DHEA para que serve: como funciona, o que o exame DHEA-S mostra e o que a ciência diz no homem e na mulher
Resposta direta
O DHEA é um hormônio produzido sobretudo pelas glândulas adrenais e serve de matéria-prima para o corpo fabricar testosterona e estrogênio. Como tratamento, a evidência mais firme é a da prasterona vaginal, o DHEA aplicado na vagina, para a dor na relação após a menopausa. Para energia, libido, emagrecimento ou envelhecimento, os estudos não mostram benefício consistente. No Brasil, o DHEA exige receita de controle especial.
Quem pesquisa DHEA encontra o mesmo hormônio descrito de dois jeitos: "hormônio da juventude", capaz de devolver energia, libido e um corpo mais magro, e substância que, no Brasil, só sai da farmácia com receita de controle especial. Quando o DHEA-S do exame vem abaixo da referência, a dúvida é natural: vale repor?
O DHEA de fato diminui com a idade, mas há uma distância grande entre o que se promete e o que os estudos mostram. Neste artigo, explico como ele funciona, o que o exame mede, onde há evidência, quais são os riscos e o que a Anvisa determina.
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Agendar pelo WhatsAppEste artigo faz parte do guia Reposição hormonal do Dr. Rodrigo Neves. Consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo. Livro do Dr. Rodrigo Neves sobre o tema: A Verdade Sobre a Reposição Hormonal.
O que é o DHEA e como ele funciona no corpo
DHEA é a sigla de desidroepiandrosterona, um hormônio esteroide fabricado principalmente pelas glândulas adrenais, que ficam acima dos rins. Testículos e ovários produzem quantidades menores. No sangue, ele também circula como sulfato de DHEA, o DHEA-S, que é a forma medida no exame.
O papel mais conhecido do DHEA é o de matéria-prima: o corpo o converte em hormônios sexuais, tanto androgênios (como a testosterona) quanto estrogênios. Um estudo canadense publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, em 1997, mostrou que, na mulher, a maior parte dos androgênios nasce dessa transformação do DHEA e do DHEA-S dentro dos próprios tecidos.
O mesmo estudo observou que, entre os 50 e os 60 anos, o DHEA no sangue estava de 70% a 74% abaixo do pico registrado entre os 20 e os 30 anos, em mulheres e em homens. Por isso, um DHEA-S menor do que o de um adulto jovem não significa, por si só, que falta algo a repor.
DHEA para que serve: onde existe evidência e onde não existe
Na internet, o DHEA aparece como solução para energia, libido, músculo, memória, pele, humor e emagrecimento. O Manual MSD resume: muitos dos efeitos medicinais alegados do DHEA não foram comprovados.
Menopausa: a prasterona vaginal
É aqui que a evidência é mais firme. Prasterona é o nome do DHEA como medicamento, e, aplicada dentro da vagina, ela age no próprio tecido. Um ensaio clínico randomizado publicado na revista Menopause, em 2016, com 482 mulheres na pós-menopausa, comparou a prasterona vaginal a placebo por 12 semanas e observou redução da dor na relação sexual e do ressecamento vaginal. O efeito colateral relacionado ao tratamento foi corrimento, em cerca de 6% das participantes.
Esse uso trata a síndrome geniturinária da menopausa (ressecamento, ardor, dor na relação e queixas urinárias que aparecem com a queda do estrogênio). O posicionamento de 2022 da North American Menopause Society (hoje The Menopause Society) inclui o DHEA vaginal entre as opções recomendadas para esses sintomas quando os produtos sem receita não resolvem e a mulher não tem indicação de reposição hormonal sistêmica. Se a queixa principal é o desejo sexual, vale entender antes as causas de libido baixa na menopausa.
DHEA oral para libido, disposição e sintomas da menopausa
Por via oral, o cenário muda. Uma revisão Cochrane de 2015, com 28 estudos e 1.273 mulheres na perimenopausa (os anos de transição antes da última menstruação) e na pós-menopausa, mostrou que o DHEA não melhorou a qualidade de vida em comparação com placebo, o efeito sobre os sintomas da menopausa ficou incerto, a função sexual pode ter melhorado discretamente e os efeitos androgênicos, principalmente acne, foram mais frequentes. Outra revisão sistemática, de 2014, com 23 estudos e 1.188 mulheres após a menopausa, não encontrou melhora significativa da libido nem efeito sobre peso, colesterol, glicose ou densidade óssea, com confiança baixa nas evidências.
A diretriz de 2014 da Endocrine Society sobre androgênios na mulher recomenda não usar DHEA de rotina, por falta de dados sobre eficácia e segurança, tanto em mulheres saudáveis quanto em mulheres com insuficiência adrenal. Para a queda do desejo sexual com sofrimento após a menopausa, a discussão com evidência é outra, e está no artigo sobre testosterona na mulher.
Insuficiência adrenal
Há uma situação em que a própria Endocrine Society admite um teste com DHEA: mulheres com insuficiência adrenal primária (doença em que as adrenais deixam de produzir hormônios suficientes, como na doença de Addison) que seguem com libido baixa, sintomas depressivos ou pouca energia mesmo com o tratamento bem ajustado. A diretriz de 2016 classifica essa sugestão como fraca, com evidência de baixa qualidade, e orienta suspender o DHEA se não houver benefício sustentado depois de seis meses.
