Saúde da Mulher

Exame para saber se está na menopausa: quando o FSH ajuda, por que o antimülleriano não confirma e o que o teste de farmácia mede

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

Depois dos 45 anos, com sintomas típicos, não é preciso exame: as diretrizes reconhecem a menopausa pela história clínica e a confirmam após 12 meses sem menstruar, sem anticoncepcional hormonal. O FSH (hormônio que estimula os ovários) tem lugar em situações específicas, como sintomas entre 40 e 45 anos, suspeita antes dos 40 ou ciclo impossível de avaliar. O antimülleriano (marcador da reserva dos ovários) e o teste de farmácia não confirmam a menopausa.

A dúvida costuma chegar entre os 45 e os 50 anos. O ciclo mudou de ritmo, o calor aparece de madrugada, o sono ficou picado, e a pergunta é direta: qual exame mostra se eu já entrei na menopausa? Há teste de menopausa na farmácia, o FSH é feito em qualquer laboratório, e muita gente já ouviu falar do hormônio antimülleriano como medida da reserva dos ovários.

Depois dos 45 anos, com sintomas típicos, as principais diretrizes dispensam exame de sangue para o diagnóstico. O exame tem lugar em situações bem definidas, e fora delas costuma trazer números difíceis de interpretar.

Aqui eu explico quando o FSH ajuda, por que o antimülleriano e a inibina (outro hormônio do ovário) não confirmam a menopausa e o que o teste de farmácia mede.

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Existe exame para saber se estou na menopausa?

Na maioria dos casos, não. O NICE, instituto que publica as diretrizes do sistema público de saúde do Reino Unido, orienta reconhecer a perimenopausa e a menopausa sem exames de laboratório em mulheres saudáveis com 45 anos ou mais que têm sintomas. Fogachos (ondas de calor) que começaram há pouco, somados a qualquer mudança no ciclo, indicam perimenopausa, a fase de transição. Pelo menos 12 meses sem menstruar, sem uso de anticoncepcional hormonal, indicam menopausa.

A Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, de 2024, feita em conjunto pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, pela FEBRASGO e pela Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC), com participação internacional da SIAC, segue a mesma linha: depois dos 45 anos, com fogachos e ciclos mais espaçados, o diagnóstico é clínico e não precisa de confirmação por outros exames. A Endocrine Society, sociedade americana de endocrinologia, sugere em sua diretriz de 2015 o diagnóstico pelos critérios do ciclo menstrual.

Por isso a data da menopausa só é conhecida depois que ela passou, ao completar 12 meses sem menstruação. A diferença entre essa data e a fase que vem antes está no artigo sobre climatério e menopausa.

Quando o exame de FSH ajuda?

O FSH, hormônio folículo-estimulante, é produzido pela hipófise (glândula na base do cérebro) e sobe quando os ovários passam a responder menos. É o exame com papel mais claro no diagnóstico, nas situações certas:

Por que um FSH de um dia só pode enganar?

Na transição, o FSH não sobe em linha reta. A diretriz brasileira observa que as concentrações diárias podem variar de maneira considerável nessa fase. Quando há dúvida se os sintomas vêm mesmo da queda dos hormônios do ovário, ela considera útil o FSH colhido no começo do ciclo e recomenda, quando necessário, duas dosagens com 4 a 6 semanas de intervalo.

A Endocrine Society acrescenta que a diferença entre o fim da perimenopausa, quando já há períodos de mais de 60 dias sem menstruar, e o começo da pós-menopausa não pode ser feita apenas pela dosagem de hormônios. O exame mostra que o ovário está mudando, mas não marca o ponto exato da linha do tempo.

O estradiol oscila ainda mais nessa fase, como explico no artigo sobre perimenopausa. Por isso, um exame dentro da referência não descarta a transição, e um exame alterado não fecha o diagnóstico sozinho.

Anticoncepcional e outros hormônios atrapalham o exame?

Sim, de duas formas. A primeira é o sangramento: no NICE, o critério dos 12 meses sem menstruar vale só para quem não usa anticoncepcional hormonal, e a mesma diretriz reconhece que identificar a menopausa é difícil em quem usa hormônios para tratar sangramento menstrual intenso.

A segunda é o próprio FSH. O anticoncepcional combinado, como a pílula com estrogênio e progestagênio (hormônio da família da progesterona), mantém o FSH suprimido até na semana de pausa, segundo a diretriz brasileira, e o NICE recomenda não usar o exame nessa situação nem com progestagênio em dose alta. A injeção trimestral e o implante anticoncepcional, que só têm progestagênio, também podem baixar o FSH. E o combinado deixa os fogachos menos frequentes, o que esconde outro sinal da transição.

