Saúde da Mulher

Ressecamento vaginal na menopausa: o que é a síndrome geniturinária, por que ela não melhora sozinha e quais tratamentos têm evidência

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 11 min

Resposta direta

O ressecamento vaginal na menopausa faz parte da síndrome geniturinária da menopausa (alterações na vagina, na vulva, na uretra e na bexiga causadas pela queda do estrogênio). Diferente dos fogachos (ondas de calor), ele tende a piorar sem tratamento. Hidratantes e lubrificantes ajudam nos casos leves, e o estrogênio vaginal em baixa dose é a opção com mais evidência, com pouca passagem para o sangue.

Ressecamento, ardência, dor na relação, vontade de urinar a toda hora e infecções urinárias que voltam parecem problemas separados. Depois da menopausa, muitas vezes eles têm a mesma origem: a queda do estrogênio na região íntima e no trato urinário.

Muitas mulheres atribuem tudo isso à idade e não comentam nem com o médico. Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), mais de 70% das mulheres com esses sintomas não relatam a queixa, e os profissionais nem sempre perguntam. Neste artigo, explico o que é a síndrome geniturinária, por que ela não melhora sozinha, a ligação com a infecção urinária, os tratamentos e o laser vaginal.

Ressecamento ou ardência que não passam?

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O que é a síndrome geniturinária da menopausa?

Síndrome geniturinária da menopausa é o nome médico do conjunto de sintomas e sinais que a queda do estrogênio provoca na região genital e no trato urinário: grandes e pequenos lábios, clitóris, vagina, uretra e bexiga.

O termo foi adotado em 2014 pela International Society for the Study of Women's Sexual Health e pela North American Menopause Society (hoje The Menopause Society), no lugar de "atrofia vulvovaginal" (afinamento do tecido da vulva e da vagina), nome que descrevia só a aparência do tecido e deixava a uretra e a bexiga de fora. É um quadro comum: o posicionamento de 2020 da North American Menopause Society estima que ele atinge de 27% a 84% das mulheres depois da menopausa e que provavelmente é pouco diagnosticado e pouco tratado.

Quais são os sintomas: ressecamento, ardência, dor na relação e urgência para urinar

Os sintomas se dividem em três grupos, e a mulher pode ter apenas alguns deles:

Para que se fale em síndrome, os sintomas precisam incomodar, e outras causas parecidas, como infecções, doenças de pele da vulva e câncer, precisam ser descartadas. Sangramento depois da menopausa sempre pede investigação. E a dor na relação muitas vezes vem junto com a queda do desejo, que depende de outros fatores além do estrogênio, como explico no artigo sobre libido baixa na menopausa.

Por que o ressecamento vaginal não melhora sozinho com o tempo?

A vagina, a vulva, a uretra, a bexiga e a musculatura do assoalho pélvico (os músculos que sustentam bexiga, útero e intestino) têm receptores de estrogênio. Com a queda do hormônio, o revestimento da vagina afina, perde elasticidade e lubrifica menos. O pH vaginal (a medida de acidez) sobe e costuma passar de 5, e a flora tende a ter menos lactobacilos, as bactérias que mantêm o ambiente ácido. O tecido fica mais frágil e mais sujeito a irritação.

Enquanto as ondas de calor costumam melhorar com os anos, a síndrome geniturinária em geral progride sem tratamento e tende a piorar com a idade e com o tempo de falta de estrogênio. Pelo mesmo motivo, os sintomas costumam voltar quando o tratamento é interrompido, e por isso ele em geral é contínuo, com acompanhamento de longo prazo.

Infecção urinária de repetição na menopausa tem relação com o ressecamento?

Tem. A infecção urinária de repetição faz parte da síndrome geniturinária e é comum depois da menopausa. Ela é definida como duas infecções confirmadas por urocultura (o exame de cultura da urina) em seis meses, ou três em um ano. Com o pH mais alto e menos lactobacilos, bactérias de origem intestinal colonizam a vagina com mais facilidade.

Um ensaio clínico publicado no New England Journal of Medicine, em 1993, com 93 mulheres na pós-menopausa e infecções de repetição, comparou um creme vaginal de estriol a placebo. No grupo do estriol, houve em média uma infecção a cada dois anos, contra quase seis por ano no grupo placebo.

Com base nesse e em outros estudos, a diretriz de 2025 da Associação Americana de Urologia, endossada pela The Menopause Society, recomenda o estrogênio vaginal em baixa dose para reduzir novas infecções nessas mulheres. A mesma diretriz registra que não há estudos mostrando que hidratantes ou lubrificantes previnam infecção urinária.

Quais tratamentos têm evidência para a síndrome geniturinária?

