Saúde da Mulher

Mounjaro na menopausa: funciona, pode usar com reposição hormonal e como proteger músculo e osso

Dr. Rodrigo Neves 29 de outubro de 2026 Leitura: 10 min

Resposta direta

Sim. Em mulheres na pós-menopausa com obesidade ou sobrepeso, a tirzepatida (Mounjaro) levou a uma perda de peso parecida com a das mais jovens: na análise do estudo SURMOUNT-1, 23% do peso em média em 72 semanas, contra 3% com placebo. A reposição hormonal junto foi associada a perda maior só em estudos observacionais. Músculo e osso pedem atenção durante o emagrecimento.

Nos grandes estudos de obesidade da tirzepatida, a substância do Mounjaro, as mulheres foram de 63% a 71% dos participantes. Mesmo assim, só em 2025 saiu uma análise separando quem estava antes, durante e depois da menopausa, a fase em que a gordura costuma ir para a barriga e a balança deixa de responder como antes, como explica o artigo sobre menopausa e ganho de peso.

A seguir, o que essa análise mostrou, o que os estudos dizem sobre usar Mounjaro junto com a reposição hormonal, o cuidado com músculo e osso, quem não pode usar segundo a bula brasileira e como é feita a avaliação antes de começar.

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Mounjaro funciona na menopausa? O que mostram os estudos SURMOUNT

Funciona, segundo uma análise publicada em 2025 na revista Obesity, que reorganizou as mulheres de três ensaios randomizados do programa SURMOUNT (estudos em que um sorteio define quem recebe o remédio e quem recebe placebo, uma injeção sem remédio) pela fase reprodutiva. No SURMOUNT-1 entraram 1.707 mulheres com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes. As 581 classificadas na pós-menopausa, com idade média de 58 anos, perderam em média 23% do peso em 72 semanas na maior dose do estudo, contra 3% com placebo. As da perimenopausa (os anos de transição antes da última menstruação) também perderam 23%, e as da pré-menopausa, 26%.

A cintura caiu em média 20 centímetros na pós-menopausa, contra 4 no placebo. Em todas as fases, de 97% a 98% das mulheres que usaram o remédio perderam pelo menos 5% do peso, contra 29% a 33% com placebo. Os estudos SURMOUNT-3 e SURMOUNT-4 mostraram resultados semelhantes.

Dois cuidados na leitura. A classificação foi feita depois dos estudos, e a maior parte das mulheres foi colocada em cada fase só pela idade, sem exame ou história que confirmasse a menopausa. E parte dos autores é do fabricante. Uma declaração de posição da Sociedade Espanhola de Menopausa, publicada em 2026 na revista Maturitas, resume o estado atual: a tirzepatida é promissora, mas ainda precisa ser avaliada especificamente na menopausa.

Mounjaro e reposição hormonal juntos: o que se sabe

Ainda não existe ensaio randomizado testando a combinação. Os dados vêm de estudos observacionais da Mayo Clinic, que analisaram prontuários de mulheres já em tratamento, sem sorteio.

Isso não prova que a reposição aumente o efeito do remédio. No comunicado da Mayo Clinic, os próprios autores lembram que, sem sorteio, não dá para afirmar a causa: as mulheres em reposição podiam já ter hábitos mais saudáveis, ou o alívio dos sintomas pode ter melhorado o sono e a disposição para manter dieta e exercício. Um ensaio randomizado foi planejado para responder.

A Sociedade Espanhola de Menopausa classifica como hipótese a associação vista com a semaglutida e afirma que ela não justifica começar a reposição só para emagrecer mais. Uma revisão publicada em 2026 na revista Obesity Pillars vai na mesma linha. A reposição hormonal tem indicações próprias: segundo a North American Menopause Society (hoje The Menopause Society), em 2022, ela continua sendo o tratamento mais eficaz para os calorões e previne a perda óssea e as fraturas. Os riscos variam com o tipo, a via, o tempo de uso e a idade em que começa, como explica o artigo sobre terapia hormonal na menopausa é segura.

Quem toma reposição pela boca precisa de cuidado extra?

O Mounjaro deixa o estômago esvaziar mais devagar. Por isso, a bula americana pede cautela com remédios tomados pela boca e cita o anticoncepcional oral e a varfarina. Como já vale para o anticoncepcional, a bula brasileira recomenda trocar a pílula por um método não oral, ou somar um método de barreira, no início e depois de cada aumento de dose, e afirma que os métodos hormonais não orais não devem ser afetados. Para o estradiol e a progesterona usados na reposição, as bulas não trazem dados específicos. Por isso, quem faz reposição oral e vai começar o remédio conversa sobre a via com o médico, sem mudar nada por conta própria.

Mounjaro na menopausa faz perder massa muscular e osso?

Uma revisão da Mayo Clinic publicada em 2026 na revista Maturitas lembra que a transição da menopausa acelera a perda de músculo e de osso, e que o emagrecimento com remédio pode somar a essa perda. Segundo os autores, a massa magra costuma cair na proporção do peso perdido, muitas vezes com melhora do funcionamento físico relatado pelas pacientes; mas massa magra não é o mesmo que força, poucos estudos mediram força como objetivo principal, e os resultados sobre densidade óssea e fratura ainda são inconsistentes. Os números do SURMOUNT-1 sobre músculo estão em Mounjaro e perda de massa muscular.

O que os estudos mediram no osso

O dado mais direto é com semaglutida, não com tirzepatida. Num ensaio randomizado de fase 2 publicado na revista eClinicalMedicine, em 2024, com 64 adultos com risco aumentado de fratura, 55 deles mulheres na pós-menopausa, de idade média de 63 anos, a densidade óssea do quadril e da coluna ficou menor no grupo do remédio do que no placebo depois de 52 semanas, e um marcador de reabsorção óssea subiu. Segundo os autores, essa reabsorção maior pode ser explicada pela perda de peso.

