Implante hormonal para menopausa: é seguro, o que dizem as sociedades médicas e como é a avaliação
Resposta direta
O implante hormonal para menopausa libera estradiol sob a pele por meses e é uma via com menos estudos que o adesivo, o gel e o comprimido. Por falta de dados de longo prazo, a FEBRASGO e a SBC não o incluem entre as vias recomendadas para a terapia hormonal da menopausa. Falta de dados não é prova de dano. A via certa sai de uma avaliação completa.
Os calores atrapalham o sono, e o implante hormonal aparece como opção nas conversas e nas notícias, nem sempre com a mesma informação. Fica difícil saber em que acreditar.
Muitas pacientes chegam ao consultório com essa dúvida. Não querem propaganda, nem a favor nem contra. Querem entender o que é o implante usado na menopausa, o que a ciência sabe e o que ainda não sabe, e como ele se compara ao adesivo, ao gel e ao comprimido.
Este artigo responde com as fontes abertas e mostra por que a resposta certa sai de uma avaliação, e não de um procedimento escolhido antes da consulta.
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Agendar pelo WhatsAppEste artigo faz parte do guia Menopausa e climatério do Dr. Rodrigo Neves. Consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo. Livro do Dr. Rodrigo Neves sobre o tema: A Menopausa Que Ninguém Explicou.
O que é o implante hormonal para menopausa e o que vai dentro dele?
O implante hormonal é um pequeno cilindro, também chamado de pellet, colocado sob a pele em consultório, que libera o hormônio aos poucos, ao longo de meses. Na menopausa, o hormônio central é o estradiol, o mesmo estrogênio que os ovários deixam de produzir. Como entra na circulação sem passar antes pelo fígado, o estradiol do implante segue um caminho parecido com o do adesivo e do gel, que são absorvidos pela pele.
Segundo a FEBRASGO, o único implante hormonal industrializado aprovado pela Anvisa é o anticoncepcional de etonogestrel. Os implantes usados na menopausa são manipulados, enquanto o adesivo, o gel e o comprimido de estradiol são medicamentos registrados.
Alguns implantes somam testosterona ou outras substâncias, como a gestrinona. O posicionamento de 2025 da Sociedade Brasileira de Cardiologia, feito com a FEBRASGO e a SBEM, afirma que a testosterona na pós-menopausa "tem como única indicação o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo" (falta persistente de desejo sexual que causa sofrimento) e que a reposição de testosterona não está indicada para sintomas vasomotores, os calores. Já a gestrinona, segundo a Carta do Rio de Janeiro, de 2026, "não possui indicação cientificamente estabelecida para terapia da menopausa".
Implante hormonal para menopausa é seguro? O que dizem as sociedades médicas
Em resumo, o implante tem menos estudos de qualidade do que as outras formas de reposição. Os que existem são poucos e pequenos.
A FEBRASGO, em 2021, e o posicionamento conjunto de SBC, FEBRASGO e SBEM, em 2025, avaliam que os estudos com implantes ainda são pequenos e não permitem conhecer os efeitos de longo prazo no coração, na mama e no endométrio; por isso não os incluem entre as vias recomendadas para a reposição na menopausa. A North American Menopause Society (hoje The Menopause Society), em 2022, descreve os pellets manipulados como via ainda pouco padronizada.
Há também experiência acumulada. Uma revisão narrativa publicada no Journal of Clinical Medicine em 2025, que reuniu estudos com implantes de estradiol publicados desde 1949, descreve controle dos sintomas vasomotores e ganho de densidade mineral óssea. Os autores ligam os problemas de segurança relatados, como sangramento, taquifilaxia e estradiol acima do fisiológico, principalmente a dose excessiva, reimplante antes da hora ou falta de proteção do endométrio, e concluem que faltam estudos comparativos de longo prazo.
Falta de estudo não é prova de dano, mas também não é prova de segurança. Por isso o implante não deveria ser o ponto de partida automático, e sim uma escolha feita depois da avaliação, quando existe um motivo claro.
O que a Anvisa permite hoje para os implantes hormonais?
Em 18 de outubro de 2024, a Anvisa publicou uma primeira medida sobre os implantes manipulados, a Resolução-RE nº 3.915. Em 21 de novembro de 2024, publicou a Resolução-RE nº 4.353, que revogou a medida de outubro e manteve duas proibições: a manipulação, a comercialização e o uso de implantes "à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos, com a finalidade estética, ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo", e a propaganda ao público em geral de implantes hormonais manipulados.
A proibição de manipulação e uso alcança a finalidade estética e de desempenho; o uso clínico, como na menopausa, ficou fora dela. Em outubro de 2026, no Congresso Mundial de Menopausa, sociedades médicas, entre elas a SBEM e a FEBRASGO, divulgaram a Carta do Rio de Janeiro. O documento afirma que "não se opõe à terapia hormonal", lembra que existem formulações registradas por via oral, transdérmica e vaginal e propõe à Anvisa a proibição dos implantes manipulados. Até a data deste artigo, vale a norma de novembro de 2024.