As sociedades médicas orientam escolher o tratamento pela intensidade dos sintomas, pela segurança de cada opção e pela preferência da mulher.

Hidratantes e lubrificantes íntimos

Não levam hormônio e trazem alívio suficiente para a maioria das mulheres com sintomas leves. O lubrificante é usado na hora da relação, para diminuir o atrito, e não reverte as alterações do tecido. O hidratante vaginal é usado com regularidade, independentemente da relação, para reduzir o desconforto do dia a dia.

Vale preferir lubrificantes iso-osmóticos (com concentração parecida com a da secreção vaginal), à base de água ou de silicone, porque produtos muito concentrados podem irritar a mucosa. E convém evitar irritantes como sabonetes, duchas vaginais, espermicidas, protetores diários e perfumes.

Estrogênio vaginal em baixa dose

Quando os sintomas são moderados ou intensos, ou quando hidratante e lubrificante não bastam, o estrogênio aplicado na vagina em baixa dose é a opção com a base de evidência mais robusta e, para a FEBRASGO, o tratamento padrão mais eficaz. O posicionamento de 2022 da entidade cita, entre as opções de uso vaginal no Brasil, o estradiol, o promestrieno (um estrogênio sintético de uso local) e o estriol, um estrogênio mais fraco que explico no artigo sobre a diferença entre estradiol, estriol e progesterona.

Uma revisão Cochrane de 2016, com 30 ensaios randomizados e 6.235 mulheres, concluiu que os estrogênios vaginais melhoram os sintomas em comparação com placebo, com evidência de qualidade baixa a moderada, sem diferença de eficácia entre creme, comprimido vaginal e anel.

O estrogênio vaginal passa para o sangue?

Passa pouco, e quanto passa depende da quantidade aplicada. Com o estrogênio vaginal em baixa dose, os níveis de estrogênio no sangue em geral permanecem dentro da faixa esperada para a pós-menopausa. A ressalva vale para os cremes: em estudos com quantidades maiores de creme surgiram sangramento, dor nas mamas e náusea, sinais de passagem para a circulação. Por isso a quantidade segue a orientação médica.

Por isso, com o estrogênio vaginal em baixa dose, não é indicado associar progestagênio (hormônio da família da progesterona que protege o endométrio, a camada interna do útero), embora a segurança do útero não tenha sido estudada em ensaios por mais de um ano. Exames de rotina do endométrio só por causa desse tratamento também não são recomendados, e sangramento durante o uso precisa ser avaliado.

Um estudo publicado na revista Menopause, em 2019, acompanhou por 18 anos cerca de 54 mil enfermeiras americanas na pós-menopausa, participantes do Nurses' Health Study, e não encontrou aumento de risco de doença cardiovascular, câncer ou fratura de quadril entre as usuárias de estrogênio vaginal. Para quem já teve câncer de mama, a decisão é individual e envolve o oncologista, como explico no artigo sobre quem não pode fazer reposição hormonal.

Prasterona vaginal e outras opções

A prasterona vaginal, que é o DHEA (hormônio que o corpo usa como matéria-prima para estrogênio e testosterona) aplicado dentro da vagina, é outra opção estudada para o ressecamento e a dor na relação, como detalho no artigo sobre DHEA: para que serve. Para quem tem estreitamento da vagina ou contração involuntária da musculatura pélvica, há ainda os dilatadores vaginais e a fisioterapia do assoalho pélvico.

Laser vaginal funciona? O que dizem a FDA e as sociedades médicas

O laser vaginal (de CO2 fracionado ou de érbio) e a radiofrequência provocam microlesões ou aquecimento no tecido para estimular colágeno e espessar o revestimento da vagina. Estudos pequenos mostraram melhora do ressecamento e da dor na relação.

Em julho de 2018, a FDA, agência que regula medicamentos e equipamentos de saúde nos Estados Unidos, publicou um alerta sobre o uso desses aparelhos para o chamado rejuvenescimento vaginal e para sintomas ligados à menopausa, à incontinência urinária e à função sexual. O comunicado afirmava que a segurança e a eficácia desses usos não estavam estabelecidas, que a agência não havia liberado nenhum aparelho de energia para essas indicações e que o uso podia levar a eventos graves, como queimaduras vaginais, cicatrizes, dor na relação e dor crônica.

Um ensaio clínico publicado no JAMA, em 2021, comparou o laser de CO2 a um procedimento simulado (o equivalente ao placebo em procedimentos) em 85 mulheres na pós-menopausa, com três sessões. Depois de 12 meses, não houve diferença significativa entre os grupos nos sintomas, na qualidade de vida nem na análise do tecido.

