Saúde da Mulher

Menstruação irregular aos 40 e sangramento na perimenopausa: o que é esperado e quando investigar

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

Na perimenopausa (a transição que antecede a última menstruação), é esperado que o ciclo mude: menstruações mais próximas ou mais espaçadas, meses sem vir e fluxo diferente, porque a ovulação fica irregular. Pedem avaliação fluxo muito intenso, menstruação de mais de 7 dias, sangramento entre os ciclos ou depois da relação e sinais de anemia (queda dos glóbulos vermelhos). Sangramento após 12 meses sem menstruar sempre se investiga.

Depois dos 40, muitas mulheres ouvem duas frases opostas sobre o mesmo sangramento. Uma diz que é da idade e vai passar. A outra lembra que sangramento fora de hora pode ser sinal de doença. As duas têm parte de razão, e a dificuldade está em saber qual delas vale para cada caso.

Nessa fase, a irregularidade é frequente. No SWAN, um dos maiores estudos sobre a transição para a menopausa, 1.320 mulheres anotaram a menstruação em calendário diário, e 77,7% relataram pelo menos três menstruações de 10 dias ou mais durante a transição. Frequente, porém, não quer dizer que dispensa atenção: no mesmo estudo, esses padrões apareceram ligados também a miomas e ao uso de hormônios.

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Por que a menstruação fica irregular aos 40?

A menstruação regular depende da ovulação. Depois que o óvulo é liberado, o ovário produz progesterona, e é a queda desse hormônio no fim do ciclo que dispara a menstruação, como descreve uma revisão de 2023 sobre a classificação da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO). Quando a ovulação atrasa ou falha, esse gatilho também falha, e o sangramento passa a variar em frequência, duração e volume. O papel da progesterona nessa fase está no artigo sobre progesterona baixa na mulher.

O STRAW+10, sistema internacional que classifica as fases da transição, define a transição inicial por uma diferença persistente de 7 dias ou mais no intervalo entre ciclos seguidos, e a transição tardia por intervalos de 60 dias ou mais sem menstruar, fase em que os ciclos sem ovulação ficam mais comuns. A oscilação hormonal por trás disso é o tema do artigo sobre o que é perimenopausa.

O que costuma ser esperado na perimenopausa?

Algumas mudanças fazem parte da transição e, sozinhas, não indicam doença:

Como referência, a FIGO considera normal, na idade reprodutiva, um intervalo de 24 a 38 dias entre o início de uma menstruação e o da seguinte. A mesma revisão reconhece que, depois dos 45 anos, as falhas de ovulação são frequentes e esses limites ficam menos definidos. Por isso, o que orienta a investigação é a soma de padrão, intensidade e sinais associados, e anotar o ciclo ajuda: a classificação da FIGO usa os últimos 6 meses como base.

Quais sinais de sangramento pedem avaliação?

Alguns padrões saem do esperado e merecem consulta, mesmo sem dor:

Encharcar o absorvente a cada hora é sinal de alerta na orientação do NHS no País de Gales. Como orientação de segurança: se o sangramento vier acompanhado de tontura, desmaio, falta de ar ou coração acelerado, procure atendimento no mesmo dia.

Sangramento depois da menopausa: por que sempre se investiga?

A menopausa é confirmada depois de 12 meses seguidos sem menstruar. A partir daí, qualquer sangramento vaginal passa a se chamar sangramento pós-menopausa. O NHS pede avaliação mesmo quando aconteceu uma única vez, foi pouca quantidade, veio como mancha rosada ou marrom, não trouxe outro sintoma ou quando a mulher nem tem certeza de que era sangue.

O motivo está nos números. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no JAMA Internal Medicine, em 2018, reuniu 129 estudos e cerca de 40 mil mulheres. Entre as que tinham câncer de endométrio, 91% haviam apresentado sangramento pós-menopausa. Entre as que tinham esse sangramento, 9% tinham câncer. Ou seja, a maioria das mulheres que sangra depois da menopausa não tem câncer, mas quase todo câncer de endométrio dá esse aviso, e o NHS lembra que o câncer encontrado cedo costuma ser mais fácil de tratar.