Implante, adesivo, gel ou comprimido: o que muda na menopausa?
Todas levam estradiol ao organismo. Muda o caminho do hormônio, a facilidade de ajuste e o volume de estudos.
Comprimido
Passa pelo fígado antes de chegar à circulação. Um grande estudo britânico de 2019 associou o comprimido a mais trombose venosa e não viu aumento com adesivo e gel; os números estão em implante hormonal e trombose. Mesmo assim, em mulheres saudáveis e sem fatores de risco cardiovascular, a SBC considera que a reposição "pode ser prescrita por qualquer via, incluindo a oral".
Adesivo e gel
São absorvidos pela pele e evitam a primeira passagem pelo fígado. A SBC descreve que a via transdérmica resulta em "menor impacto nos fatores de coagulação, triglicerídeos e PCR" e é preferível em mulheres com fatores de risco como obesidade, síndrome metabólica, tabagismo e hipertensão. O ajuste é simples e a suspensão, imediata.
Implante
Também evita o fígado e libera o hormônio de forma contínua, sem depender de lembrar de nada. A contrapartida é o ajuste: depois de colocado, o implante não é retirado com facilidade e a dose só muda no ciclo seguinte. Ainda não há estudo do porte do britânico de 2019 com o implante.
Quem tem útero precisa de progesterona mesmo usando implante?
Sim, e vale para qualquer via de estradiol. A sociedade norte-americana explica que a exposição crônica do endométrio, a camada interna do útero, ao estrogênio sem oposição aumenta o risco de hiperplasia e de câncer de endométrio, e que a mulher com útero em uso de estrogênio sistêmico deve receber progestagênio adequado. Quando essa proteção é bem feita, o risco de câncer de endométrio não fica maior que o de quem não faz reposição.
No implante, isso pede atenção redobrada, porque o estradiol continua sendo liberado por meses. A proteção do endométrio precisa acompanhar todo o período de efeito, e sangramento fora do esperado é sinal para investigar, não para esperar passar. Quem retirou o útero, em geral, não precisa dessa proteção.
Quem pode fazer implante hormonal na menopausa?
Antes da via, vem a pergunta de fundo: a reposição está indicada? A sociedade norte-americana resume que, para mulheres com menos de 60 anos ou até 10 anos do início da menopausa, sem contraindicações, a relação entre benefício e risco é favorável para tratar sintomas vasomotores incômodos e prevenir perda óssea. Na menopausa precoce e na insuficiência ovariana prematura, a mesma sociedade recomenda a reposição pelo menos até a idade média da menopausa.
Entre as contraindicações listadas pela mesma sociedade estão sangramento vaginal sem causa esclarecida, doença do fígado, câncer sensível ao estrogênio no passado, como o de mama, doença coronariana, AVC, infarto ou trombose prévios e risco hereditário alto de trombose. O tema completo está em quem não pode fazer reposição hormonal.
Só depois disso entra a escolha da via. A mesma sociedade orienta que as formulações manipuladas só sejam consideradas quando a mulher não tolera as opções aprovadas ou precisa de uma dose ou forma que elas não oferecem, e que essa indicação fique registrada. A revisão de 2025 citada acima descreve o implante como opção para mulheres com absorção ruim pela pele, dificuldade de manter um tratamento diário ou menopausa cirúrgica.
Quanto tempo dura o implante e quais os efeitos colaterais?
A duração varia com o hormônio, a quantidade implantada e o organismo de cada mulher. Veja em implante hormonal: quanto tempo dura. Um cuidado específico do implante de estradiol é a taquifilaxia, a volta dos sintomas antes do esperado mesmo com estradiol alto no sangue. O fenômeno foi descrito no BMJ em 1989 e é um dos motivos para dosar o hormônio antes de pensar em reimplante.
Quanto aos efeitos colaterais, os mais comuns da reposição em geral, segundo a sociedade norte-americana, incluem náusea, inchaço, retenção de líquido, dor de cabeça, sangramento de escape e sensibilidade nas mamas. Os detalhes estão em implante hormonal: efeitos colaterais.
Como é a avaliação antes de decidir a reposição
Na minha prática clínica, a reposição começa pela avaliação, nunca pelo procedimento. No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, a primeira consulta reúne:
- Conversa detalhada: sintomas, desde quando, como afetam sono, humor e vida sexual, e o que você espera.
- Histórico pessoal e familiar: câncer de mama e de endométrio, trombose, AVC, infarto, doença do fígado e remédios em uso.
- Exames: laboratoriais hormonais e metabólicos, rastreio das mamas e avaliação do útero conforme cada caso.
- Risco cardiovascular: pressão, colesterol, glicose e, quando indicado, exames complementares.
- Composição corporal: a bioimpedância mostra músculo e gordura e ajuda a acompanhar a evolução.
- Escolha da via: comprimido, adesivo, gel ou implante, com prós, contras e o nível de evidência de cada um.
