Saúde da Mulher

Testosterona na mulher: para que serve, quando está baixa ou alta e quando a reposição tem indicação

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

A testosterona feminina é produzida pelos ovários e pelas adrenais, participa do desejo sexual e cai aos poucos com a idade. Segundo o consenso internacional de 2019, a única indicação de reposição com evidência sólida é a queda do desejo sexual com sofrimento na pós-menopausa, confirmada em avaliação clínica completa. O exame de sangue sozinho não define o diagnóstico.

"Será que a minha testosterona está baixa?" Essa pergunta chega ao consultório quase sempre depois de um vídeo nas redes sociais prometendo mais energia, menos gordura e a libido de volta. A mulher passa dos 40, sente o corpo mudar, ouve de uma amiga que "fez testosterona" e quer saber se esse também é o caminho para ela.

A testosterona feminina é real e importante. Mas entre o que circula na internet e o que a ciência sustenta existe uma distância grande, e é nela que muita mulher se perde: faz um exame isolado, recebe um número e não sabe o que ele significa. Neste artigo, explico o que a testosterona faz, o que o consenso internacional de 2019 diz sobre a reposição e como a decisão deve ser tomada.

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Para que serve a testosterona na mulher?

A testosterona não é um hormônio exclusivo do homem. A mulher também produz testosterona, em quantidade bem menor, nos ovários e nas glândulas adrenais. Ela age diretamente nos receptores de andrógeno e também serve de matéria-prima para outros hormônios, inclusive o estradiol, formado a partir dela nos tecidos.

A função mais estudada é a sua relação com o desejo sexual. Fora desse terreno, como você vai ver adiante, os benefícios da reposição ainda não foram comprovados.

Testosterona baixa na mulher aos 40 anos e na menopausa: o que realmente acontece

Muita gente acredita que a testosterona da mulher "despenca" na menopausa. Os dados mostram outro quadro. Um estudo publicado no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, em 2005, com 1.423 mulheres de 18 a 75 anos, observou que a testosterona cai de forma acentuada com a idade, com queda maior nas primeiras décadas da vida adulta. Entre os 45 e os 54 anos, a menopausa natural, por si só, não mostrou efeito adicional. Já as mulheres acima de 55 anos que tinham retirado os dois ovários apresentavam níveis mais baixos de testosterona total e livre.

Ou seja, uma mulher de 40 anos costuma ter menos testosterona do que tinha aos 20, e isso faz parte da fisiologia. A diretriz da Endocrine Society cita outras situações associadas a testosterona baixa: retirada dos ovários, insuficiência adrenal, hipopituitarismo e uso de corticoides. O anticoncepcional oral combinado também reduz o hormônio: uma meta-análise de 2014, com 42 estudos e 1.495 mulheres saudáveis, mostrou queda da testosterona total e redução média de 61% na testosterona livre, porque a pílula diminui a produção de andrógenos e aumenta a SHBG, a proteína que "segura" a testosterona no sangue. Mesmo assim, a diretriz não recomenda prescrever testosterona de rotina só porque o nível está baixo.

Testosterona feminina baixa: quais sintomas têm relação com o hormônio?

Na internet, a lista de "sintomas de testosterona baixa na mulher" é enorme: cansaço, desânimo, perda de massa muscular, gordura abdominal, memória fraca. O problema é que essas queixas têm muitas causas possíveis, e a ciência ainda não as ligou a um nível específico de testosterona.

A Endocrine Society recomenda não diagnosticar uma "síndrome de deficiência androgênica" em mulheres saudáveis, porque ela não está bem definida e faltam dados que relacionem os níveis de andrógenos a sinais ou sintomas específicos. O consenso de 2019 vai na mesma linha: nenhum ponto de corte no exame de sangue separa as mulheres com e sem disfunção sexual.

O sintoma com relação demonstrada com o tratamento é a queda persistente do desejo sexual que causa sofrimento, na mulher depois da menopausa. Esse quadro se chama transtorno do desejo sexual hipoativo, e eu explico em detalhe no artigo sobre libido baixa na menopausa. O cansaço e o desânimo não são "coisa da sua cabeça": merecem investigação ampla, porque costumam ter outras causas que também têm tratamento.

O que o consenso internacional de 2019 diz sobre a reposição de testosterona feminina

Em 2019, foi publicado o Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women, endossado por entidades como a International Menopause Society, a Endocrine Society e a Federação Latino-Americana de Sociedades de Climatério e Menopausa.

A base do documento foi uma meta-análise publicada na The Lancet Diabetes & Endocrinology, em 2019, que reuniu 36 ensaios randomizados com 8.480 participantes. Nas mulheres na pós-menopausa, a testosterona melhorou desejo, excitação, orgasmo e prazer e reduziu o sofrimento ligado à vida sexual, com ganho médio de cerca de um evento sexual satisfatório a mais por mês em relação ao placebo.

