Saúde da Mulher

Tontura, coceira, dor de cabeça e outros sintomas estranhos da menopausa: o que tem relação com os hormônios e quando procurar avaliação

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

Sim, a menopausa pode vir acompanhada de tontura, coceira e formigamento na pele, dor de cabeça, palpitação (perceber o coração batendo forte ou acelerado), dor nas articulações e ardência na boca. Esses sintomas são comuns na meia-idade, mas a força da ligação com a queda do estrogênio varia de um para outro, e todos têm outras causas possíveis, que a avaliação médica precisa descartar.

Quando se fala em menopausa, quase todo mundo pensa no fogacho e na menstruação que vai embora. Pouca gente espera sentir o quarto girar ao virar na cama, uma coceira sem motivo no braço, a língua queimando ou o coração disparando no meio da tarde.

Esses sintomas existem e aparecem nos grandes levantamentos sobre a saúde da mulher na meia-idade. Mas cada um tem outras causas possíveis, e a evidência que o liga à menopausa varia. A seguir, sintoma por sintoma: o que a ciência relaciona à queda hormonal, o que mais pode estar por trás e quais sinais pedem avaliação logo.

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Quais são os sintomas menos conhecidos da menopausa?

Uma meta-análise (estudo que junta os resultados de muitas pesquisas) publicada em 2024 na revista BMC Public Health reuniu 321 estudos, com 482.067 mulheres de meia-idade, e calculou a frequência de 19 sintomas ligados à menopausa. O desconforto nas articulações e nos músculos foi o mais relatado de todos, em cerca de 65% das mulheres, à frente até dos fogachos. A dor de cabeça apareceu em cerca de 44%, o desconforto no coração em cerca de 42% e a formicação, a sensação de bichinhos andando sobre a pele, em 20,5%.

Ser frequente nessa idade não prova que a menopausa seja a causa, mas o mesmo estudo observou que, com exceção da dor de cabeça, essas queixas físicas foram mais frequentes na perimenopausa (os anos de transição antes da última menstruação) e na pós-menopausa (os anos depois da última menstruação) do que antes delas, o que sugere participação da mudança hormonal. Faz sentido: o estrogênio age por receptores espalhados pelo corpo, inclusive nas articulações, nos músculos, na pele, na boca e no ouvido interno.

Os sintomas mais conhecidos têm artigos próprios: fogachos, insônia, ansiedade e humor, névoa mental e memória e ressecamento vaginal e sintomas urinários. O panorama geral está em sintomas da menopausa e quando procurar avaliação.

Menopausa dá tontura?

Pode dar. Uma revisão brasileira de 2026 no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology relata que até 50% a 60% das mulheres no climatério (a transição da fase reprodutiva para a não reprodutiva) referem tontura em grandes levantamentos populacionais. Há base teórica para a ligação, porque o estradiol (a principal forma do estrogênio) participa do funcionamento do labirinto, a parte do ouvido interno que cuida do equilíbrio, mas os estudos clínicos sobre o tema ainda são escassos.

Um tipo chama atenção nessa fase: a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), a sensação de que tudo gira ao mudar a posição da cabeça, como ao deitar ou virar na cama, causada por pequenos cristais do ouvido interno que se soltam do lugar. A mesma revisão aponta que mulheres na transição da menopausa são particularmente propensas a ela. Já o papel da reposição hormonal é incerto: um estudo publicado em 2026 na revista Maturitas, com dados de cerca de 157 mil mulheres na pós-menopausa do banco britânico UK Biobank, observou um pouco mais de VPPB entre as que usavam ou tinham usado reposição, e os próprios autores dizem que o achado não justifica mudar o tratamento de ninguém.

Outras causas entram na conversa: queda da pressão ao levantar rápido, desidratação, açúcar baixo em quem trata diabetes, anemia por falta de ferro, enxaqueca, ansiedade, labirintite (inflamação do ouvido interno) e remédio recém-iniciado. Procure avaliação se a tontura não passa ou volta com frequência, ou se vem com zumbido, dificuldade para ouvir, visão dupla ou desmaio.

Menopausa dá coceira e formigamento na pele?

A coceira é frequente depois da menopausa e costuma vir com a pele seca. Uma revisão britânica de 2022 levanta uma explicação: como o tratamento com estrogênio reduz a perda de água pela pele, é possível que a falta do hormônio aumente essa perda e deixe a barreira da pele mais frágil. O afinamento da pele e a perda de colágeno estão explicados em menopausa, pele e cabelo.