Fertilidade e fertilização in vitro
Em mulheres com baixa resposta dos ovários na fertilização in vitro, a revisão Cochrane publicada em 2024, com 28 estudos randomizados sobre DHEA e testosterona, concluiu que o DHEA provavelmente faz pouca ou nenhuma diferença nas taxas de nascidos vivos e de gravidez clínica.
DHEA baixo no homem e na mulher: o que significa
Um DHEA-S baixo pode ter origens muito diferentes. Uma delas é a queda natural com a idade. Nesse caso, a MedlinePlus, serviço da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, cita sintomas como redução do desejo sexual, disfunção erétil no homem e afinamento dos tecidos vaginais na mulher, sintomas que têm muitas outras causas.
A outra possibilidade merece atenção: doença das adrenais, como a doença de Addison, ou da hipófise (o hipopituitarismo, quando a glândula que comanda as outras produz menos hormônios). Quando a causa é adrenal, a MedlinePlus lista perda de peso sem explicação, náusea e vômitos, tontura, desidratação e vontade de comer sal. O uso de corticoides como medicamento também aparece, na diretriz da Endocrine Society, entre as situações associadas a androgênios baixos.
No homem, o DHEA-S é só uma peça. Cansaço, libido baixa e perda de força pedem, antes de tudo, a investigação da testosterona, como explico no artigo sobre testosterona baixa no homem.
Exame DHEA-S: o que mede e quando é pedido
O exame de DHEA-S é uma coleta de sangue. Segundo a MedlinePlus, ele serve para avaliar se as adrenais funcionam bem, investigar tumores dessas glândulas, estudar alterações de testículos e ovários, entender puberdade precoce ou atrasada em meninos e procurar a origem de sinais masculinos em mulheres, como excesso de pelos no corpo e no rosto e engrossamento da voz.
Valores altos podem aparecer na hiperplasia adrenal congênita (alteração hereditária em que as adrenais produzem androgênios em excesso), em tumores da adrenal, benignos ou malignos, na síndrome dos ovários policísticos e, raramente, em tumores de ovário. Na mulher, os sinais de DHEA-S alto incluem excesso de pelos, acne, irregularidade menstrual, voz mais grave e queda de cabelo no alto da cabeça.
Os valores de referência mudam com a idade e o sexo. Por isso, o DHEA-S costuma ser pedido junto com outros hormônios sexuais, como testosterona e estradiol, e lido à luz dos sintomas e da história clínica.
DHEA emagrece? O que os estudos mostram
Para quem procura o DHEA para emagrecer, os estudos desanimam. Um ensaio randomizado publicado no New England Journal of Medicine, em 2006, acompanhou por dois anos 87 homens e 57 mulheres mais velhos com DHEA-S baixo. O DHEA não mudou a composição corporal, a força muscular, o condicionamento físico, a sensibilidade à insulina nem a qualidade de vida.
Nas mulheres após a menopausa, a revisão de 2014 não encontrou efeito sobre peso nem sobre índice de massa corporal. Nos homens mais velhos, uma meta-análise de 25 estudos com 1.353 participantes, publicada em 2013, viu uma redução pequena da gordura corporal, que desapareceu quando os pesquisadores levaram em conta o aumento de testosterona e estradiol provocado pelo próprio DHEA. Na prática, o DHEA não é tratamento para emagrecer. Quando o peso não sai, a investigação é outra, como mostro no artigo por que você não emagrece.
DHEA no homem: pode tomar?
Legalmente, só com prescrição médica, como explico na seção sobre a Anvisa. Na evidência, o quadro é modesto: a meta-análise de 2013 não encontrou efeito do DHEA sobre função sexual, colesterol, glicose ou qualidade de vida em homens mais velhos, quando comparado a placebo.
Como o DHEA se transforma em testosterona e em estradiol, ele mexe em hormônios que, no homem, pedem acompanhamento. Entre os efeitos possíveis citados pelo Manual MSD estão o aumento das mamas e, em tese, o estímulo ao crescimento de câncer de próstata, efeitos que o manual descreve como não comprovados. Para o homem com testosterona baixa confirmada e sintomas, a reposição hormonal conduzida com exames e acompanhamento é o caminho estudado.
Efeitos colaterais do DHEA no homem e na mulher
Nos estudos com mulheres, o efeito adverso mais documentado é androgênico, principalmente acne, segundo a revisão Cochrane de 2015. O Manual MSD lista ainda, como efeitos possíveis, dor de cabeça, alterações de humor, excesso de pelos na mulher, aumento das mamas no homem, queda do HDL (o colesterol bom), aumento de triglicerídeos e piora da síndrome dos ovários policísticos.