O que tem evidência

A conclusão central é direta: a única indicação da testosterona para mulheres baseada em evidências é a mulher na pós-menopausa com diagnóstico de transtorno do desejo sexual hipoativo, feito após uma avaliação completa que considera o corpo, as emoções e o relacionamento. Vale para a menopausa natural ou cirúrgica, com ou sem estrogênio associado.

O que ainda não tem evidência

Isso não significa que a reposição "não funciona". Significa que ela tem um alvo bem definido. No Brasil, a Resolução 2.333/2023 do Conselho Federal de Medicina veda o uso de testosterona sem comprovação diagnóstica da deficiência e proíbe hormônios androgênicos com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de desempenho esportivo. Na exposição de motivos, considera justificada a prescrição, a curto prazo, em mulheres com diagnóstico de desejo sexual hipoativo.

Testosterona feminina: qual exame fazer e por que o exame isolado não fecha diagnóstico

O exame mais usado é a testosterona total no sangue, muitas vezes com a SHBG e o cálculo da testosterona livre. O que pouca gente explica: medir valores baixos com precisão é difícil. O consenso de 2019 afirma que os exames comuns de laboratório são pouco precisos nos níveis baixos da mulher; o método mais preciso é a espectrometria de massas.

Por isso não coloco aqui um "valor normal". A diretriz internacional de síndrome dos ovários policísticos lembra que as faixas de referência variam muito entre métodos e laboratórios. Além disso, nenhum ponto de corte separa mulheres com e sem queda do desejo, e, segundo a Endocrine Society, o nível antes do tratamento não previu quais mulheres responderiam à reposição.

Então para que serve o exame? Para afastar níveis altos antes de qualquer tratamento e, durante a reposição, para conferir se a testosterona está dentro da faixa fisiológica feminina, sem excesso. O diagnóstico, esse, é clínico.

Testosterona feminina alta: quando pensar em SOP

A testosterona alta é outro assunto. Uma causa importante é a síndrome dos ovários policísticos (SOP). Pela diretriz internacional de 2023, o diagnóstico no adulto exige dois de três critérios: sinais clínicos ou laboratoriais de excesso de andrógenos, alteração da ovulação e ovários policísticos no ultrassom (ou hormônio antimülleriano elevado), depois de afastar outras causas. Os sinais clínicos são aumento de pelos no padrão masculino (hirsutismo), acne e queda de cabelo com padrão feminino.

Quando os níveis estão muito acima da referência, ou os sinais surgem de forma rápida e progressiva, a diretriz orienta investigar tumores produtores de andrógenos, doenças da adrenal e, depois da menopausa, uma condição do ovário chamada hipertecose. Testosterona baixa e testosterona alta são problemas opostos, com investigação e tratamento diferentes.

Reposição de testosterona feminina: formas de uso, implante e efeitos colaterais

Formas de uso

O consenso não recomenda a testosterona por via oral, porque ela piora o HDL e o LDL. As formas não orais, como as aplicadas na pele, não mostraram efeito adverso sobre o colesterol nos estudos de curto prazo. Na maioria dos países, a testosterona para mulheres é prescrita fora da bula, e o consenso considera razoável usar um produto aprovado para homens (sempre com prescrição e dosagem no sangue, nunca o produto de outra pessoa) quando não há um feminino disponível, desde que os níveis fiquem na faixa fisiológica feminina.

Implante de testosterona feminino

O implante é uma das formas de administração usadas na prática clínica. Segundo a Anvisa, implantes hormonais são formulações inseridas sob a pele, manipuladas mediante prescrição e sob responsabilidade do médico, quando ele avalia que nenhum medicamento disponível no mercado atende à necessidade da paciente. Desde a Resolução 4.353/2024, implantes à base de hormônios androgênicos são proibidos para fins estéticos, esportivos ou de ganho de massa muscular. Para uso clínico, a receita traz o código CID da condição tratada, segue as regras de controle especial e vem com um termo de esclarecimento sobre os riscos, assinado também pela paciente.

Seja qual for a via, o princípio do consenso é o mesmo: nenhuma forma deve levar a testosterona acima da faixa fisiológica feminina. Por isso a escolha é individual e os exames fazem parte do acompanhamento. Explico o implante hormonal feminino em um artigo próprio.

Efeitos colaterais

Em níveis que reproduzem a faixa fisiológica feminina, o consenso descreve aumento leve de acne e de pelos em algumas mulheres, sem queda de cabelo, aumento do clitóris ou mudança de voz, e sem aumento de pressão arterial, glicose, hemoglobina glicada ou densidade mamária na mamografia. Mas os dados de segurança não vão além de 24 meses, e os estudos excluíram mulheres com câncer de mama prévio e com alto risco cardiometabólico. Por isso há cautela em câncer de mama sensível a hormônios, tema que detalho em quem não pode fazer reposição hormonal.

