Reposição de testosterona: pellet, gel ou injeção? Como cada via funciona e como se escolhe
Resposta direta
Não existe uma via de reposição de testosterona que seja a melhor para todo homem. O gel é diário e mantém níveis estáveis, mas pede cuidado para não passar a outras pessoas. A injeção dispensa a rotina diária, porém a de curta ação oscila mais. O pellet libera hormônio por meses, com menos espaço para ajuste fino. A escolha sai da avaliação: exames, rotina, planos de ter filhos e preferência.
Quando o diagnóstico de testosterona baixa está confirmado, a pergunta seguinte quase sempre é a mesma: qual é melhor, o gel, a injeção ou o implante? Muitos homens chegam com uma opinião formada pela experiência de um amigo ou por um vídeo na internet, e cada um conta uma história diferente, porque cada via se comporta de um jeito diferente no corpo.
Neste artigo eu comparo as três formas mais usadas de reposição hormonal masculina pelos mesmos critérios: nível de testosterona no sangue, rotina, risco de o gel passar para a parceira ou para as crianças, aplicação, exames de acompanhamento e, principalmente, como a escolha é feita na avaliação. Não existe vencedora universal, e entender o porquê ajuda você a participar da decisão. O conteúdo é educativo e não substitui a prescrição.
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Agendar pelo WhatsAppEste artigo faz parte do guia de reposição hormonal masculina do Dr. Rodrigo Neves. Consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo. Livro do Dr. Rodrigo Neves sobre o tema: Testosterona Depois dos 40.
Qual a melhor forma de repor testosterona?
Depende de quem vai usar. A diretriz da Endocrine Society, publicada em 2018 no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, orienta que o objetivo é manter a testosterona no meio da faixa normal com qualquer uma das formulações aprovadas, levando em conta a preferência do paciente, a farmacocinética (o jeito como o hormônio entra e sai do sangue), os efeitos adversos próprios de cada formulação, o peso do tratamento na rotina e o custo. Ou seja, a diretriz não elege uma via: lista o que precisa ser pesado.
As três vias mais usadas são:
- Gel transdérmico: aplicado na pele, em geral nos ombros, braços ou abdome.
- Injeção intramuscular: existe em formulações de curta ação e de longa ação, que diferem no espaçamento entre as aplicações.
- Pellet (implante subcutâneo): pequenos cilindros de testosterona colocados sob a pele com anestesia local, que liberam o hormônio por meses.
Há ainda outras formas, como o adesivo e o spray nasal, fora do foco deste texto. Benefícios e riscos do tratamento estão no artigo sobre reposição de testosterona e segurança.
Estabilidade dos níveis: o que acontece no sangue em cada via?
No gel, a pele funciona como um pequeno reservatório. Segundo a bula de um gel aprovado pela FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, a absorção continua pelas 24 horas seguintes à aplicação, os níveis chegam ao equilíbrio entre o segundo e o terceiro dia e, se o gel é suspenso, voltam ao patamar anterior até o quinto dia. Resultado: curva estável no dia a dia e tratamento fácil de ajustar ou interromper.
Na injeção de curta ação, o desenho é de ondas. Uma revisão de farmacologia publicada em 2016 na Translational Andrology and Urology descreve que os níveis sobem acima da faixa fisiológica nos primeiros dias depois da aplicação e caem abaixo dela perto da aplicação seguinte, com relato de oscilação de humor e de libido ao longo do ciclo.
Na injeção de longa ação, as aplicações são bem mais espaçadas e, segundo a mesma revisão, sem os picos acima do normal. Um ensaio randomizado de 2004, no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, com 40 homens, comparou as duas: na de curta ação, os níveis logo antes da aplicação seguinte ficaram sempre mais baixos; na de longa ação, esses vales se mantiveram estáveis dentro da faixa normal.
No pellet, a liberação é contínua. Um estudo clássico de farmacocinética, publicado em 1990 no mesmo periódico, com 43 homens e 111 implantes, mostrou pico no primeiro mês e nível fisiológico mantido por 4 a 6 meses, conforme a quantidade implantada, com absorção praticamente constante. A Endocrine Society descreve 3 a 6 meses. A curva sobe no começo e desce devagar no fim do ciclo, por isso o próximo implante é definido por sintomas e exames. Quanto isso dura em cada pessoa é o tema do artigo sobre quanto tempo dura o implante hormonal.
Rotina e aplicação: o que cada via pede de você?
Gel: exige aplicação diária e alguns cuidados depois de cada uma, como lavar as mãos e esperar secar, e pode irritar a pele. Para quem tem rotina previsível, é simples; para quem viaja muito ou esquece medicação, pode virar um peso.
