Saúde da Mulher

Pressão alta na menopausa: por que a pressão sobe, como medir direito e o que muda na reposição hormonal

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

Sim, a pressão tende a subir na transição da menopausa, mas só uma parte disso vem do hormônio. Num estudo italiano com mais de 18 mil mulheres, a diferença ligada à menopausa, descontados idade e peso, ficou perto de 2 mmHg (milímetros de mercúrio). O resto acompanha idade, peso, sal e sono. A diretriz brasileira de 2025 fixa a meta abaixo de 13 por 8 (130/80 mmHg) para quem tem hipertensão.

Durante anos a pressão ficou em 11 por 7 e nunca foi assunto. Perto dos 50, o número começa a aparecer mais alto no aparelho da farmácia ou na consulta de rotina, na mesma época em que o ciclo começa a falhar.

A menopausa tem parte nisso, mas a explicação tem camadas. Nessa época a idade avança, o peso muda, o sono piora e, em parte das mulheres, o anticoncepcional segue em uso. Os estudos que acompanharam as mesmas mulheres por anos ajudam a separar o que vem do hormônio, e essa separação muda o que fazer.

Aqui explico esses estudos, como medir sem cair no efeito do avental branco, as metas da diretriz de 2025 e o que muda na reposição hormonal.

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A menopausa aumenta a pressão arterial?

A pressão alta fica mais comum nas mulheres com o passar dos anos. Pela Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, da Sociedade Brasileira de Cardiologia com as sociedades brasileiras de hipertensão e de nefrologia, a hipertensão atinge 68,0% das mulheres a partir dos 65 anos, contra 61,5% dos homens, e a menopausa está entre os fatores de risco próprios da mulher.

Quanto disso vem do hormônio? O estudo SIMONA, publicado no Journal of Hypertension em 2005, mediu a pressão de 18.326 italianas de 46 a 59 anos. Descontados idade, peso, cigarro e uso de hormônios, a menopausa ficou associada a uma pressão cerca de 2 mmHg (milímetros de mercúrio) mais alta, e só entre os 46 e os 49 anos.

O SWAN (Study of Women's Health Across the Nation), que acompanha mulheres americanas desde antes da última menstruação, completou o quadro. Em 2009, com 1.054 mulheres, o colesterol deu um salto no ano em torno da última menstruação, enquanto a pressão subiu em linha reta, no ritmo da idade. Em 2022, com 3.302 mulheres, apareceu um grupo, cerca de um terço delas, em que a sistólica (a máxima, o primeiro número) acelerou a partir de 1 ano depois da menopausa.

Na maioria das mulheres, portanto, a subida acompanha a idade; em uma parte, a menopausa acrescenta um empurrão próprio. Como não dá para saber de antemão quem é quem, os autores do SWAN recomendam medir a pressão com frequência durante a transição. O efeito no coração como um todo está no artigo sobre menopausa e risco cardiovascular.

Por que a pressão sobe na menopausa: hormônio, peso, sono e sal

A parte hormonal tem mecanismo conhecido. As diretrizes brasileiras de 2024 e 2025 descrevem que a queda do estradiol mexe no sistema renina-angiotensina-aldosterona (hormônios que regulam sal, água e o calibre dos vasos), reduz o óxido nítrico (que relaxa as artérias), aumenta a endotelina (que as contrai) e ativa o sistema nervoso simpático, o do estado de alerta. Com o tempo, a aorta enrijece, o que ajuda a explicar a hipertensão em que só a sistólica fica alta.

O peso vem em seguida. A diretriz de 2024 registra que, no SWAN e no WHI (Women's Health Initiative, o grande estudo americano sobre reposição hormonal), o ganho de índice de massa corporal nessa fase parece mais ligado à idade, enquanto a falta de estrogênio leva a gordura para a barriga.

