Testosterona total, livre e biodisponível: qual a diferença, o papel da SHBG, como a livre é calculada e o que os valores significam
Resposta direta
A testosterona total mede todo o hormônio no sangue; a livre é a parte, de 2% a 4%, que circula solta e age nos tecidos; a biodisponível soma a livre com a presa à albumina. Quando a SHBG, proteína que transporta o hormônio, está alta, a total pode parecer normal com a livre baixa. A livre confiável é calculada a partir da total, da SHBG e da albumina, ou medida por diálise de equilíbrio.
Testosterona total "dentro da faixa" e testosterona livre "abaixo" no mesmo laudo é uma das combinações que mais geram dúvida no consultório. O homem leu que a total é o exame principal, viu o número normal e não entende por que a livre veio baixa e se isso explica o cansaço, a queda de libido ou a força que não volta na academia.
A resposta passa por uma proteína pouco falada, a SHBG, e por um detalhe de laboratório: a testosterona livre pode ser calculada, medida por um método de referência ou "dosada" por um teste que as diretrizes mandam não usar. Dependendo do caminho, o mesmo sangue dá números diferentes.
Este artigo explica a diferença entre as três frações, o que faz a SHBG subir ou descer, por que a total normal com a livre baixa acontece, como a livre é calculada, quais são os cortes publicados (com a fonte e o método de cada um) e quando vale investigar.
Resultado na mão e dúvida na leitura?
Na avaliação, o laudo é interpretado junto com os sintomas, a SHBG e o método usado pelo laboratório.
Agendar pelo WhatsAppEste artigo faz parte do guia de reposição hormonal masculina do Dr. Rodrigo Neves. Consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo. Livro do Dr. Rodrigo Neves sobre o tema: Testosterona Depois dos 40.
Testosterona total, livre e biodisponível: qual a diferença?
A testosterona total é tudo o que circula no sangue, presa ou não a proteínas. A maior parte viaja ligada à SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais), que segura o hormônio com força, e à albumina (a proteína mais abundante do sangue), que o segura frouxamente. Segundo a diretriz da Endocrine Society de 2018, só 2% a 4% da testosterona circula livre.
A testosterona livre é essa fração solta, a que entra nas células e age. A biodisponível soma a livre com a parte presa à albumina: a mesma diretriz explica que essa ligação é fraca o bastante para se desfazer nos capilares, e a parcela fica disponível para os tecidos. Quando o laudo traz "livre e biodisponível calculadas", as duas saem da mesma conta, e a biodisponível é sempre o número maior.
A total diz quanto hormônio existe; a livre diz quanto está de fato disponível. A distância entre as duas depende quase inteiramente da SHBG.
O que é a SHBG e por que ela muda a leitura do exame?
A SHBG é uma proteína do sangue, produzida sobretudo pelo fígado. Quanto mais SHBG, mais testosterona fica presa e menos sobra livre; quanto menos SHBG, mais hormônio solto para a mesma total. E a SHBG não é fixa: sobe e desce com a idade, o peso, a tireoide, o fígado e alguns medicamentos.
A SHBG não é fixa: sobe e desce com a idade, o peso, a tireoide, o fígado e alguns medicamentos. A lista de condições que a Endocrine Society e o posicionamento brasileiro de 2026 reúnem está no artigo sobre SHBG alta ou baixa.
É isso que faz a mesma testosterona total significar coisas diferentes em dois homens, e por isso a SHBG precisa estar no pedido sempre que a livre for calculada.
Testosterona total normal e livre baixa: por que acontece e o que significa?
Acontece quando a SHBG está alta: o hormônio existe, mas está preso. Com a idade, a total cai devagar enquanto a SHBG sobe, e a livre cai mais rápido. É o motivo de tantos laudos de homens acima dos 50 anos mostrarem a total "dentro da faixa" com a livre no limite ou abaixo dele, como descrevo em andropausa: sintomas e tratamento.
O Estudo Europeu do Envelhecimento Masculino (EMAS) testou se essa combinação tem significado clínico. Numa análise publicada no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, em 2016, com 3.334 homens de 40 a 79 anos, os 277 com total normal e livre calculada baixa eram mais velhos, tinham SHBG e LH (o hormônio da hipófise que comanda o testículo) mais altos, relatavam mais sintomas sexuais e físicos e tinham hemoglobina mais baixa do que os homens com as duas frações normais. Já os 96 com total baixa e livre normal eram mais jovens e mais obesos, tinham SHBG baixa e não apresentavam sinais de deficiência. A conclusão dos autores: a livre calculada deve ser avaliada em homens com sintomas sugestivos.
Em outras palavras, total normal com livre baixa não é erro de exame nem detalhe: no estudo, foi justamente o grupo com queixas. O inverso, total baixa com livre normal, é a situação típica do excesso de peso, em que a SHBG baixa derruba a total sem derrubar a livre. Os sinais que entram nessa conta estão em testosterona baixa no homem: 10 sinais.
