Implante hormonal pode causar trombose? O que os estudos mostram sobre estrogênio, testosterona e hematócrito
Resposta direta
Ainda não há estudo grande que meça trombose com o implante hormonal. Por mecanismo, ele se parece com o gel e o adesivo, que não aumentaram o risco nos estudos, ao contrário do estrogênio em comprimido. Na testosterona, o ponto de vigilância é o hematócrito. O risco final depende do hormônio, da via e do histórico de quem usa.
Quem digita "reposição hormonal trombose" no Google recebe sugestões como "reposição hormonal causa trombose" e "reposição hormonal para quem teve trombose". A preocupação é legítima: trombose é séria, e hormônio entra nessa conversa.
"Hormônio" não é uma coisa só. Estrogênio em comprimido, estradiol em gel, testosterona injetável e implante subcutâneo seguem caminhos diferentes no corpo e, por isso, têm perfis de risco diferentes. E quem usa também conta: idade, peso e histórico.
Aqui explico o que os estudos mostram sobre cada via e sobre o implante, e como a avaliação reduz o risco. Falo do implante usado na reposição hormonal, não do anticoncepcional.
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Agendar pelo WhatsAppEste artigo faz parte do guia Reposição hormonal do Dr. Rodrigo Neves. Consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo. Livro do Dr. Rodrigo Neves sobre o tema: A Verdade Sobre a Reposição Hormonal.
O que é trombose e por que o hormônio entra nessa conversa
Na reposição hormonal, o assunto principal é a trombose venosa: um coágulo numa veia profunda, geralmente da perna, que pode se soltar e chegar ao pulmão (embolia pulmonar). É diferente do infarto e do AVC, que acontecem nas artérias.
O estrogênio tomado por boca passa primeiro pelo fígado, e essa passagem estimula a produção de fatores de coagulação. A testosterona age de outro jeito: ela estimula a produção de glóbulos vermelhos, o que pode deixar o sangue mais concentrado, como mostra o hematócrito.
Reposição hormonal causa trombose? O que os grandes estudos mostram sobre a via
Um estudo central nessa discussão é o ESTHER, feito na França e publicado na revista Circulation em 2007. Os pesquisadores compararam 271 mulheres de 45 a 70 anos que tiveram um primeiro episódio de trombose venosa sem causa aparente com 610 mulheres sem trombose. Com o estrogênio em comprimido, a chance de trombose foi cerca de quatro vezes maior; com o estrogênio transdérmico, absorvido pela pele, não houve aumento.
O tipo de progestagênio também pesou: a progesterona micronizada não se associou a mais trombose, e os derivados norpregnanos, um grupo de progestagênios sintéticos, se associaram a risco cerca de quatro vezes maior.
Em 2019, uma análise bem maior no BMJ, de Vinogradova e colaboradores, usou dois bancos de dados do Reino Unido: 80.396 mulheres de 40 a 79 anos com trombose e 391.494 sem trombose. A reposição por via oral se associou a uma chance de trombose cerca de 60% maior. Já as formas transdérmicas não se associaram a aumento de risco em nenhuma das combinações avaliadas.
Em perspectiva: a North American Menopause Society (hoje The Menopause Society), no posicionamento de 2022, classifica como raro o aumento absoluto de risco de trombose ligado à reposição, na faixa de até 10 casos a mais por 10.000 mulheres por ano, com base no estudo WHI em mulheres de 50 a 59 anos que usaram estrogênio oral. A sociedade também registra que ainda faltam ensaios randomizados comparando as vias diretamente.
E o implante hormonal? O que se sabe e o que ainda não se sabe
Os grandes estudos sobre trombose foram feitos com comprimido, gel e adesivo. Não existe ensaio clínico desenhado especificamente para medir a frequência de trombose com o implante subcutâneo de estradiol. Quem registra essa lacuna é uma revisão de autores brasileiros publicada em 2025 no Journal of Clinical Medicine, que analisou a literatura desde 1949.
A revisão faz um raciocínio por mecanismo: o implante libera o hormônio sem a primeira passagem pelo fígado, que é o que explica o aumento de risco da via oral. Por isso, os autores consideram plausível que o implante de estradiol tenha um perfil de segurança semelhante ao da via transdérmica, e citam dados em que os parâmetros de coagulação não pioraram com o implante. Plausível, porém, não é comprovado: falta estudo grande e de longo prazo comparando o implante com as outras vias.