Sem remédio, o exercício já mostrou fazer diferença. Num ensaio publicado no New England Journal of Medicine, em 2017, 160 idosos com obesidade fizeram dieta com treino aeróbico, de força ou combinado. Todos os grupos com exercício perderam 9% do peso, mas a densidade óssea do quadril caiu 3% com o aeróbico, contra 1% com o treino combinado e 0,5% com o treino de força, que também preservaram mais a massa magra.

A Sociedade Espanhola de Menopausa pede que o tratamento na menopausa olhe gordura visceral, músculo, risco de fratura e prevenção cardiovascular, com treino de força, proteína suficiente e acompanhamento estruturado. O papel do estrogênio no osso está em menopausa e ossos.

Efeitos colaterais do Mounjaro na menopausa: muda alguma coisa?

Na análise por fase reprodutiva, o perfil de efeitos nas mulheres foi parecido com o dos estudos completos: os digestivos, como náusea, diarreia, prisão de ventre e vômito, foram os mais relatados, a maioria leves a moderados. A bula brasileira chama atenção para a desidratação quando há vômito ou diarreia, que pode piorar a função dos rins, sobretudo em pessoas mais velhas. Frequências, sinais de alerta e o que pede atendimento imediato estão em efeitos colaterais do Mounjaro.

Quem não pode usar Mounjaro, segundo a bula brasileira

A bula brasileira indica o Mounjaro no controle crônico do peso para adultos com IMC (índice de massa corporal) a partir de 30, ou a partir de 27 com uma doença ligada ao peso, junto de dieta e atividade física. Estar na menopausa não muda essa regra.

Estar na menopausa não muda as contraindicações, que valem da mesma forma: alergia grave à tirzepatida e histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide (tipo raro de câncer da tireoide) ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (síndrome hereditária ligada a esse câncer). A lista completa de contraindicações e alertas da bula está no artigo sobre efeitos colaterais do Mounjaro, citado acima.

Como é feita a avaliação antes de usar Mounjaro na menopausa

Na consulta, a avaliação começa pela fase em que a mulher está: data da última menstruação, sintomas, reposição hormonal em uso e por qual via, e, na perimenopausa, o método para evitar gravidez. Entram também a história pessoal e familiar de tireoide, pâncreas e vesícula, os remédios em uso, fraturas e quedas. O roteiro de exames está em exames antes e durante o uso de GLP-1.

A bioimpedância (exame que estima gordura, músculo e água do corpo) registra a composição de partida, e a densitometria entra quando o risco de fratura indica. O plano já começa com treino de força e meta de proteína, porque é aí que se protege o que a menopausa e o emagrecimento tendem a levar juntos.

Nos retornos, o acompanhamento olha o ritmo da perda de peso, o intestino, a hidratação, a força e os sintomas da menopausa, e define com a paciente o que ajustar. No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, esse cuidado faz parte do emagrecimento com acompanhamento médico.

Perguntas frequentes

Mounjaro antecipa ou acelera a menopausa?

Não há, nos estudos publicados, sinal de que a tirzepatida antecipe a menopausa, e esse efeito não aparece entre as reações adversas da bula brasileira. Na perimenopausa, a menstruação já costuma ficar irregular pela própria fase, como explica o artigo sobre sangramento irregular na perimenopausa. Mudança no ciclo durante o tratamento deve ser contada ao médico.

Mounjaro na perimenopausa também funciona?

Na análise do SURMOUNT-1, as mulheres classificadas na perimenopausa perderam peso na mesma proporção das que estavam na pós-menopausa. Nessa fase ainda é possível engravidar: a bula brasileira orienta suspender o remédio pelo menos 1 mês antes de uma gravidez planejada e alerta que a pílula pode perder efeito no início e depois de cada aumento de dose.

Mounjaro melhora os calorões da menopausa?

Ainda não se sabe. A Mayo Clinic registrou no ClinicalTrials.gov um ensaio piloto randomizado, com 40 mulheres na pós-menopausa com obesidade, para medir o efeito da tirzepatida nos calorões e nos suores noturnos, e o estudo ainda está em andamento. As opções que já têm evidência estão em fogachos na menopausa.

Quem tem menopausa precoce pode usar Mounjaro?

Menopausa precoce não está entre as contraindicações da bula brasileira. A diretriz internacional de 2024 sobre insuficiência ovariana prematura lembra que a falta de estrogênio cedo afeta osso, coração e cognição e que a terapia hormonal reduz parte desses efeitos, o que torna o cuidado com o osso ainda mais importante durante o emagrecimento. O tema está em menopausa precoce.

Mounjaro faz cair o cabelo na menopausa?

Pode acontecer, e é mais relatado por mulheres do que por homens, segundo a bula americana. Na menopausa, a queda também pode ter causa hormonal, tireoide ou ferro, e vale investigar. Os números e o mecanismo estão em efeitos colaterais do Mounjaro.

Conclusão

Nos estudos SURMOUNT, as mulheres na pós-menopausa perderam peso na mesma faixa das mais jovens. A reposição hormonal junto foi associada a perda maior, mas só em estudos observacionais, e as sociedades não recomendam começá-la apenas para emagrecer. O ponto que mais pesa na menopausa é proteger músculo e osso enquanto o peso cai.

Por isso, a avaliação antes de começar e os retornos olham a mulher inteira, e não só a balança. O que acontece quando o remédio é suspenso está em GLP-1 e efeito rebote.

Referências

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