Como a testosterona livre é medida: diálise, cálculo de Vermeulen e por que o teste direto não serve
Existem três caminhos, e só dois são confiáveis. O método de referência é a diálise de equilíbrio, em que o laboratório separa fisicamente a fração solta antes de medir: preciso, mas caro e pouco disponível. Por isso o posicionamento brasileiro de 2026 recomenda calcular a livre.
O cálculo mais usado vem de um trabalho publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, em 1999, por Vermeulen e colaboradores. A equação parte da testosterona total, da SHBG e da albumina e estima quanto hormônio fica solto, considerando a afinidade de cada proteína. Os autores compararam o cálculo com a diálise de equilíbrio em amostras com SHBG de muito baixa a muito alta e encontraram valores praticamente idênticos, com uma exceção: a gravidez, em que o estradiol ocupa parte da SHBG e o cálculo subestima a livre. É por isso que o laudo diz "testosterona livre calculada": o laboratório mediu total e SHBG e aplicou a fórmula. A livre calculada é a testosterona livre que as diretrizes pedem.
O terceiro caminho é o imunoensaio direto da livre, um teste com anticorpos que tenta medir a fração solta sem separá-la. No estudo de Vermeulen, esse teste devolveu apenas uma fração do valor real, e a fração mudava conforme a SHBG. A Endocrine Society orienta não usar imunoensaios diretos de testosterona livre, porque são imprecisos, e a diretriz europeia de urologia (EAU) diz que devem ser evitados. Se o seu laudo traz uma livre "dosada" sem mencionar cálculo nem diálise, vale perguntar ao laboratório o método.
Qual é o valor de referência da testosterona total e livre?
Não existe um número único, e a razão está no método. Um estudo publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, em 2017, por Travison e colaboradores, reuniu 9.054 homens de quatro coortes (grupos acompanhados ao longo do tempo) dos Estados Unidos e da Europa, mediu 100 de cada coorte no método de referência do CDC (espectrometria de massa, LC-MS/MS), usou essa calibração para harmonizar o restante e mostrou que boa parte da diferença entre os estudos vinha do aparelho. Em homens saudáveis e sem obesidade de 19 a 39 anos, 2,5% tinham total abaixo de 264 ng/dL, a mediana foi 531 e 97,5% ficavam abaixo de 916 ng/dL.
Os cortes da testosterona total, com a fonte de cada um
Os números abaixo aparecem em unidades diferentes porque vêm de métodos e documentos diferentes. Na prática, o que vale é comparar o resultado com a faixa do laboratório que fez o exame.
- Endocrine Society (2018): adota a faixa harmonizada de 264 a 916 ng/dL e trata 264 ng/dL como limite inferior, válido para dosagem calibrada ao método de referência.
- AUA, associação americana de urologia (2018): 300 ng/dL como corte razoável para apoiar o diagnóstico, sempre com duas dosagens no início da manhã, em dias diferentes.
- SBEM, SBU e ABEMSS (Brasil, 2026): total abaixo de 264 ng/dL apoia o diagnóstico; acima de 350 ng/dL costuma afastar; entre 264 e 350, ou com condição que altera a SHBG, a avaliação continua com a livre. O documento lembra que esses cortes vieram de homens jovens sem comorbidades medidos por LC-MS/MS, enquanto a maioria dos laboratórios usa imunoensaio.
- EAU, diretriz europeia de urologia (edição vigente): 12 nmol/L, cerca de 350 ng/dL, como limiar confiável para o diagnóstico, com repetição em pelo menos duas ocasiões.
E a testosterona livre?
Aqui a resposta é ainda menos universal. A Endocrine Society afirma que não existe faixa de referência harmonizada para a livre e que os valores podem variar bastante conforme o método de diálise ou o algoritmo de cálculo, o que explica dois laboratórios imprimirem faixas diferentes para o mesmo homem. Os cortes publicados têm origem específica: a EAU adota 220 pmol/L, cerca de 6,4 ng/dL; o posicionamento brasileiro recomenda 6,5 ng/dL para a livre calculada; e o EMAS, no New England Journal of Medicine, em 2010, com 3.369 homens de 40 a 79 anos, definiu a deficiência ligada à idade por pelo menos três sintomas sexuais com total abaixo de 11 nmol/L (cerca de 320 ng/dL) e livre calculada abaixo de 220 pmol/L (64 pg/mL). É praticamente o mesmo número em unidades diferentes (1 ng/dL equivale a 10 pg/mL), e todos se referem à livre calculada, nunca ao imunoensaio direto. Na prática, compare o seu número com a faixa do laboratório que fez o exame.
Quando investigar a testosterona livre?
As diretrizes concordam. A Endocrine Society recomenda obter a livre quando a total fica no limite inferior da faixa ou perto dele, ou quando existe condição que altera a SHBG. A EAU acrescenta que medir a SHBG e calcular a livre melhora a precisão do diagnóstico sobretudo em homens mais velhos com obesidade. E a análise do EMAS de 2016 sugere avaliar a livre em todo homem com sintomas sugestivos, já que a total sozinha deixou passar o grupo com queixas.
