Saúde Hormonal

Reposição de testosterona e fertilidade: por que os espermatozoides caem, se a fertilidade volta e o que avaliar quando há planos de ter filhos

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 11 min

Resposta direta

Durante a reposição de testosterona, a produção de espermatozoides cai, porque a testosterona de fora faz o cérebro parar de estimular os testículos. Por isso a Endocrine Society e a Associação Americana de Urologia recomendam não iniciar a reposição em quem planeja ter filhos. Na maioria dos homens estudados, a produção volta meses depois de parar, mas o prazo varia.

Existe uma combinação que aparece com frequência no consultório: o homem entre os 30 e os 45 anos, com cansaço, libido em queda e um exame de testosterona no limite, que leu que a reposição resolve e que, ao mesmo tempo, pensa em ter filhos nos próximos anos. Na cabeça dele, faz sentido: se a testosterona é o hormônio masculino, repor deveria ajudar também na fertilidade.

Na prática, acontece o contrário. A testosterona que vem de fora reduz a produção de espermatozoides, e esse é um dos efeitos mais bem documentados da reposição. Isso não deixa sem opção quem quer ser pai, nem tira a chance de quem já usa. Significa que a ordem das decisões importa.

Neste artigo eu explico por que isso acontece, o que as diretrizes recomendam, o que os estudos mostram sobre a volta da fertilidade e quais caminhos a avaliação considera para tratar a testosterona baixa sem fechar a porta da paternidade.

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Por que a reposição de testosterona diminui os espermatozoides?

A produção de espermatozoides depende de dois sinais que o cérebro manda aos testículos: o LH e o FSH, hormônios produzidos pela hipófise, uma glândula na base do cérebro. O LH faz o testículo fabricar a própria testosterona, usada ali mesmo na formação dos espermatozoides. O FSH estimula as células que sustentam essa formação.

O cérebro funciona como um termostato. Quando percebe testosterona suficiente no sangue, ele reduz o LH e o FSH. Na reposição, a testosterona chega de fora, o cérebro entende que não precisa mais estimular os testículos, e eles diminuem a produção, tanto da testosterona própria quanto dos espermatozoides. A Associação Americana de Urologia (AUA) descreve esse mecanismo na diretriz de deficiência de testosterona, e a diretriz da Endocrine Society de 2018 coloca a redução da produção de espermatozoides e da fertilidade entre os efeitos com associação comprovada ao uso de testosterona.

A força desse efeito ficou clara nos estudos que testaram a testosterona como anticoncepcional masculino. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado na revista The Lancet em 1990, com 271 homens saudáveis e férteis que receberam testosterona injetável toda semana, observou que 65% chegaram a zero espermatozoides no sêmen (a chamada azoospermia) em até 6 meses. Entre eles, o tempo médio até chegar a zero foi de cerca de quatro meses.

Aqueles voluntários estavam em estudos de anticoncepção, feitos para zerar os espermatozoides. Mesmo assim, o princípio vale para a reposição: as diretrizes falam da testosterona de fora sem separar gel, injeção ou implante.

A fertilidade volta depois de parar a testosterona?

Na maioria dos homens estudados, volta, mas leva meses e não acontece no mesmo ritmo para todo mundo. A melhor fonte sobre isso é uma análise publicada na The Lancet em 2006, que reuniu os dados individuais de 1.549 homens saudáveis, de 18 a 51 anos, participantes de 30 estudos de anticoncepção hormonal masculina. Depois de suspender o hormônio, a contagem levou em média 3,4 meses para voltar a 20 milhões de espermatozoides por mL, valor usado pelos pesquisadores como indicador de fertilidade.

A probabilidade de recuperação até esse nível foi de 67% em até 6 meses, 90% em até 12 meses, 96% em até 16 meses e 100% em até 24 meses. A volta foi mais rápida quando o tempo de uso tinha sido mais curto e quando a preparação de testosterona era de ação mais curta. O estudo da OMS de 1990 mostrou algo parecido: mediana de 3,7 meses para voltar a 20 milhões por mL e de 6,7 meses para voltar à contagem que cada homem tinha antes do estudo.

Esses números pedem uma leitura cuidadosa. Eles vêm de voluntários férteis, que produziam espermatozoides normalmente antes do estudo e usaram o hormônio por tempo limitado. Fora desse cenário, o quadro pode ser outro. Um estudo publicado na revista Fertility and Sterility em 2017 acompanhou 66 homens que procuraram uma clínica de infertilidade depois de usar testosterona. Com a suspensão do hormônio e tratamento para estimular os testículos, 70% chegaram a uma contagem de espermatozoides móveis acima de 5 milhões em até 12 meses. Quanto maior a idade e quanto mais longo o tempo de uso, menor foi a chance de recuperação nesse prazo.