As causas mais comuns, segundo o NHS, são benignas: afinamento e inflamação da mucosa da vagina ou do endométrio pela falta de estrogênio (atrofia), pólipos e hiperplasia do endométrio (um crescimento excessivo dessa camada). Quem faz reposição tem um padrão de sangramento próprio do esquema usado; no caso do implante com estradiol, o que precisa ser avisado está em efeitos colaterais do implante hormonal.

Quais causas precisam ser afastadas?

A FIGO organiza as causas de sangramento uterino anormal pela sigla PALM-COEIN: de um lado, as estruturais, como pólipo, adenomiose (tecido do endométrio crescendo dentro do músculo do útero), mioma e lesões malignas ou pré-malignas; de outro, as não estruturais, como distúrbios da coagulação, falhas de ovulação e efeito de remédios. Na perimenopausa, a checagem costuma incluir:

Quais exames investigam o sangramento?

Os exames dependem da história de cada mulher:

Para investigar fluxo intenso, o NICE recomenda não dosar hormônios femininos. A revisão da FIGO resume o raciocínio com um exemplo: a mesma queixa que, numa jovem de 19 anos, pede exames de sangue, numa mulher de 49 anos pode exigir imagem do útero e biópsia do endométrio.

E depois da menopausa?

Aqui a orientação mudou em 2026. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) revisou seu documento de 2018 e passou a recomendar, para a maioria das mulheres com sangramento pós-menopausa, ultrassom transvaginal e biópsia do endométrio juntos já na primeira avaliação. Antes, um endométrio de até 4 milímetros no ultrassom permitia dispensar a biópsia. Agora o ultrassom sozinho fica para casos selecionados: episódio único de sangramento, endométrio bem visualizado com até 4 milímetros, ausência de fatores de risco fortes para câncer e acesso garantido a acompanhamento médico rápido caso o sangramento volte. Se o sangramento continua ou volta, a investigação é retomada, qualquer que seja a espessura.

Ainda preciso de anticoncepcional na perimenopausa?

Sim, e por um tempo depois da última menstruação. Ciclos irregulares ainda podem ter ovulação, e a gravidez continua possível nessa fase. O NHS orienta manter a anticoncepção por 2 anos depois da última menstruação quando ela acontece entre os 40 e os 49 anos, e por 1 ano quando acontece aos 50 ou mais.

Dois cuidados práticos, também do NHS. A reposição hormonal não funciona como anticoncepcional. E os anticoncepcionais hormonais podem deixar a menstruação irregular ou suspendê-la, o que dificulta perceber a chegada da menopausa e pede uma conversa sobre quando e como trocar de método.

Como é feita a avaliação na consulta?

Na consulta, no consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, o sangramento é avaliado junto com o restante da saúde hormonal e metabólica da mulher nessa fase:

Perguntas frequentes

Menstruação duas vezes no mês aos 40 pode ser perimenopausa?

Pode. No começo da transição, o intervalo entre as menstruações passa a variar, e a menstruação pode vir antes do esperado. Vale avaliar quando isso se repete por vários meses, quando o intervalo fica abaixo de 24 dias, quando o fluxo é intenso ou quando o sangramento aparece no meio do ciclo, fora da menstruação. Se há chance de gravidez, o teste entra primeiro.

A menstruação voltou depois de meses sem vir. É normal?

Depende do tempo. Se a pausa foi menor que 12 meses, a mulher ainda está na transição, e a volta do sangramento pode fazer parte dela, desde que não venha com sinais de alerta, como fluxo muito intenso ou duração longa. Se a pausa passou de 12 meses, é sangramento pós-menopausa e deve ser avaliado, mesmo que seja pouco e mesmo que pareça uma menstruação comum.