O posicionamento de 2020 considerou insuficientes os ensaios controlados por placebo para avaliar eficácia e segurança ou recomendar esses tratamentos. A diretriz de 2025 orienta informar que a evidência não sustenta o uso de laser ou radiofrequência na síndrome, e admite o laser de CO2, como terapia experimental e em decisão compartilhada, para quem não pode ou prefere não usar os tratamentos aprovados. No Brasil, o posicionamento de 2025 da FEBRASGO apresenta essas tecnologias como alternativa ou complemento aos tratamentos de primeira linha, feitas por ginecologista treinado com equipamento registrado na Anvisa, e pede que a mulher saiba que o efeito dura cerca de 12 a 18 meses e que há riscos como queimaduras, corrimento, urgência urinária e fibrose vaginal (endurecimento do tecido) com repetições frequentes.

Como é feita a avaliação do ressecamento vaginal na menopausa?

O diagnóstico da síndrome geniturinária é clínico, feito pela conversa e pelo exame ginecológico, e não depende de dosagem hormonal. Na consulta, a conversa passa pelos sintomas genitais, urinários e sexuais e pelo quanto atrapalham, pelos produtos usados na região, pelas infecções urinárias e uroculturas anteriores, por sangramentos e pelo histórico de câncer de mama ou de trombose.

Quando há fogachos ou sono ruim, a reposição hormonal sistêmica (a que age no corpo todo, e não só na região íntima) pode ser avaliada: segundo o posicionamento de 2022 da North American Menopause Society, ela segue como o tratamento mais eficaz para os fogachos e para a síndrome geniturinária. Quando os sintomas são só genitais e urinários, o estrogênio vaginal é a opção preferida.

Se os sintomas persistem, vale confirmar o uso correto e investigar outras causas, como vulvodínia (dor crônica na vulva) e disfunção do assoalho pélvico. No consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo, o acompanhamento inclui reavaliar a resposta depois do início do tratamento. O guia sobre menopausa e reposição hormonal reúne os demais sintomas da fase.

Perguntas frequentes

Quem não tem vida sexual também precisa tratar o ressecamento vaginal?

Pode precisar. Mulheres sem atividade sexual também podem ter sintomas incômodos da síndrome geniturinária, como desconforto ao fazer exercício ou ardência ao urinar, e se beneficiar do tratamento. Para quem pretende retomar a vida sexual depois de um tempo sem relações, a FEBRASGO orienta tratar o tecido antes, para evitar dor na relação.

Ardência ao urinar na menopausa é sempre infecção urinária?

Não. A ardência e a urgência para urinar podem vir da própria síndrome geniturinária, sem infecção, porque a uretra e a bexiga também sentem a falta de estrogênio. A infecção precisa ser confirmada por urocultura, o exame de cultura da urina. E outras condições podem existir ao mesmo tempo, como a bexiga hiperativa.

Posso usar estrogênio vaginal junto com a reposição hormonal?

Pode, quando há indicação. A reposição sistêmica costuma melhorar também os sintomas genitais, mas nem sempre basta. O posicionamento de 2020 da North American Menopause Society diz que o estrogênio vaginal em baixa dose pode ser acrescentado, e a diretriz norte-americana de 2025 recomenda oferecer essa opção, registrando que não há estudos sobre o risco da combinação.

Fitoterápico ou suplemento ajuda no ressecamento vaginal?

As evidências não sustentam esse uso. O posicionamento de 2020 da North American Menopause Society cita um ensaio randomizado com 351 mulheres que testou por um ano a cimicífuga, um suplemento com várias plantas e a soja, sem mudança no ressecamento vaginal. A diretriz norte-americana de 2025 orienta informar que a evidência não apoia suplementos alternativos na síndrome geniturinária.

O ressecamento vaginal pode começar antes da menopausa?

Pode. A FEBRASGO registra que a síndrome geniturinária também aparece antes da menopausa e foi observada em 19% das mulheres de 40 a 45 anos. Ela surge ainda em outras situações de falta de estrogênio, como após a retirada dos dois ovários, no pós-parto e na amamentação.

Conclusão

O ressecamento vaginal da menopausa tem nome, causa conhecida e tratamentos estudados. Como a síndrome geniturinária tende a progredir sem cuidado, esperar que ela passe sozinha costuma prolongar o desconforto.

Hidratantes e lubrificantes aliviam a maioria dos casos leves, o estrogênio vaginal em baixa dose tem a base de evidência mais robusta e passa pouco para o sangue, e o laser segue como opção em estudo. A escolha depende dos sintomas, da história de saúde e da preferência de cada mulher.

Referências

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Dr. Rodrigo Neves

Médico, CRM-SP 160969. Atua em reposição hormonal, longevidade e saúde metabólica. Mais de 10.000 pacientes atendidos. Conheça o Dr. Rodrigo Neves

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