Depois do início, o acompanhamento sustenta a segurança: retorno para medir a resposta, exames de controle, atenção a qualquer sangramento e reavaliação periódica do risco e do benefício, como recomendam as diretrizes. Quando a reposição não está indicada, existem tratamentos não hormonais para os calores. A decisão é compartilhada e pode ser revista.
Perguntas frequentes
Implante hormonal para menopausa é seguro?
É uma via com menos estudos que o adesivo, o gel e o comprimido, e por falta de dados de longo prazo a FEBRASGO e a SBC não a incluem entre as recomendadas. Falta de estudo não é prova de dano. Qualquer reposição depende de indicação correta, proteção do endométrio e acompanhamento.
O implante hormonal para menopausa é liberado pela Anvisa?
Segundo a FEBRASGO, os implantes usados na menopausa são manipulados, sem versão industrializada aprovada pela Anvisa. A Resolução-RE nº 4.353, de 2024, proibiu implantes de anabolizantes e androgênicos com fim estético ou de desempenho e a propaganda de implantes manipulados ao público, sem proibir o uso clínico. Em outubro de 2026, a Carta do Rio, que declara não se opor à terapia hormonal, propôs à Anvisa proibir os implantes manipulados; até a data deste artigo, vale a norma de 2024.
Implante hormonal na menopausa emagrece?
Não é tratamento para emagrecer. A reposição na menopausa serve para aliviar sintomas como calores e proteger os ossos, e o posicionamento de 2025 da Sociedade Brasileira de Cardiologia afirma que ela não é indicada para prevenir doenças cardiometabólicas. A Carta do Rio de Janeiro, de 2026, diz não haver evidência para usar testosterona com o objetivo de emagrecer. O peso se trabalha com alimentação, treino e avaliação metabólica.
Quem tem útero pode usar implante de estradiol?
Pode ser avaliado, mas precisa de proteção do endométrio com progestagênio durante todo o período em que o estradiol estiver agindo. Sem essa proteção, o estrogênio aumenta o risco de hiperplasia e de câncer de endométrio, segundo a sociedade norte-americana de menopausa. Como o implante libera hormônio por meses, o plano de proteção precisa estar definido antes do procedimento.
Implante hormonal serve para menopausa precoce?
Na menopausa precoce e na insuficiência ovariana prematura, a sociedade norte-americana de menopausa recomenda a reposição pelo menos até a idade média da menopausa, salvo contraindicação. A via segue a mesma lógica: as formas registradas têm mais estudos, e o implante entra quando há motivo claro. A decisão depende da causa, dos exames e do desejo de engravidar.
Conclusão
O implante hormonal para menopausa não é vilão nem atalho. Tem décadas de uso e menos estudos de qualidade do que o adesivo, o gel e o comprimido, e por isso FEBRASGO, SBC e SBEM ainda não o incluem entre as vias recomendadas para a reposição na menopausa.
A pergunta útil, então, não é "implante ou não implante", e sim "qual reposição faz sentido para mim, com o meu histórico, os meus exames e os meus objetivos". Essa resposta sai de uma avaliação completa e de acompanhamento de perto, seja qual for a via.
Referências
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Posição das Comissões Nacionais de Anticoncepção e Climatério da Febrasgo sobre implantes hormonais. 8 set. 2021. https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1312-posicao-das-comissoes-nacionais-especializadas-de-anticoncepcao-e-climaterio-da-febrasgo-sobre-implantes-hormonais
- Oliveira GMM, et al. Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher 2025 (SBC, FEBRASGO, SBEM). Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250615. https://doi.org/10.36660/abc.20250615
- The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35797481/
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução-RE nº 4.353, de 21 de novembro de 2024. Diário Oficial da União, 22 nov. 2024, Seção 1, p. 109. https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/servlet/INPDFViewer?jornal=515&pagina=109&data=22/11/2024&captchafield=firstAccess
- Carta do Rio de Janeiro: posicionamento das sociedades médicas sobre implantes hormonais manipulados. 20º Congresso Mundial de Menopausa. FEBRASGO, 1 out. 2026. https://www.febrasgo.org.br/noticia/carta-do-rio-de-janeiro-posicionamento-das-sociedades-medicas-sobre-implantes-hormonais-manipulados/
- Vinogradova Y, Coupland C, Hippisley-Cox J. Use of hormone replacement therapy and risk of venous thromboembolism: nested case-control studies using the QResearch and CPRD databases. BMJ. 2019;364:k4810. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30626577/
- Jacobsen L, Fernandes DM, Nagel ML, Souza EL, Viana DPDC. Subcutaneous Estradiol Pellets as Hormone Therapy in Menopause: Clinical Pharmacology, Patient Selection and Safety Considerations. J Clin Med. 2025;15(1):48. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41517302/
- Gangar K, Cust M, Whitehead MI. Symptoms of oestrogen deficiency associated with supraphysiological plasma oestradiol concentrations in women with oestradiol implants. BMJ. 1989;299(6699):601-602. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2508819/
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