O sono é a peça menos lembrada. A apneia obstrutiva do sono (paradas repetidas da respiração à noite) ativa o simpático, aumenta o cortisol e mantém inflamação, segundo a diretriz de 2025, que a inclui entre as causas de hipertensão a investigar e a descreve como mais frequente em homens e em mulheres depois da menopausa. Como a apneia é investigada, com a polissonografia (o exame do sono), está no artigo sobre apneia do sono.

Por fim, sal e pílula. A diretriz de 2025 observa que a hipertensão na pós-menopausa tende a ser sensível ao sal. E, na perimenopausa (os anos de transição antes da última menstruação), muitas mulheres ainda usam pílula combinada. Na seção sobre mulheres jovens e anticoncepcionais, a mesma diretriz cita uma metanálise de 24 estudos em que o risco de hipertensão foi 47% maior entre as usuárias de mais tempo e cresceu 13% a cada cinco anos de uso, e recomenda medir a pressão antes de começar a pílula combinada e, depois do início, a cada 6 meses, cuidado que vale também para quem ainda a usa na perimenopausa.

Como medir a pressão do jeito certo: consultório, MAPA e MRPA

A diretriz de 2025 pede técnica: sentada há pelo menos 5 minutos, costas apoiadas, pernas descruzadas, bexiga vazia e sem falar; sem cigarro, comida ou cafeína nos 30 minutos anteriores; braço apoiado na altura do coração e manguito (a braçadeira) do tamanho certo. São três medidas com 1 minuto de intervalo, valendo a média das duas últimas. Salvo pressão muito alta ou lesão já instalada nos órgãos, o diagnóstico pede medidas repetidas em visitas diferentes ou a medida fora do consultório, por dois exames:

Medir fora do consultório revela dois fenômenos. Na hipertensão do avental branco, a pressão fica em 140/90 ou mais no consultório e abaixo de 130/80 fora dele; ela aparece em 7% a 15% das pessoas sem tratamento. Na hipertensão mascarada, o contrário: normal no consultório e alta fora, em 8% a 22%, chegando a 62% na faixa de pré-hipertensão. As duas se associam a mais risco cardiovascular a longo prazo.

Qual é a pressão ideal depois da menopausa? As metas da diretriz de 2025

Pela classificação da diretriz de 2025, com medida de consultório:

A meta de tratamento é única: abaixo de 130/80 mmHg para toda pessoa com hipertensão, com risco cardiovascular baixo, moderado ou alto, recomendação forte e de alta certeza. Mulheres e homens têm as mesmas metas, e o alcance da meta deve ser confirmado pela MAPA ou pela MRPA. Quem está a partir de 120/80 já deve adotar as medidas sem remédio. E um dado da mesma diretriz pesa para as mulheres: o risco cardiovascular começa a subir com uma sistólica cerca de 10 mmHg mais baixa que no homem.

O que ajuda a baixar a pressão no dia a dia

Pela diretriz de 2025, as medidas sem remédio valem para todos, inclusive para quem já toma medicação. Os efeitos citados são médios, em pessoas com hipertensão:

Reposição hormonal sobe a pressão? O que dizem as diretrizes

A Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, de 2024, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), da FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e da Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC), resume que o estrogênio dado na menopausa não tem efeito sobre a pressão. O tipo e a via pesam: no estudo WHI, com estrogênio oral de origem equina, diferente do estradiol, com ou sem progestagênio sintético (hormônio associado para proteger o útero), a pressão subiu em média de 1 a 1,5 mmHg; e, nos dados observacionais do WHI, o estrogênio transdérmico (gel ou adesivo na pele) se associou a menor risco de hipertensão que o oral.

As recomendações, repetidas na diretriz de hipertensão de 2025:

Pressão descontrolada, em 180/110 mmHg ou mais, contraindica começar a reposição, como detalha o artigo sobre quem não pode fazer reposição hormonal. E a reposição é indicada para os sintomas: a diretriz de 2024 afirma que não há indicação de iniciá-la com o objetivo de prevenir um primeiro evento cardiovascular. Na mulher com pressão alta, a pressão segue tratada até a meta, e a reposição, quando indicada, entra para os sintomas da menopausa.

