatores de risco cardiovascular, o posicionamento de 2025 afirma que a terapia hormonal pode ser prescrita por qualquer via, incluindo a oral. A diferença aparece quando existe fator de risco.

Via vaginal

Creme, óvulo ou comprimido vaginal de estrogênio em dose baixa agem no próprio tecido. O posicionamento de 2025 descreve a via vaginal como abordagem complementar, indicada apenas para os sintomas geniturinários, como ressecamento, dor na relação e sintomas urinários; ela não trata os calores. Pela declaração de 2020 da Menopause Society, com estrogênio vaginal de baixa dose a progesterona não é indicada.

Implante hormonal

O implante (pellet) é um pequeno cilindro de hormônio colocado sob a pele, com liberação por meses. No Brasil, segundo a FEBRASGO, o único implante hormonal industrializado aprovado pela Anvisa é o anticoncepcional de etonogestrel; os implantes usados na menopausa são manipulados. A FEBRASGO, em 2021, e o posicionamento conjunto de SBC, FEBRASGO e SBEM, em 2025, não os recomendam na terapia hormonal da menopausa, por escassez de dados de segurança de longo prazo, e a Resolução RE 4.353/2024 da Anvisa proíbe a propaganda ao público em geral de implantes hormonais manipulados. A reposição em si segue indicada pelas vias registradas. O tema tem artigo próprio: implante hormonal para menopausa.

Reposição hormonal pode dar trombose? O que muda entre o comprimido e a pele

Esta é a diferença prática mais importante entre as vias. O estrogênio em comprimido passa pelo fígado antes de chegar ao sangue, e o posicionamento brasileiro de 2025 descreve que a via transdérmica evita esse metabolismo de primeira passagem, com menor impacto nos fatores de coagulação, nos triglicerídeos e na proteína C reativa (marcador de inflamação), o que pode reduzir o risco de trombose venosa.

Os estudos observacionais apontam na mesma direção: mais trombose venosa com o estrogênio oral do que com o transdérmico, com a ressalva de que não há ensaio randomizado comparando as duas vias. Os números de cada estudo, incluindo o que se sabe sobre o implante, estão no artigo sobre reposição hormonal e trombose.

Por isso a diretriz britânica NICE recomenda considerar a via transdérmica, em vez da oral, para quem tem risco aumentado de trombose venosa, incluindo mulheres com índice de massa corporal acima de 30. O posicionamento brasileiro de 2025 segue a mesma linha: a transdérmica é preferível na presença de obesidade, síndrome metabólica, tabagismo, hipertensão e risco de trombose; sem esses fatores, qualquer via. A Menopause Society registra que os estudos observacionais não demonstraram aumento de trombose com o estradiol transdérmico, mas que faltam ensaios comparativos.

Progesterona micronizada: por que quem tem útero usa e como é tomada

O estradiol estimula o endométrio, a camada interna do útero. Uma revisão Cochrane de 2025 concluiu que o estrogênio usado sozinho provavelmente aumenta o risco de hiperplasia do endométrio (crescimento excessivo dessa camada), enquanto a combinação contínua de estrogênio e progestagênio tem pouco ou nenhum efeito sobre esse risco; os números da revisão estão no artigo sobre implante hormonal feminino. É por isso que, com útero, a progesterona entra no esquema; sem útero, a Menopause Society indica que o estrogênio pode ser usado sozinho.

Entre os progestagênios, a progesterona micronizada é a recomendada pela diretriz brasileira de 2024, por via oral ou vaginal, para mulheres que não retiraram o útero. Ela também sai bem nos estudos de trombose: na meta-análise de 2018, o estradiol pela pele combinado com progesterona micronizada não se associou a aumento de trombose, enquanto um grupo específico de progestagênios sintéticos, os derivados norpregnanos, mais que dobrou o risco. Sobre o câncer de mama, a Menopause Society registra que alguns dados observacionais, mas não todos, sugerem menor associação com a progesterona micronizada do que com progestagênios sintéticos como o acetato de medroxiprogesterona, e que ensaios randomizados ainda precisam confirmar isso.

A forma de usar depende do que a mulher prefere. O protocolo da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo descreve os dois esquemas: no combinado cíclico, o estrogênio é diário e o progestagênio entra por 10 a 14 dias por mês, para quem deseja manter um sangramento programado; no contínuo, os dois são diários, para quem não deseja mais sangrar. A Menopause Society observa que muitas mulheres optam por esquemas que evitam o sangramento periódico. Ela cita ainda o DIU de levonorgestrel como forma de proteger o endométrio, com a vantagem de também evitar gravidez em quem começa a reposição antes da última menstruação.

Como é o começo da reposição hormonal: dose, primeiras semanas e revisão

O tratamento começa na menor dose eficaz para controlar os sintomas, como orienta o posicionamento brasileiro de 2025, e a Menopause Society recomenda que formulação, dose e via sejam definidas individualmente e reavaliadas periodicamente. O que pesa nessa definição, pelo posicionamento de 2025, é a preferência da paciente, a presença ou ausência do útero, a necessidade de contracepção, a intensidade dos sintomas e as doenças associadas.