Sangramento marrom na perimenopausa é normal?

Na transição, os dias de escape, com sangramento pequeno que muitas vezes sai marrom, são frequentes, como mostrou o SWAN. O que muda a leitura é o momento: se aparece repetidamente entre os ciclos, depois da relação ou depois de 12 meses sem menstruar, precisa de avaliação. Depois da menopausa, o NHS inclui a mancha marrom ou rosada entre os sangramentos que precisam ser checados.

Pólipo no endométrio é câncer?

Na maioria das vezes, não. O NHS descreve os pólipos como crescimentos em geral benignos. Eles importam porque podem causar sangramento entre os ciclos ou depois da menopausa e porque só a análise do tecido confirma do que se trata. Conforme os sintomas, a idade e o tamanho, o ginecologista pode indicar a retirada, com análise do material.

Endométrio espessado no ultrassom é sinal de câncer?

Não por si só. O espessamento pode corresponder a hiperplasia, a pólipo ou, menos vezes, a câncer. O ultrassom mostra a medida, mas quem diz o que é o tecido é a biópsia. Depois da menopausa, mesmo um endométrio fino não encerra a investigação quando o sangramento continua ou volta, segundo a orientação do ACOG de 2026.

Conclusão

Na perimenopausa, a menstruação muda porque a ovulação fica irregular, e boa parte dessas mudanças é esperada. O que pede investigação são sinais concretos: fluxo muito intenso, sangramento que passa de 7 dias, sangramento entre os ciclos ou depois da relação, sinais de anemia e qualquer sangramento depois de 12 meses sem menstruar. Na maioria das vezes a causa é benigna, e é a avaliação que permite saber.

Anotar o ciclo, manter a anticoncepção enquanto ela é necessária e procurar avaliação diante dos sinais de alerta são os passos que mais ajudam. Os outros temas da transição estão no guia de menopausa e climatério.

Referências

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  3. Jain V, Munro MG, Critchley HOD. Contemporary evaluation of women and girls with abnormal uterine bleeding: FIGO Systems 1 and 2. Int J Gynaecol Obstet. 2023;162 Suppl 2:29-42. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10952771/
  4. Clarke MA, Long BJ, Del Mar Morillo A, et al. Association of Endometrial Cancer Risk With Postmenopausal Bleeding in Women: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Intern Med. 2018;178(9):1210-1222. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30083701/
  5. American College of Obstetricians and Gynecologists. Updated Guidance Regarding the Role of Transvaginal Ultrasonography in Evaluating the Endometrium of Individuals With Postmenopausal Bleeding (Clinical Practice Update). Obstet Gynecol. 2026;148(1):e87-e91. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41990335/
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  7. Benetti-Pinto CL, Rosa-E-Silva ACJS, Yela DA, Soares Júnior JM. Abnormal Uterine Bleeding. Rev Bras Ginecol Obstet. 2017;39(7):358-368. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO.) https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10416181/
  8. NHS. Menopause and perimenopause: symptoms (bleeding before and after menopause; contraception). Revisado em maio de 2026. https://www.nhs.uk/conditions/menopause/symptoms/
  9. NHS. Postmenopausal bleeding. Revisado em setembro de 2026. https://www.nhs.uk/conditions/post-menopausal-bleeding/
  10. NHS. Heavy periods. Revisado em setembro de 2024. https://www.nhs.uk/conditions/heavy-periods/
  11. NHS. Irregular periods. Revisado em junho de 2026. https://www.nhs.uk/conditions/irregular-periods/
  12. NHS Wales (Aneurin Bevan University Health Board). Menstrual health: when to seek medical advice. https://abuhb.nhs.wales/hospitals/a-z-of-services/gynaecology/menstrual-health/when-to-seek-medical-advice/
  13. NHS. Menopause and perimenopause: things you can do (HRT is not contraception). Revisado em maio de 2026. https://www.nhs.uk/conditions/menopause/things-you-can-do/

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