As interações também pesam. Segundo o mesmo manual, o DHEA pode aumentar o sangramento em quem usa anticoagulante, já desencadeou episódios de mania em pessoas que tomavam antidepressivos e pode se opor ao efeito de remédios usados no tratamento do câncer de mama, como o tamoxifeno e os inibidores da aromatase. Quem tem histórico de câncer de mama, de próstata ou de fígado, ou usa algum desses medicamentos, precisa trazer essa informação para a consulta antes de qualquer decisão. Crianças não devem usar DHEA.
DHEA é liberado no Brasil? O que diz a Anvisa
O DHEA não é proibido no Brasil, mas também não é suplemento de venda livre. A Portaria SVS/MS nº 344/1998 organiza as substâncias sob controle especial, e, na atualização da lista publicada pela RDC nº 970, de 19 de março de 2025, a prasterona (o DHEA) aparece na Lista C5, a das substâncias anabolizantes, ao lado da testosterona e da gestrinona.
Na prática, o DHEA só pode ser dispensado com receita de controle especial em duas vias, a mesma regra dos outros anabolizantes da lista. A própria lista abre uma exceção para medicamentos de uso tópico, vendidos sob prescrição médica sem retenção da receita.
Como é feita a avaliação antes de pensar em DHEA
A decisão nunca parte de um número isolado. No meu consultório, em Alto de Pinheiros, São Paulo, a avaliação começa pela história: sintomas e desde quando, sono, estresse, alimentação, treino e vida sexual, remédios em uso (corticoides e antidepressivos entram aqui) e histórico pessoal ou familiar de câncer de mama ou de próstata.
Os exames vêm depois, escolhidos pela pergunta clínica: DHEA-S junto com testosterona, estradiol e os demais hormônios que a história indicar, além de tireoide, glicose e perfil de colesterol. A bioimpedância separa gordura de massa muscular. DHEA-S alto leva a investigação para adrenais e ovários; baixo com sinais de doença adrenal pede confirmar ou afastar essa doença primeiro.
Se houver uma indicação com respaldo, como a prasterona vaginal na síndrome geniturinária, ela entra com objetivo definido, data para reavaliar e exames de controle. Se não houver, o mais útil é tratar a causa real dos sintomas, com reavaliação periódica guiada pelos exames e pela resposta clínica.
Perguntas frequentes
DHEA funciona mesmo?
Para um uso específico, sim: a prasterona vaginal reduziu a dor na relação e o ressecamento após a menopausa em ensaio randomizado e está entre as opções recomendadas pela North American Menopause Society. Para energia, libido, emagrecimento ou envelhecimento, as revisões sistemáticas não mostram benefício consistente do DHEA oral.
DHEA baixo causa queda de cabelo?
A queda de cabelo não aparece entre os sinais de DHEA-S baixo descritos pela MedlinePlus. Ela aparece, na verdade, entre os sinais de DHEA-S alto em mulheres, ao lado de acne, excesso de pelos e irregularidade menstrual. Queda de cabelo tem muitas causas e merece investigação própria.
Precisa de jejum para o exame de DHEA-S?
Segundo a MedlinePlus, o exame de DHEA-S não exige preparo especial: é uma coleta de sangue comum, feita na veia do braço. Ainda assim, vale seguir a orientação do laboratório, porque ele costuma vir junto com exames que têm regras próprias de jejum ou de horário, como glicose e testosterona.
DHEA é hormônio ou suplemento?
É hormônio. No corpo, ele é produzido principalmente pelas adrenais e convertido em testosterona e estrogênio. Nos Estados Unidos, há suplementos de DHEA vendidos sem receita, o que alimenta a confusão. No Brasil, a Anvisa classifica a prasterona (DHEA) entre as substâncias anabolizantes da Lista C5, com dispensação mediante receita de controle especial em duas vias.
Atleta pode usar DHEA?
Segundo o Manual MSD, o uso de DHEA por atletas normalmente é proibido. Quem compete deve consultar a lista de substâncias proibidas da sua modalidade antes de usar qualquer produto com DHEA, inclusive cremes e produtos comprados fora do país, e levar a queixa que motivou a ideia para a consulta.
Conclusão
O DHEA é um hormônio de verdade, que cai com a idade e serve de matéria-prima para testosterona e estrogênio. O uso com melhor respaldo é a prasterona vaginal na síndrome geniturinária da menopausa, com um papel restrito na insuficiência adrenal. Para energia, libido, emagrecimento e envelhecimento, a evidência não sustenta o uso de rotina, e os efeitos colaterais e as interações são reais.
No Brasil, o DHEA é substância controlada. Se o seu exame veio alterado ou se você pensa em usar DHEA, o passo mais seguro é uma avaliação que olhe para sintomas, história e exames em conjunto.
Referências
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- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). RDC nº 970, de 19 de março de 2025: atualização do Anexo I da Portaria SVS/MS nº 344/1998, Lista C5 (substâncias anabolizantes), item 26 e adendo 2. AnvisaLegis, consultado em outubro de 2026. https://anvisalegis.datalegis.net/action/ActionDatalegis.php?acao=abrirTextoAto&tipo=RDC&numeroAto=00000970&seqAto=000&valorAno=2025&orgao=RDC/DC/ANVISA/MS&cod_modulo=310&cod_menu=9434
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