Como é feita a avaliação antes de pensar em testosterona

Na minha prática clínica, a conversa sobre testosterona começa pela história: quando o desejo mudou, se isso traz sofrimento, como estão o sono, o humor, o cansaço e o relacionamento, em que fase do ciclo ou da menopausa você está e quais remédios usa, inclusive anticoncepcional. É o que o consenso chama de avaliação biopsicossocial.

Depois vêm os exames, interpretados em conjunto: testosterona total e SHBG, estradiol e FSH para situar a fase hormonal, tireoide, glicemia e insulina, além de outros conforme o caso. A bioimpedância avalia a composição corporal e acompanha a evolução. No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, é com esse conjunto na mesa que a decisão é tomada, junto com a paciente.

Quando a reposição é indicada, o acompanhamento segue o consenso: testosterona total antes de começar, nova dosagem entre 3 e 6 semanas depois, reavaliação a cada 6 meses para conferir resposta e sinais de excesso, e interrupção se não houver benefício em 6 meses. Muitas vezes ela entra como parte de uma reposição hormonal feminina mais ampla; o guia de menopausa e climatério reúne os outros temas dessa fase.

Perguntas frequentes

Testosterona na mulher emagrece ou aumenta a massa muscular?

Os estudos não mostraram isso. Segundo o consenso internacional de 2019, a testosterona em níveis fisiológicos femininos não teve efeito significativo sobre massa magra, gordura corporal ou força. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina proíbe prescrever hormônios androgênicos com finalidade estética ou de ganho de massa muscular.

Qual o valor normal de testosterona feminina?

Não existe um número único que sirva para todas. As faixas de referência variam muito entre métodos e laboratórios, e os exames comuns de laboratório são pouco precisos nos níveis baixos da mulher. Nenhum ponto de corte separa mulheres com e sem queda do desejo. Por isso o resultado precisa ser lido junto com a história clínica, a fase da vida e o uso de hormônios.

Testosterona feminina aumenta a libido?

Na mulher na pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo, sim: a meta-análise de 2019, com 36 ensaios randomizados, mostrou melhora do desejo, da excitação, do orgasmo e do prazer em comparação ao placebo. Para outros tipos de queixa sexual, ou para mulheres sem disfunção, esse benefício não foi demonstrado.

Mulher antes da menopausa pode fazer reposição de testosterona?

O consenso internacional de 2019 considera os dados insuficientes para recomendar testosterona antes da menopausa, para a vida sexual ou qualquer outro objetivo. Isso não encerra a conversa: queda de desejo, cansaço ou alteração do ciclo nessa fase merecem investigação, porque podem ter causas com tratamento próprio. A conduta sai da avaliação individual.

O anticoncepcional baixa a testosterona?

Sim. Uma meta-análise de 2014, com 42 estudos e 1.495 mulheres saudáveis, mostrou que o anticoncepcional oral combinado reduz a testosterona total e diminui em média 61% a testosterona livre, porque reduz a produção de andrógenos e aumenta a SHBG. O impacto clínico dessa queda ainda não está esclarecido, e a pílula dificulta a leitura do exame.

Conclusão

A testosterona feminina existe, importa e cai com a idade. O que a ciência sustenta hoje é mais preciso do que as promessas das redes sociais: a reposição tem indicação com evidência para a mulher na pós-menopausa com transtorno do desejo sexual hipoativo, diagnosticado em avaliação completa, mantendo o hormônio na faixa fisiológica feminina e com acompanhamento.

Fora desse cenário, o caminho é investigar melhor. Um exame isolado não responde se a testosterona é a sua questão. A história clínica, os exames lidos em conjunto e o acompanhamento, sim.

Referências

  1. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6821450/
  2. Islam RM, Bell RJ, Green S, Page MJ, Davis SR. Safety and efficacy of testosterone for women: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trial data. Lancet Diabetes Endocrinol. 2019;7(10):754-766. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31353194/
  3. Wierman ME, Arlt W, Basson R, et al. Androgen therapy in women: a reappraisal. An Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2014;99(10):3489-3510. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25279570/
  4. Davison SL, Bell R, Donath S, Montalto JG, Davis SR. Androgen levels in adult females: changes with age, menopause, and oophorectomy. J Clin Endocrinol Metab. 2005;90(7):3847-3853. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15827095/
  5. Zimmerman Y, Eijkemans MJ, Coelingh Bennink HJ, Blankenstein MA, Fauser BC. The effect of combined oral contraception on testosterone levels in healthy women: a systematic review and meta-analysis. Hum Reprod Update. 2014;20(1):76-105. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3845679/
  6. Teede HJ, Tay CT, Laven JJE, et al. Recommendations from the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. J Clin Endocrinol Metab. 2023;108(10):2447-2469. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10505534/
  7. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023. Diário Oficial da União, 11 abr. 2023, seção 1, p. 226. https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2023/2333_2023.pdf
  8. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Implantes hormonais: novas medidas vão impor mais rigor à manipulação. Resolução-RE nº 4.353/2024. Brasília, nov. 2024. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2024/implantes-hormonais-novas-medidas-vao-impor-mais-rigor-a-manipulacao

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