A formicação, relatada por uma em cada cinco mulheres na meta-análise de 2024, foi o menos frequente dos 19 sintomas, mas não é rara. Coceira e formigamento, porém, têm outras causas. A coceira pode vir de alergia, eczema, micose ou sarna e, com menos frequência, de problemas na tireoide, no fígado ou nos rins. O formigamento pode estar ligado a diabetes, alimentação pobre em nutrientes, excesso de álcool, nervo comprimido nas costas ou no pescoço e efeito de remédio.

Pedem consulta a coceira no corpo todo, intensa ou que não melhora com os cuidados com a pele, e o formigamento constante ou que volta sempre. Na coceira simples, ajudam banho morno e mais curto, hidratante e sabonete sem perfume e unhas curtas.

Dor de cabeça na menopausa é normal?

É comum, mas a relação com a menopausa é mais sutil. Na meta-análise de 2024, a dor de cabeça foi a única queixa física que não apareceu com mais frequência depois da transição do que antes dela. A enxaqueca é outra história: estudos de comunidade mostram que ela fica mais comum ao longo da perimenopausa, quando os hormônios sobem e descem de forma irregular, e diminui na pós-menopausa. Num estudo de 2016 na revista Headache, com 3.664 mulheres com enxaqueca, a dor em 10 ou mais dias por mês passou de 8,0% na pré-menopausa para 12,2% na perimenopausa.

Quem tem enxaqueca com aura (alterações visuais ou de sensibilidade que antecedem a dor) precisa levar esse histórico para a escolha da via de uma eventual reposição hormonal, como expliquei em quem não pode fazer reposição hormonal. O uso frequente de analgésico, que pode manter a própria dor, também entra na avaliação, assim como a pressão arterial (veja pressão alta na menopausa).

Uma revisão de 2019 na revista Neurology reuniu os sinais de alerta da dor de cabeça na lista SNNOOP10: dor de início súbito; dor nova ou que mudou de padrão; dor com febre ou alteração neurológica; dor que piora com tosse, espirro ou esforço, ou que muda com a posição do corpo; dor que vai piorando com o tempo; e dor depois de uma pancada na cabeça.

Palpitação na menopausa é perigosa?

Na maioria das vezes, não. O SWAN, grande estudo americano sobre a transição da menopausa, analisou 3.276 mulheres: 15,9% tiveram alta probabilidade de palpitações e 34,3% probabilidade moderada, concentradas da perimenopausa ao início da pós-menopausa e em queda depois. As mulheres com mais palpitações tinham mais fogachos, estresse, sintomas depressivos, sono pior e pressão mais alta, e as palpitações não se associaram a sinais de aterosclerose (acúmulo de placas) na carótida (artéria do pescoço) nem a rigidez das artérias.

Ainda assim, há outras causas a checar: cafeína, álcool, nicotina, ansiedade, sono ruim, alguns remédios, anemia por falta de ferro, tireoide acelerada (hipertireoidismo) e arritmias, que são alterações do ritmo do coração. Marque consulta se a palpitação volta com frequência, dura mais do que alguns minutos ou se já existe doença do coração ou histórico na família. O risco cardiovascular depois da menopausa é outro assunto, explicado em menopausa e coração.

Menopausa causa dor nas articulações?

Pode causar, e é o sintoma físico mais relatado na meia-idade feminina, ligado pelo serviço de saúde britânico (NHS) à queda do estrogênio. O teste mais rigoroso veio do WHI, grande estudo americano em que 10.739 mulheres na pós-menopausa, todas já operadas para retirada do útero, receberam estrogênio ou placebo (comprimido sem efeito). Depois de um ano, a dor nas articulações foi um pouco menos frequente com o estrogênio: 76,3% contra 79,2%. Os autores chamaram o efeito de modesto, e o inchaço nas articulações foi um pouco mais frequente nesse grupo.

Outras causas são comuns nessa idade: artrose (desgaste da cartilagem, em geral depois dos 45 anos, com dor que piora ao andar), artrite reumatoide (dor e rigidez dos dois lados do corpo, piores ao acordar), bursite e gota. Procure consulta se a dor atrapalha o sono ou a rotina, piora ou volta sempre, não melhora em duas semanas, ou se as articulações ficam rígidas por mais de 30 minutos depois de acordar.

Menopausa causa ardência na boca?

A queimação na língua, no céu da boca ou nos lábios, sem alteração visível ou de exame que explique, tem nome: síndrome da boca ardente. É pouco comum, mais frequente em mulheres e aumenta com a idade. Uma revisão de 22 estudos publicada em 2026 na revista BMC Oral Health a descreve como predominante na pós-menopausa e encontrou associação consistente com menopausa, hipotireoidismo (tireoide lenta) e uso contínuo de medicamentos, mas concluiu que nenhum fator isolado explica a síndrome.