Como é feita a avaliação da pressão na menopausa

A diretriz de 2025 organiza a avaliação em conversa, exame físico e exames complementares. No consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo, a consulta segue essa ordem, olhando também a transição hormonal:

Se a reposição estiver em discussão, entram os exames próprios dessa decisão, descritos em exames antes da reposição hormonal feminina. O caminho completo está no guia de menopausa e climatério.

Perguntas frequentes

Pressão alta na menopausa é normal?

É comum, mas não deve ser deixada de lado. A hipertensão fica mais frequente com a idade e a transição hormonal contribui, porém a diretriz brasileira de 2025 fixa as mesmas metas para mulheres e homens: abaixo de 130/80 mmHg para quem tem hipertensão. Pressão que subiu perto dos 50 merece confirmação e acompanhamento.

A pré-menopausa já pode aumentar a pressão?

Pode. Na perimenopausa, a transição que antecede a última menstruação, a pressão já costuma subir: no SWAN, ela vinha aumentando antes da menopausa na maioria das mulheres, e em cerca de um terço a sistólica acelerou depois. Pesam ainda a pílula combinada, o ganho de peso e o sono pior. Os autores recomendam medir a pressão com frequência durante a transição.

O calorão da menopausa aumenta a pressão?

Há associação, sem prova de que um cause o outro. No SWAN, a presença de fogachos e suores previu níveis mais altos de sistólica ao longo dos anos. Quem tem fogachos frequentes se beneficia de medir a pressão com regularidade, de preferência também fora do consultório.

Reposição hormonal causa pressão alta?

Pela diretriz brasileira de 2024, o estrogênio usado na menopausa não tem efeito sobre a pressão. Com o estrogênio oral de origem equina do estudo WHI, porém, a subida média foi de 1 a 1,5 mmHg, e, nos dados observacionais do WHI, o transdérmico (gel ou adesivo) se associou a menor risco de hipertensão que o oral. A pressão é acompanhada desde o início da reposição.

Aparelho de pulso serve para medir a pressão em casa?

A referência é o aparelho de braço, automático e validado, com braçadeira do tamanho certo. A diretriz de 2025 aceita o de punho, também validado, quando medir no braço é difícil, como em parte das pessoas com obesidade. Medidas soltas servem de triagem; a confirmação vem da MRPA ou da MAPA.

Conclusão

A pressão tende a subir na transição da menopausa por uma soma de fatores: idade, peso, sal, sono e, em parte das mulheres, um efeito próprio da queda hormonal. Medida com técnica, confirmada fora do consultório quando preciso e tratada até a meta abaixo de 13 por 8, ela passa a ser acompanhada com números confiáveis.

Pressão alta e reposição hormonal podem conviver quando a pressão está controlada e a via é escolhida com critério, decisão que começa pela avaliação.

Referências

  1. Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2025 (Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia). Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624. https://doi.org/10.36660/abc.20250624
  2. Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. https://doi.org/10.36660/abc.20240478
  3. Zanchetti A, Facchetti R, Cesana GC, et al. Menopause-related blood pressure increase and its relationship to age and body mass index: the SIMONA epidemiological study. J Hypertens. 2005;23(12):2269-2276. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16269969/
  4. Matthews KA, Crawford SL, Chae CU, et al. Are changes in cardiovascular disease risk factors in midlife women due to chronological aging or to the menopausal transition? J Am Coll Cardiol. 2009;54(25):2366-2373. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20082925/
  5. Samargandy S, Matthews KA, Brooks MM, et al. Trajectories of Blood Pressure in Midlife Women: Does Menopause Matter? Circ Res. 2022;130(3):312-322. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35113663/

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