Na prática, isso quer dizer que a fertilidade costuma voltar, mas ninguém garante o prazo para um homem específico. Por isso a AUA recomenda conversar sobre o impacto de longo prazo da testosterona na produção de espermatozoides com todo homem que pensa em ter filhos no futuro, antes de começar.

Quem quer ter filhos pode fazer reposição hormonal masculina?

As diretrizes são diretas nesse ponto. A Endocrine Society, na diretriz de 2018, recomenda não fazer reposição de testosterona em homens que planejam ter filhos em breve. A AUA, na diretriz de deficiência de testosterona de 2018 (revisada e confirmada em 2024), afirma que a testosterona de fora não deve ser prescrita a homens que estão tentando ter um filho, e recomenda uma avaliação da saúde reprodutiva antes do tratamento em quem tem interesse em fertilidade.

A diretriz de infertilidade masculina da AUA com a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM), atualizada em 2024, vai além: para o homem interessado em fertilidade agora ou no futuro, o médico não deve prescrever testosterona de fora. Nas três, o desejo de ter filhos muda a decisão, e não só quando o casal já está tentando.

Isso não deixa esse homem sem tratamento. Muda a ordem: primeiro entender por que a testosterona está baixa e qual é o plano de família, depois escolher o caminho. O desejo de ter filhos em breve aparece, junto de outras situações, no artigo sobre quem não pode fazer reposição hormonal.

Testosterona baixa também atrapalha a fertilidade?

Pode atrapalhar. A diretriz da Endocrine Society inclui a dificuldade de ter filhos e a contagem baixa de espermatozoides entre os sinais que sugerem deficiência de testosterona. O que mais pesa na decisão é a causa da queda.

Quando o problema está no próprio testículo, o chamado hipogonadismo primário (hipogonadismo é a testosterona baixa com sintomas), é a fábrica que falha. Quando o problema está no comando, no cérebro e na hipófise, o hipogonadismo é secundário: o testículo consegue produzir, mas não está recebendo o sinal. Segundo a Endocrine Society, nesse segundo grupo a produção de espermatozoides pode ser estimulada e a fertilidade restaurada com tratamento à base de gonadotrofinas (hormônios que fazem o papel do LH e do FSH), o que não acontece quando a falha é primária.

É por isso que a testosterona baixa num homem em idade de ter filhos merece investigação da causa antes de qualquer receita, tema do artigo sobre testosterona baixa no homem jovem.

Que alternativas a avaliação considera para quem quer preservar a fertilidade?

A primeira é tratar o que está derrubando a testosterona. A Endocrine Society chama de hipogonadismo funcional o quadro causado por condições potencialmente reversíveis com o tratamento da causa, e cita exemplos como obesidade grave, alguns distúrbios do sono e o uso de opioides, corticoides e anabolizantes. Na minha prática clínica, sono, peso, resistência à insulina e medicamentos em uso entram sempre nessa investigação, e em parte dos casos o ajuste desse terreno já melhora o quadro.

A segunda são os tratamentos que estimulam o próprio corpo a produzir testosterona, mantendo o sinal para os testículos em vez de desligá-lo. A diretriz da AUA cita três grupos de medicamentos para homens com deficiência de testosterona que querem preservar a fertilidade: a gonadotrofina coriônica (hCG, que faz o papel do LH), os moduladores seletivos do receptor de estrogênio (que levam o cérebro a aumentar o estímulo aos testículos) e os inibidores da aromatase (que reduzem a conversão de testosterona em estrogênio), isolados ou combinados. É uma recomendação condicional, com evidência mais limitada, e a escolha depende da causa, dos exames e do momento de vida de cada homem.

A terceira é de calendário. Para quem tem filhos nos planos de curto prazo, a reposição com testosterona pode ficar para depois, com acompanhamento dos sintomas e dos exames enquanto isso. Nenhuma dessas opções se escolhe por conta própria. O panorama completo do tema está no guia de andropausa e testosterona.

Já faço reposição e quero ter filhos: o que fazer?

O primeiro passo é levar o plano de ter filhos para a consulta antes de mudar qualquer coisa por conta própria. A avaliação começa por saber onde a produção de espermatozoides está hoje, com espermograma e dosagens hormonais, e por rever por que a reposição foi indicada no início.

A partir daí, o caminho é planejado: quando suspender, como acompanhar a volta dos espermatozoides e se vale associar algum tratamento para estimular os testículos. No estudo de 2017 citado acima, a idade e o tempo de uso pesaram no resultado, e por isso a conversa rende mais quando acontece cedo.

Como é feita a avaliação antes de decidir

A conversa sobre filhos vem antes de qualquer receita. No consultório, em Alto de Pinheiros, São Paulo, a avaliação de um homem com sintomas de testosterona baixa passa por uma pergunta simples: você pensa em ter filhos, agora ou no futuro? A resposta muda o plano inteiro.