Outra revisão, de 2022, relata que um estudo pequeno observou melhora da boca seca com a reposição hormonal, mas não da queimação, e que os sintomas desaparecem sozinhos em cerca de metade das pessoas. Antes de culpar a menopausa, é preciso descartar a candidíase oral (o sapinho, infecção por fungo) e rever tireoide e remédios. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), ferida na boca ou nos lábios que não cicatriza em mais de 15 dias e manchas vermelhas ou esbranquiçadas precisam ser examinadas por um profissional de saúde.

Quais sinais pedem atendimento imediato?

Alguns sinais pedem atendimento na hora, pelo SAMU (192) ou no pronto-socorro:

Pedem avaliação no mesmo dia uma articulação quente e inchada e a dor articular com febre ou calafrio.

Como é feita a avaliação desses sintomas?

A avaliação começa por uma conversa detalhada: quando o sintoma começou, se tem relação com o ciclo ou com os fogachos, quais remédios estão em uso, consumo de café e álcool e qualidade do sono. O exame físico inclui pressão arterial, pulso, pele, boca e articulações e, quando há tontura ou formigamento, um exame neurológico simples. Os exames são escolhidos pelas queixas, como hemograma quando há suspeita de anemia, tireoide, glicemia, fígado e rins na coceira do corpo todo e eletrocardiograma na palpitação.

Quando esses sintomas fazem parte de um quadro de menopausa, a reposição hormonal pode entrar na conversa, pesando indicação, contraindicações e a preferência da paciente. O efeito varia: benefício pequeno na dor articular e evidência conflitante ou fraca para tontura e boca ardente. Por isso a decisão considera o quadro inteiro, e não um sintoma isolado, como detalhado no guia de reposição hormonal feminina.

Quando necessário, o cuidado envolve otorrinolaringologista, neurologista, cardiologista, reumatologista ou dentista. No consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo, o objetivo é separar o que é hormonal do que tem outra causa e acompanhar a evolução de cada sintoma.

Perguntas frequentes

Menopausa dá tontura e enjoo?

Pode, mas não é a única explicação. A tontura é frequente no climatério, e a tontura com enjoo também aparece na labirintite (inflamação do ouvido interno). Se vier com fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, fala alterada ou dor de cabeça súbita e intensa, ligue para o SAMU, no 192.

Menopausa dá coceira no corpo todo?

A coceira é comum depois da menopausa, muitas vezes com pele seca, e costuma melhorar com o tempo. Banho morno e curto e hidratante sem perfume ajudam. Coceira no corpo todo, intensa ou que não melhora com esses cuidados merece consulta, porque, com menos frequência, pode ser sinal de problema na tireoide, no fígado ou nos rins.

Formigamento nas mãos pode ser da menopausa?

Às vezes, mas é um dos sintomas em que mais vale procurar outra causa: diabetes, alimentação pobre em nutrientes, excesso de álcool, nervo comprimido e efeito de remédio. Formigamento constante ou que volta sempre merece avaliação. Se surgir de repente em um lado do corpo, é urgência.

Esses sintomas da menopausa passam sozinhos?

Muitos diminuem com o tempo. No estudo SWAN, as palpitações caíram depois do início da pós-menopausa. A coceira ligada à menopausa costuma melhorar com os anos, a enxaqueca tende a diminuir na pós-menopausa e a ardência na boca desaparece sozinha em cerca de metade das pessoas. Sintoma que atrapalha a rotina, porém, merece avaliação sem esperar.

A reposição hormonal melhora tontura, coceira e dor nas articulações?

Depende do sintoma. No estudo WHI, o estrogênio reduziu de forma modesta a frequência de dor nas articulações. Para a coceira com pele seca, uma revisão de 2022 cita a reposição entre as medidas, ao lado dos cuidados com a pele. Para a tontura posicional, os estudos são conflitantes. A decisão leva em conta o quadro completo da menopausa, com indicação e contraindicações.

Conclusão

Esses sintomas menos conhecidos podem fazer parte da menopausa, mas a força da ligação com o estrogênio muda de um sintoma para outro: os dados são mais consistentes para a dor articular e as palpitações da transição, ainda discutidos para a tontura e incertos para a boca ardente.

O caminho mais seguro é não ignorar esses sintomas nem atribuir tudo aos hormônios: contar ao médico todas as queixas, mesmo as que parecem estranhas, e investigar as outras causas.

Referências

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