A mesma sociedade reconhece uma lacuna parecida: para hormônios manipulados aplicados por implantes e pellets, há poucos dados de segurança e de farmacocinética de alta qualidade. Isso não quer dizer que o implante seja perigoso. Quer dizer que, nessa via, a segurança depende ainda mais da avaliação antes e do monitoramento depois. Os demais efeitos estão em efeitos colaterais do implante hormonal.
Testosterona causa trombose? O que mostraram o TRAVERSE e as meta-análises
O TRAVERSE, publicado na New England Journal of Medicine em 2023, é um grande ensaio randomizado sobre a segurança cardiovascular da reposição de testosterona. Foram 5.246 homens de 45 a 80 anos, com testosterona baixa e doença cardiovascular ou alto risco para ela, sorteados para testosterona em gel ou placebo e seguidos por cerca de 33 meses.
O resultado principal foi tranquilizador: eventos cardiovasculares maiores (morte cardiovascular, infarto ou AVC) ocorreram em 7,0% do grupo testosterona e em 7,3% do grupo placebo. Mas houve mais fibrilação atrial, lesão renal aguda e embolia pulmonar no grupo testosterona. No registro oficial dos resultados, os eventos do desfecho composto de tromboembolismo venoso, que inclui a embolia pulmonar, somaram 44 em 2.596 homens com testosterona e 30 em 2.602 com placebo, diferença que pode ter sido obra do acaso.
Uma meta-análise publicada na Endocrine Practice em 2024 reuniu 26 ensaios randomizados com 10.941 participantes com hipogonadismo e não encontrou diferença em embolia pulmonar nem em trombose venosa entre testosterona e controle que fosse além do acaso. Na prática, a testosterona em homens com hipogonadismo não mostrou aumento claro de trombose venosa nos ensaios, mas o sinal numérico do TRAVERSE justifica atenção em quem já tem outros fatores de risco.
O TRAVERSE usou gel, e não há ensaio desse porte com implante de testosterona. Para comparar as vias, veja pellet, gel ou injeção de testosterona.
Testosterona, hematócrito e trombose: o que mostrou o estudo de 2022
O hematócrito é a porcentagem do volume do sangue ocupada pelos glóbulos vermelhos. A testosterona tende a elevá-lo, e por isso ele é medido antes e durante a reposição: pela diretriz da Endocrine Society, 48% pesa antes de começar e 54% durante o tratamento. O que fazer quando ele sobe, e como isso varia entre injeção, gel e implante, está em hematócrito alto na reposição de testosterona.
Um estudo publicado no Journal of Urology em 2022, numa grande base de dados de várias instituições, comparou 5.842 homens em reposição de testosterona que desenvolveram hematócrito igual ou acima de 52% com 5.842 homens que mantiveram o hematócrito normal. No primeiro ano, eventos cardiovasculares maiores ou trombose venosa ocorreram em 5,15% do primeiro grupo e em 3,87% do segundo. No mesmo estudo, homens com testosterona baixa tratados sem desenvolver hematócrito alto não tiveram aumento de risco em relação aos que não foram tratados.
Quem tem histórico de trombose pode fazer reposição hormonal?
Na mulher, o mesmo posicionamento de 2022 lista a trombose venosa prévia, ou um alto risco pessoal ou hereditário de trombose, entre as contraindicações à reposição de estrogênio por via oral e por via transdérmica. A Endocrine Society, na diretriz de 2015 sobre os sintomas da menopausa, diferencia pela causa: trombose sem causa conhecida, ligada à gravidez, ao anticoncepcional ou a alteração da coagulação contraindica qualquer estrogênio; a provocada por cirurgia, fratura ou imobilização contraindica a via oral, mas não necessariamente a transdérmica. No homem, a diretriz da Endocrine Society de 2018 não recomenda iniciar testosterona em quem tem trombofilia, que é uma tendência aumentada de formar coágulos.
Na prática, a decisão é individual. A diretriz britânica do NICE recomenda considerar a via transdérmica em vez da oral para quem tem risco aumentado de trombose, inclusive com índice de massa corporal acima de 30, e avaliação com hematologista antes da reposição em quem tem risco alto, como forte histórico familiar ou trombofilia hereditária. Detalho as outras situações em quem não pode fazer reposição hormonal.
Como a avaliação reduz o risco de trombose antes e durante a reposição
Na minha prática clínica, a avaliação começa pela história. Pergunto sobre trombose pessoal e na família, cirurgias e fraturas recentes, imobilização, viagens longas e doenças crônicas, que estão entre os grupos de fatores que o CDC americano associa a coágulos.