Depois vêm os passos que as diretrizes descrevem:

Com isso em mãos, a decisão é tomada em conjunto, considerando sintomas, causa, idade e planos de família, e é revista no acompanhamento sempre que esses planos mudam.

Perguntas frequentes

Quem usa testosterona pode engravidar a parceira?

Pode. A testosterona reduz os espermatozoides, mas não zera em todos os homens e não deve ser usada como método anticoncepcional. No estudo da Organização Mundial da Saúde de 1990, 65% dos homens chegaram a zero espermatozoides em até 6 meses de injeções semanais, ou seja, nem todos. No estudo seguinte, de 1996, houve gestações entre casais em que o homem estava com a contagem muito baixa, mas não zerada.

Testosterona aumenta a fertilidade do homem?

Não. A testosterona de fora faz o cérebro reduzir os sinais que estimulam os testículos, e a produção de espermatozoides cai. Por isso a diretriz de infertilidade masculina da AUA e da ASRM, atualizada em 2024, orienta não prescrever testosterona ao homem interessado em ter filhos, agora ou no futuro. Quando a testosterona baixa atrapalha a fertilidade, a avaliação busca a causa e considera tratamentos que estimulam a produção do próprio corpo.

Testosterona em gel também diminui os espermatozoides?

Sim. O efeito vem do mecanismo, e não da forma de aplicação: qualquer testosterona que chega de fora sinaliza ao cérebro que não precisa estimular os testículos. As diretrizes da Endocrine Society e da AUA falam da testosterona de fora sem abrir exceção para gel, injeção ou implante. A escolha da via muda outras coisas no tratamento, mas não resolve o conflito com a fertilidade.

Preciso fazer espermograma antes de começar a reposição?

Se existe qualquer plano de ter filhos, sim. A AUA recomenda que homens com deficiência de testosterona interessados em fertilidade façam uma avaliação da saúde reprodutiva antes do tratamento, e o espermograma é parte central dela. Ele mostra quantidade, movimento e forma dos espermatozoides e serve de ponto de partida. Para quem não pensa em filhos, a necessidade do exame é decidida na consulta, junto com os outros exames.

Usar testosterona por pouco tempo já afeta a fertilidade?

Pode afetar. Nos estudos de anticoncepção masculina, a queda dos espermatozoides aconteceu em poucos meses: no estudo da OMS de 1990, quem chegou a zero levou em média cerca de quatro meses. Por outro lado, a grande análise publicada na The Lancet em 2006 mostrou que a recuperação depois de parar foi mais rápida quando o tempo de uso tinha sido mais curto.

Conclusão

A reposição de testosterona é um tratamento com benefício real para quem tem deficiência confirmada, e a queda dos espermatozoides é um efeito esperado dela, descrito nas diretrizes e medido em estudos. Na maioria dos homens estudados, a produção volta depois de parar, mas o tempo varia e a recuperação tende a ser mais difícil com mais idade e mais tempo de uso.

Para quem quer ser pai, agora ou mais adiante, tratar a testosterona baixa continua possível, com outra ordem: investigar a causa, olhar o espermograma, considerar as alternativas que mantêm os testículos funcionando e só então decidir. Essa conversa cabe na primeira consulta.

Referências

  1. Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29562364/
  2. Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200(2):423-432. Validade revisada e confirmada pela AUA em 2024. https://www.auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines/testosterone-deficiency-guideline
  3. American Urological Association / American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline (emenda de 2024). Brannigan RE, et al. Updates to Male Infertility: AUA/ASRM Guideline (2024). J Urol. 2024;212(6):789-799. https://www.auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines/male-infertility
  4. World Health Organization Task Force on Methods for the Regulation of Male Fertility. Contraceptive efficacy of testosterone-induced azoospermia in normal men. Lancet. 1990;336(8721):955-959. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1977002/
  5. World Health Organization Task Force on Methods for the Regulation of Male Fertility. Contraceptive efficacy of testosterone-induced azoospermia and oligozoospermia in normal men. Fertil Steril. 1996;65(4):821-829. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8654646/
  6. Liu PY, Swerdloff RS, Christenson PD, Handelsman DJ, Wang C; Hormonal Male Contraception Summit Group. Rate, extent, and modifiers of spermatogenic recovery after hormonal male contraception: an integrated analysis. Lancet. 2006;367(9520):1412-1420. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16650651/
  7. Kohn TP, Louis MR, Pickett SM, et al. Age and duration of testosterone therapy predict time to return of sperm count after human chorionic gonadotropin therapy. Fertil Steril. 2017;107(2):351-357. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27855957/

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