Quando a dosagem é mesmo necessária em quem usa anticoncepcional, o preparo da coleta é orientado pelo médico e está descrito em exame hormonal e anticoncepcional. O DIU hormonal tem resposta própria nas perguntas frequentes, no fim do texto.

Hormônio antimülleriano e inibina mostram se estou na menopausa?

Depois dos 45 anos, não servem para esse diagnóstico. O hormônio antimülleriano, conhecido pela sigla AMH, e a inibina B são produzidos pelos folículos do ovário e caem à medida que a reserva de óvulos diminui. Mesmo assim, o NICE recomenda não usar antimülleriano, inibina A, inibina B nem estradiol para identificar a perimenopausa ou a menopausa a partir dessa idade.

A Endocrine Society resume o motivo em três pontos. Na mulher com útero, esses exames não acrescentam ao diagnóstico, não marcam com precisão a data da última menstruação e não mudam o tratamento. A exceção é a mulher que ainda quer engravidar.

O antimülleriano é estudado como pista do tempo que falta. Um estudo do SWAN, grande acompanhamento de mulheres americanas na transição para a menopausa, publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism em 2020, com 1.537 mulheres de idade média 47,5 anos, observou que ele estimou melhor que o FSH quando viria a última menstruação. O resultado, porém, é uma probabilidade: com o antimülleriano muito baixo, a chance de a última menstruação acontecer nos 12 meses seguintes foi de cerca de metade nas mulheres com menos de 48 anos e de perto de quatro em cada cinco nas de 51 anos ou mais. As diretrizes citadas acima não usam esse exame para diagnosticar a menopausa.

Antes dos 40 anos, o papel muda. A diretriz europeia de 2024 sobre insuficiência ovariana prematura diz que o antimülleriano não deve ser o exame principal do diagnóstico, mas pode ajudar a confirmá-lo quando o FSH deixa dúvida.

Teste de farmácia para menopausa funciona?

O teste vendido em farmácia mede o FSH na urina. A FDA, agência que regula produtos de saúde nos Estados Unidos, explica que é um teste qualitativo: ele mostra se o FSH está elevado; se a mulher está de fato na menopausa ou na perimenopausa, o teste não diz. Segundo a agência, esses testes detectam corretamente o FSH em cerca de 9 de cada 10 vezes, e o resultado muda conforme o uso da primeira urina da manhã, a quantidade de água bebida antes e o uso recente de anticoncepcional em comprimido ou adesivo, reposição hormonal ou estrogênio.

A leitura pede cuidado nos dois sentidos. Positivo indica que a mulher pode estar em alguma fase da menopausa, e a orientação da FDA é procurar o médico. Negativo, com sintomas, não descarta a transição. A agência também alerta para não parar o anticoncepcional com base no resultado: enquanto os hormônios oscilam, os ovários ainda liberam óvulos e a gravidez continua possível.

A FDA registra ainda que alguns testes caseiros são idênticos ao que o médico usa, mas que o médico não usaria esse teste sozinho. E, depois dos 45 anos com sintomas típicos, as diretrizes dispensam até o FSH no sangue.

O que o exame de menopausa não diz?

Mesmo quando é pedido, o FSH responde a uma pergunta só: se a função dos ovários está caindo. Ele não diz se a mulher precisa de tratamento, qual tratamento faz sentido nem se existe alguma condição que impeça um deles.

A decisão sobre reposição hormonal parte dos sintomas e do quanto eles pesam no dia a dia, do histórico pessoal e familiar e dos benefícios e riscos de cada opção, que o NICE orienta discutir com cada mulher. As situações em que a reposição não é indicada estão no artigo sobre quem não pode fazer reposição hormonal.

O exame também não substitui a busca por outras causas. Quando o ciclo fica irregular antes dos 45 anos, a diretriz brasileira manda investigar gravidez, alterações da tireoide e excesso de prolactina (hormônio da hipófise que, em excesso, desregula o ciclo). Nesses casos, o pedido costuma incluir teste de gravidez, TSH (exame da tireoide) e prolactina.

Como é feita a avaliação na consulta?

Na consulta, a investigação começa pela conversa, porque é nela que estão os critérios que as diretrizes usam:

A bioimpedância, que estima massa muscular e gordura, fica fora do diagnóstico da menopausa e entra na avaliação de como o corpo está atravessando essa fase, junto com os exames metabólicos. No consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo, a avaliação junta essas peças. O caminho completo está no guia de menopausa e climatério.