Esse peso aparece nos dados. Uma análise de 15.435 homens em um banco de dados de seguros de saúde dos Estados Unidos, publicada no Journal of Sexual Medicine em 2013, observou que só 34,7% ainda usavam o gel aos 6 meses e 15,4% aos 12 meses. O estudo não comparou com outras vias, mas o recado é claro: a melhor via no papel não funciona se não couber na rotina.
Injeção: não exige nada no dia a dia, mas exige comparecer às aplicações, mais frequentes nas de curta ação. Pode haver dor ou inflamação no local.
Pellet: é a via que menos depende de disciplina. Feito o implante, não há nada para lembrar até o próximo, o que a revisão de 2016 aponta como a maior vantagem de adesão. Em troca, cada ciclo exige um pequeno procedimento no consultório, com anestesia local e uma pequena incisão. O evento mais descrito é a saída espontânea de um pellet pela pele; sangramento, infecção e fibrose no local também são citados e entram na conversa antes do procedimento. Os detalhes da técnica estão no artigo sobre como funciona o implante hormonal masculino.
O gel de testosterona pode passar para a parceira ou para os filhos?
Pode, e é o que mais diferencia o gel das outras vias: o hormônio que fica na pele passa por contato direto. A bula do gel aprovado pela FDA traz um alerta em destaque: há relatos de virilização em crianças expostas de forma secundária ao gel, com sinais como aumento do pênis ou do clitóris, surgimento de pelos pubianos e comportamento agressivo. Na maioria dos casos, os sinais regrediram com o fim da exposição.
A mesma bula descreve um estudo com 20 casais que tiveram 15 minutos de contato pele a pele intenso duas horas depois da aplicação. Nas parceiras sem proteção, a exposição à testosterona passou, em média, do dobro do nível basal. Quando uma camiseta cobria o local, o aumento caiu para 16% na exposição total e 48% no pico. Daí as orientações de bula para lavar as mãos, cobrir o local com roupa e lavar a área antes de contato pele a pele. Mulheres grávidas ou que podem engravidar precisam conhecer esse risco.
A diretriz da Associação Americana de Urologia (AUA), de 2018, faz disso uma recomendação forte: discutir o risco de transferência com todo paciente que usa gel ou creme. Injeção e pellet não deixam hormônio na pele, o que pesa a favor deles em casas com crianças pequenas ou parceira gestante.
Hematócrito e exames: o monitoramento muda conforme a via?
Muda, por dois motivos. O primeiro é o hematócrito, a proporção de glóbulos vermelhos no sangue, que a testosterona tende a aumentar. Um estudo publicado na Sexual Medicine em 2015 acompanhou por 3 anos 178 homens que usavam uma única via. O hematócrito acima de 50% apareceu em 66,7% dos que usavam injeção, em 35,1% dos que usavam pellet e em 12,8% dos que usavam gel. O estudo é retrospectivo e o grupo da injeção era mais jovem e já começou com hematócrito mais alto, então os números não são uma sentença para cada via, mas mostram por que esse exame entra em todo acompanhamento.
O segundo motivo é o horário da coleta. Como cada via tem uma curva própria, a revisão de farmacologia de 2016 indica um momento diferente para dosar a testosterona em cada via, detalhado em quando colher o exame na reposição. Um exame colhido no pico de uma injeção e outro colhido no vale contam histórias opostas sobre o mesmo tratamento.
A Endocrine Society recomenda, no primeiro ano, avaliar sintomas, efeitos adversos e adesão, dosar testosterona e hematócrito e acompanhar o risco de câncer de próstata. A AUA recomenda hemoglobina e hematócrito antes de começar e testosterona a cada 6 a 12 meses. Muda o ritmo dos ajustes: no gel e na injeção, a correção vale já na aplicação seguinte; no pellet, o hormônio segue sendo liberado até o fim do ciclo, e a correção fica para o implante seguinte.
Quem quer ter filhos pode fazer reposição de testosterona?
Este ponto vale para as três vias igualmente. A testosterona que vem de fora sinaliza ao cérebro que não precisa estimular os testículos, e a produção de espermatozoides cai. A Endocrine Society recomenda não iniciar a reposição em homens que planejam ter filhos em breve, e a AUA é direta: a testosterona de fora não deve ser prescrita a quem está tentando ter um filho.
Nenhuma escolha de via resolve esse conflito. O que acontece com a fertilidade durante e depois da reposição está em testosterona e fertilidade; outras situações em que a reposição não deve começar estão em quem não pode fazer reposição hormonal.
Como a via é escolhida na avaliação?
Tudo começa pelo diagnóstico, e a via só entra depois dele. A Endocrine Society recomenda confirmar a deficiência apenas em homens com sintomas compatíveis e testosterona total baixa em coleta pela manhã, em jejum, repetida em dois momentos. Sem essa confirmação, não há via a escolher.