Cada sintoma tem o seu tempo de resposta; o detalhe por sintoma está em quanto tempo a reposição hormonal leva para fazer efeito. A diretriz NICE recomenda uma revisão aos 3 meses, para avaliar eficácia e tolerância, e depois uma vez por ano, a não ser que haja motivo para rever antes. É nessa revisão de 3 meses que se ajusta a dose, troca a via ou muda o esquema da progesterona, quando preciso. Efeitos mais comuns no começo, como sensibilidade nas mamas, inchaço, náusea, dor de cabeça e sangramento inesperado, devem ser relatados, porque são eles que orientam o ajuste.

Como é o acompanhamento depois que a reposição começa?

Depois do ajuste inicial, o acompanhamento é anual, com reavaliação periódica dos benefícios e dos riscos de continuar, como recomendam a NICE e a Menopause Society. A diretriz brasileira de 2024 orienta monitorar a pressão arterial depois do início da terapia em mulheres hipertensas. A mamografia e os demais exames seguem o calendário descrito em exames para reposição hormonal feminina.

A dosagem de hormônio no sangue raramente é necessária para ajustar a reposição, segundo a Menopause Society; o ajuste se guia pelos sintomas e pelos efeitos. E não existe prazo fixo para parar: a continuidade é decidida a cada reavaliação.

Como é feita a avaliação antes de começar

Nenhuma via é escolhida antes da avaliação. A diretriz brasileira de 2024 descreve que o diagnóstico da síndrome do climatério é estabelecido por meio de uma anamnese detalhada, complementada por um exame físico minucioso. Na consulta, isso significa ouvir a história completa: sintomas e o quanto atrapalham, idade da menopausa, histórico pessoal e familiar de trombose, câncer de mama e doença cardiovascular, medicamentos em uso, cigarro, pressão, peso e a preferência da mulher sobre a rotina de uso.

No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, essa conversa vem acompanhada da medida da pressão, da bioimpedância, que estima a composição corporal, e dos exames que a diretriz considera necessários antes do início, como a mamografia, o perfil lipídico e a glicemia. Com isso em mãos, a escolha de via, esquema e dose é feita em conjunto, o que a Menopause Society chama de decisão compartilhada.

Perguntas frequentes

Reposição hormonal: adesivo ou gel, qual é melhor?

Os dois são via transdérmica e, segundo a Menopause Society, as diferentes formulações e vias têm eficácia comparável para aliviar os calores. A escolha é de rotina e de pele: o gel pede aplicação diária e permite ajuste fino; o adesivo é trocado em intervalos fixos e dispensa a aplicação de todo dia. Quem se adapta mal a um costuma se adaptar ao outro, e isso se decide na revisão dos primeiros meses.

A progesterona micronizada é tomada todo dia ou só em alguns dias do mês?

Depende do esquema. No combinado cíclico, o estrogênio é diário e a progesterona entra por 10 a 14 dias por mês, com sangramento programado, para quem quer manter um ciclo. No contínuo, os dois são diários e não há sangramento mensal. A diretriz brasileira de 2024 recomenda a progesterona micronizada, por via oral ou vaginal, para quem tem útero; sem útero, em geral ela não é necessária.

Existe reposição hormonal em spray no Brasil?

Sim. O posicionamento de 2025 da SBC, FEBRASGO e SBEM lista o spray ao lado do adesivo e do gel entre as formas transdérmicas de estradiol. É uma solução borrifada sobre a pele, com a mesma lógica de absorção das outras formas transdérmicas, que evitam a passagem inicial pelo fígado. A escolha entre spray, gel e adesivo é de preferência e de adaptação, conversada na consulta.

Posso usar estrogênio vaginal junto com o gel ou o adesivo?

Sim. O posicionamento brasileiro de 2025 descreve a via vaginal como abordagem complementar, indicada apenas para os sintomas geniturinários, como ressecamento e dor na relação, que nem sempre melhoram só com a reposição pelo corpo todo. Com estrogênio vaginal de baixa dose, a progesterona não é indicada, segundo a Menopause Society. O tema completo está em ressecamento vaginal na menopausa.

Reposição hormonal em adesivo ou gel engorda?

Na média, não. Uma revisão Cochrane de ensaios randomizados não encontrou ganho de peso causado pela reposição de estrogênio além do que já acontece na menopausa. Inchaço por retenção de líquido pode aparecer no começo e é um dos motivos de ajuste de dose ou de via na revisão. Os números e o que fazer com o inchaço estão em reposição hormonal engorda?.

Conclusão

A reposição hormonal feminina é feita com estradiol, por uma via escolhida para o histórico de cada mulher, e com progesterona quando há útero. Entre o comprimido e a pele, a diferença que mais pesa é a do risco de trombose, e é ela que orienta a via em quem tem fatores de risco. O começo é com dose baixa, revisão em 3 meses e acompanhamento anual.

Se você chegou até aqui decidida, o próximo passo é a avaliação: é nela que via, esquema e dose deixam de ser teoria e viram o seu plano.

Referências

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