Perguntas frequentes

Qual valor de FSH indica menopausa?

Nenhum valor fecha o diagnóstico sozinho. A diretriz brasileira descreve que FSH acima de 25 mUI/mL pode indicar o início da transição e que a pós-menopausa costuma mostrar FSH acima de 30 mUI/mL com estradiol abaixo de 30 pg/mL. Como o FSH varia muito de um dia para outro nessa fase, o número é lido junto com a idade, o ciclo e os sintomas, e o laudo traz a faixa de referência do próprio laboratório.

Em que dia do ciclo o exame de FSH deve ser colhido?

Quando ainda há menstruação, a diretriz brasileira orienta colher o FSH na fase folicular inicial, que são os primeiros dias do ciclo, contados a partir do dia em que a menstruação desce. Quando necessário, a coleta é repetida 4 a 6 semanas depois. Na suspeita de insuficiência ovariana prematura, antes dos 40 anos, a diretriz europeia de 2024 dispensa um dia específico do ciclo.

Ultrassom transvaginal mostra se estou na menopausa?

Para o diagnóstico, não. O NICE recomenda não usar a contagem de folículos nem o volume dos ovários no ultrassom para identificar a perimenopausa ou a menopausa a partir dos 45 anos. O ultrassom tem outro papel: quando o sangramento foge do padrão da transição, como sangramento muito frequente, volumoso ou com coágulos, a diretriz brasileira orienta investigar o endométrio, a camada interna do útero, com ultrassom, biópsia ou ambos.

Uso DIU hormonal. Como saber se entrei na menopausa?

O DIU hormonal é um método só de progestagênio, e a diretriz brasileira observa que a maioria das usuárias desses métodos tem sangramento alterado ou ausente, o que dificulta saber a fase pelo sangramento. Nesses métodos, a mesma diretriz admite dosar o FSH quando necessário, e valores acima de 25 mUI/mL são atribuídos ao declínio da função dos ovários. A injeção trimestral e o implante anticoncepcional, ao contrário, podem baixar o FSH.

A menstruação atrasou depois dos 40. É menopausa ou gravidez?

Pode ser qualquer uma das duas, e o primeiro exame é o de gravidez. Na transição, os ovários ainda liberam óvulos em alguns ciclos, e a FDA lembra que a gravidez continua possível enquanto os hormônios oscilam. Por isso a diretriz brasileira põe a gravidez entre as causas a afastar quando o ciclo fica irregular antes dos 45 anos, ao lado das alterações da tireoide e do excesso de prolactina.

Conclusão

Depois dos 45 anos, com fogachos e ciclo mudando, a menopausa se reconhece pela história, e a data se confirma com 12 meses sem menstruar. O FSH ajuda entre os 40 e os 45 anos, antes dos 40, em quem não tem ciclo para observar e quando há dúvida sobre a origem dos sintomas. Antimülleriano, inibina e teste de farmácia não fecham o diagnóstico.

Leve para a consulta a data da última menstruação, a lista de remédios e métodos hormonais que você usa e os exames que já fez. É a partir dessa história que se decide se algum exame ainda falta.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Menopause: identification and management (NG23). Publicada em 12 de novembro de 2015, atualizada em 15 de abril de 2026. Recomendações 1.3.1 a 1.3.6 e 1.7.2 a 1.7.4. https://www.nice.org.uk/guidance/ng23/chapter/Recommendations
  2. Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. Seção 2.3, Diagnóstico Clínico e Laboratorial. https://doi.org/10.36660/abc.20240478
  3. Stuenkel CA, Davis SR, Gompel A, et al. Treatment of Symptoms of the Menopause: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2015;100(11):3975-4011. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26444994/
  4. Finkelstein JS, Lee H, Karlamangla A, et al. Antimullerian Hormone and Impending Menopause in Late Reproductive Age: The Study of Women's Health Across the Nation. J Clin Endocrinol Metab. 2020;105(4):dgz283. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31965189/
  5. ESHRE, ASRM, CRE WHIRL e IMS Guideline Group on POI; Panay N, Anderson RA, Bennie A, et al. Evidence-based guideline: premature ovarian insufficiency. Hum Reprod Open. 2024;2024(4):hoae065. https://doi.org/10.1093/hropen/hoae065
  6. U.S. Food and Drug Administration (FDA). Home Use Tests: Menopause. Conteúdo vigente desde 27 de setembro de 2018. https://www.fda.gov/medical-devices/home-use-tests/menopause

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Dr. Rodrigo Neves

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