Depois vêm o exame físico e os exames, com peso e índice de massa corporal na conta. O hemograma com hematócrito é feito antes de qualquer reposição com testosterona, junto com os exames hormonais e metabólicos. Se a história sugere risco alto, a investigação de trombofilia e o hematologista entram antes da decisão.
A escolha da via e da molécula é onde os estudos acima viram decisão. Para a mulher com algum fator de risco, faz diferença preferir uma via que não passe primeiro pelo fígado e, quando é preciso associar um progestagênio, escolher um de melhor perfil, como a progesterona micronizada. Para o homem, a escolha da via e o ajuste levam em conta o hematócrito de partida.
Por fim, o acompanhamento. A reposição não termina na primeira aplicação: hematócrito, dosagens hormonais e sintomas são reavaliados em intervalos definidos, e a conduta é ajustada quando um número sai do esperado. No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, esse acompanhamento começa na primeira consulta. Todas as opções estão no guia de reposição hormonal.
Sinais de trombose que exigem atendimento imediato
Segundo o CDC, a trombose venosa profunda costuma aparecer no braço ou na perna afetados como:
- inchaço;
- dor ou sensibilidade ao toque;
- calor local;
- vermelhidão ou mudança de cor da pele.
A embolia pulmonar pode se manifestar como:
- dificuldade para respirar;
- batimento cardíaco mais rápido que o normal ou irregular;
- dor ou desconforto no peito;
- tosse, às vezes com sangue;
- pressão muito baixa, tontura ou desmaio.
Esses sinais pedem atendimento médico imediato. O CDC lembra que cerca de metade das pessoas com trombose venosa profunda não tem sintoma nenhum, e por isso a prevenção pela avaliação vale tanto quanto reconhecer os sinais.
Perguntas frequentes
Implante hormonal engrossa o sangue?
O que pode deixar o sangue mais concentrado é o aumento de glóbulos vermelhos causado pela testosterona, medido pelo hematócrito. Por isso, o hemograma é feito antes e durante o tratamento. Pela diretriz da Endocrine Society, hematócrito acima de 54% durante a reposição pede avaliação e suspensão até o valor voltar ao normal. O que fazer nesse caso está em hematócrito alto na reposição de testosterona.
Estradiol em gel ou adesivo tem menos risco de trombose que o comprimido?
Os estudos observacionais indicam que sim. No estudo ESTHER, o estrogênio oral se associou a chance cerca de quatro vezes maior de trombose venosa, e o transdérmico não mostrou aumento. Na análise do BMJ de 2019, com mais de 80 mil casos, as formas transdérmicas também não se associaram a mais trombose. Ainda faltam ensaios randomizados comparando as vias diretamente.
Quais sinais de trombose pedem atendimento imediato?
Na perna ou no braço: inchaço, dor, calor e vermelhidão. No pulmão: falta de ar, batimento acelerado ou irregular, dor no peito, tosse às vezes com sangue, tontura ou desmaio. Segundo o CDC, esses sinais pedem atendimento imediato, com ou sem reposição.
A testosterona aumenta o risco de trombose?
No TRAVERSE, com 5.246 homens, o tromboembolismo venoso foi numericamente mais frequente com testosterona em gel do que com placebo (44 contra 30 casos), diferença que pode ter sido obra do acaso, e houve mais embolia pulmonar no grupo tratado. Uma meta-análise de 26 ensaios randomizados não encontrou diferença além do acaso. O ponto a vigiar é o hematócrito.
Preciso investigar trombofilia antes da reposição hormonal?
Depende da sua história. Quando há forte histórico familiar de trombose ou suspeita de trombofilia hereditária, a diretriz britânica do NICE recomenda considerar uma avaliação com hematologista antes de cogitar a reposição. Por isso a conversa sobre a sua família e o seu passado de saúde é parte essencial da consulta.
Conclusão
O risco depende do hormônio, da via, da dose e, principalmente, de quem usa. O estrogênio em comprimido aumenta o risco; a via transdérmica não mostrou esse aumento; o implante segue essa lógica por mecanismo, ainda sem estudo grande que confirme; na testosterona, o número a vigiar é o hematócrito.
O que converte essa informação em segurança é a avaliação: história pessoal e familiar bem feita, exames antes de começar, escolha cuidadosa da via e da molécula e acompanhamento em intervalos definidos. Assim, a reposição hormonal deixa de ser aposta e vira decisão tomada com dados.
Referências
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