Isso vale aos 60 anos, com cansaço e queda de libido, e aos 30, com um laudo baixo sem explicação. No homem jovem, a investigação da causa vem antes de qualquer decisão, como detalho em testosterona baixa no homem jovem.
Na mulher, a conta é outra: as concentrações são muito menores, e o Consenso Global de 2019 classifica os testes diretos de total e de livre como altamente não confiáveis na faixa feminina. O que o exame pode dizer para elas está em testosterona na mulher.
Como é feita a avaliação no consultório
Na consulta, em Alto de Pinheiros, São Paulo, o laudo é lido junto com a história: sintomas (sono, energia, libido, ereção, humor, força, gordura abdominal), medicamentos em uso, peso, tireoide e fígado, porque é isso que explica a SHBG de cada pessoa. O exame físico olha o que o papel não mostra: distribuição de gordura, massa muscular, pelos, mamas e testículos.
A parte laboratorial segue as diretrizes: testosterona total colhida de manhã, entre 7 e 10 horas, em jejum, e repetida em outra manhã nas mesmas condições (o preparo está em exame hormonal precisa de jejum?), sempre com SHBG e albumina no pedido, para que a livre seja calculada. LH e FSH mostram se a origem está no testículo ou no comando da hipófise; hemograma, PSA e os demais exames estão em exames para reposição hormonal masculina. A bioimpedância estima gordura e músculo e ajuda a entender uma SHBG baixa ligada ao peso.
O diagnóstico de deficiência de testosterona exige sintomas compatíveis e duas dosagens matinais baixas. Uma livre baixa isolada, sem sintomas, não fecha diagnóstico; uma total normal com sintomas e livre baixa pede investigação. Confirmadas a deficiência e a causa, a decisão sobre reposição hormonal é médica e individual: considera idade, planos de ter filhos, hematócrito, próstata e o que pode ser tratado antes, como o excesso de peso e a tireoide fora do lugar.
Perguntas frequentes
Testosterona livre calculada é o mesmo que testosterona livre?
Sim, é a forma recomendada de obter a testosterona livre. O cálculo de Vermeulen, a partir da total, da SHBG e da albumina, deu valores praticamente idênticos aos da diálise de equilíbrio, o método de referência, exceto na gravidez. O que as diretrizes mandam evitar é o imunoensaio direto da livre, que entrega só uma fração do valor real.
Qual é o valor normal da testosterona livre?
Não existe faixa harmonizada para a testosterona livre: a Endocrine Society diz que os valores variam conforme o método de diálise ou o algoritmo de cálculo do laboratório. Os cortes publicados para a livre calculada são 220 pmol/L, cerca de 6,4 ng/dL, na diretriz europeia, e 6,5 ng/dL no posicionamento brasileiro de 2026. Compare o seu número com a faixa do laboratório que fez o exame.
SHBG alta: o que significa e dá para baixar?
SHBG alta significa que mais testosterona está presa e menos circula livre. Ela sobe com a idade, com doenças do fígado, com a tireoide acelerada, com estrogênios e com alguns anticonvulsivantes. Não se trata a SHBG em si: a avaliação procura a causa e corrige a leitura calculando a livre. Qualquer medida sobre a causa é decisão médica.
Testosterona total alta e livre baixa: o que significa?
Em geral, SHBG muito alta. Quando a proteína transportadora sobe demais, como no hipertireoidismo, em doenças do fígado ou com uso de estrogênio, a total pode ficar alta e a livre, baixa. A conta da livre calculada mostra o que está disponível, e a investigação se volta para a causa da SHBG elevada.
Testosterona livre baixa em mulher: o que significa?
Pede cautela antes de qualquer conclusão. O Consenso Global de 2019 classifica os testes diretos de total e de livre como altamente não confiáveis na faixa feminina, e um número baixo isolado não define deficiência nem indica reposição. A leitura depende do método, da fase da vida e dos sintomas, como explico em testosterona na mulher.
Conclusão
Total, livre e biodisponível medem coisas diferentes, e quem separa uma da outra é a SHBG. Um laudo com total normal e livre baixa merece ser levado a sério, desde que a livre tenha sido calculada ou medida por diálise. Os cortes existem, mas cada um tem população, método e unidade próprios, e são lidos contra a faixa do laboratório.
Quem fecha o diagnóstico é a combinação de sintomas com duas dosagens matinais e a investigação da causa. Com isso na mesa, a conversa sobre reposição hormonal, quando cabe, acontece com base e sem pressa.
Referências
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- Salonia A, Bettocchi C, Capogrosso P, et al. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health, capítulo Male Hypogonadism. EAU Guidelines Office, Arnhem, Holanda; edição online consultada em 18/10/2026. https://uroweb.org/guidelines/sexual-and-reproductive-health/chapter/male-hypogonadism
- Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200(2):423-432. https://www.auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines/testosterone-deficiency-guideline
- Davis SR, Baber R, Panay N, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-4666. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31498871/
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