Na consulta, eu costumo reunir cinco blocos de informação:
- Exames: testosterona total e livre, hematócrito, PSA, painel metabólico e bioimpedância.
- Histórico: doenças, medicações, apneia do sono, sintomas urinários, próstata e condições que contraindiquem a reposição.
- Rotina: horários, viagens, treino, facilidade ou dificuldade com medicação diária e medo de agulha.
- Casa e família: crianças pequenas, parceira gestante ou que planeja engravidar e planos de ter filhos.
- Preferência: o que faz mais sentido para você, depois de entender as diferenças.
Com esses dados na mesa, a decisão é compartilhada. A revisão de 2016 resume: a escolha é um diálogo aberto entre paciente e médico, e a formulação pode ser trocada ao longo do tratamento, conforme resposta, preferência e efeitos adversos. Começar no gel e migrar para o pellet, ou o inverso, é possível.
No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, a avaliação inclui anamnese detalhada, exames laboratoriais, bioimpedância e retornos programados para conferir como o corpo está respondendo à via escolhida. O guia de andropausa e testosterona reúne os outros temas dessa jornada.
Perguntas frequentes
O que é melhor: testosterona em gel ou injeção?
Nenhuma é melhor para todos. O gel mantém níveis estáveis e é fácil de ajustar, mas exige aplicação diária e cuidado com a transferência para outras pessoas. A injeção dispensa a rotina diária, porém a de curta ação gera picos e quedas e, em um estudo comparativo, se associou a mais hematócrito alto. A escolha depende de exames, rotina e preferência.
O implante de testosterona é melhor que o gel e a injeção?
O implante tem vantagens próprias: libera o hormônio de forma contínua por meses, dispensa disciplina diária e não passa para outras pessoas pela pele. Em troca, exige um pequeno procedimento com anestesia local a cada ciclo e permite menos ajuste fino depois de implantado. Para alguns homens é a melhor opção; quem define é a avaliação individual.
Quanto tempo dura o implante de testosterona?
A testosterona do pellet atinge o pico no primeiro mês e se mantém em nível fisiológico por cerca de 3 a 6 meses, segundo a Endocrine Society; no estudo de 1990, 4 a 6 meses, conforme a quantidade implantada. A duração varia de pessoa para pessoa, por isso o próximo implante é definido pelos sintomas e pelos exames, e não só pelo calendário.
Quanto tempo o gel de testosterona leva para estabilizar no sangue?
Segundo a bula de um gel aprovado pela FDA, os níveis de testosterona chegam ao equilíbrio entre o segundo e o terceiro dia de uso. Isso não quer dizer que os sintomas mudem nesse intervalo: a resposta clínica é avaliada no retorno, com exames. Se o gel for suspenso, os níveis voltam ao patamar anterior em poucos dias.
Dá para trocar de via no meio do tratamento?
Dá. A revisão de farmacologia de 2016 lembra que a formulação pode ser trocada ao longo do tratamento, conforme a resposta, a preferência e os efeitos adversos. Quem não se adaptou à rotina do gel pode migrar para a injeção ou para o implante, e o contrário também acontece. A troca é planejada com exames, porque cada via tem uma curva diferente.
Conclusão
Gel, injeção e pellet entregam a mesma molécula por caminhos diferentes. O gel dá estabilidade e ajuste fácil, com rotina diária e cuidado com a transferência. A injeção tira a reposição do dia a dia, com curvas que variam conforme a formulação. O pellet troca a disciplina diária por um pequeno procedimento a cada ciclo.
A via certa é a que funciona com os seus exames, a sua rotina e os seus planos. Ela sai de uma avaliação bem feita e de um acompanhamento que confere, exame a exame, se a escolha continua fazendo sentido.
Referências
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- Schubert M, Minnemann T, Hübler D, et al. Intramuscular testosterone undecanoate: pharmacokinetic aspects of a novel testosterone formulation during long-term treatment of men with hypogonadism. J Clin Endocrinol Metab. 2004;89(11):5429-5434. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15531493/
- Schoenfeld MJ, Shortridge E, Cui Z, Muram D. Medication adherence and treatment patterns for hypogonadal patients treated with topical testosterone therapy: a retrospective medical claims analysis. J Sex Med. 2013;10(5):1401-1409. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23464534/
- U.S. Food and Drug Administration. Testosterone gel, for topical use: prescribing information, with boxed warning on secondary exposure to testosterone (seções 2.2, 5.2 e 12.3). Revisão de janeiro de 2013. https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2013/203098s000lbl.pdf
A escolha da via começa por uma boa avaliação
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