Pressão alta na menopausa: por que a pressão sobe, como medir direito e o que muda na reposição hormonal
Resposta direta
Sim, a pressão tende a subir na transição da menopausa, mas só uma parte disso vem do hormônio. Num estudo italiano com mais de 18 mil mulheres, a diferença ligada à menopausa, descontados idade e peso, ficou perto de 2 mmHg (milímetros de mercúrio). O resto acompanha idade, peso, sal e sono. A diretriz brasileira de 2025 fixa a meta abaixo de 13 por 8 (130/80 mmHg) para quem tem hipertensão.
Durante anos a pressão ficou em 11 por 7 e nunca foi assunto. Perto dos 50, o número começa a aparecer mais alto no aparelho da farmácia ou na consulta de rotina, na mesma época em que o ciclo começa a falhar.
A menopausa tem parte nisso, mas a explicação tem camadas. Nessa época a idade avança, o peso muda, o sono piora e, em parte das mulheres, o anticoncepcional segue em uso. Os estudos que acompanharam as mesmas mulheres por anos ajudam a separar o que vem do hormônio, e essa separação muda o que fazer.
Aqui explico esses estudos, como medir sem cair no efeito do avental branco, as metas da diretriz de 2025 e o que muda na reposição hormonal.
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Agendar pelo WhatsAppEste artigo faz parte do guia Menopausa e climatério do Dr. Rodrigo Neves. Consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo. Livro do Dr. Rodrigo Neves sobre o tema: A Menopausa Que Ninguém Explicou.
A menopausa aumenta a pressão arterial?
A pressão alta fica mais comum nas mulheres com o passar dos anos. Pela Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, da Sociedade Brasileira de Cardiologia com as sociedades brasileiras de hipertensão e de nefrologia, a hipertensão atinge 68,0% das mulheres a partir dos 65 anos, contra 61,5% dos homens, e a menopausa está entre os fatores de risco próprios da mulher.
Quanto disso vem do hormônio? O estudo SIMONA, publicado no Journal of Hypertension em 2005, mediu a pressão de 18.326 italianas de 46 a 59 anos. Descontados idade, peso, cigarro e uso de hormônios, a menopausa ficou associada a uma pressão cerca de 2 mmHg (milímetros de mercúrio) mais alta, e só entre os 46 e os 49 anos.
O SWAN (Study of Women's Health Across the Nation), que acompanha mulheres americanas desde antes da última menstruação, completou o quadro. Em 2009, com 1.054 mulheres, o colesterol deu um salto no ano em torno da última menstruação, enquanto a pressão subiu em linha reta, no ritmo da idade. Em 2022, com 3.302 mulheres, apareceu um grupo, cerca de um terço delas, em que a sistólica (a máxima, o primeiro número) acelerou a partir de 1 ano depois da menopausa.
Na maioria das mulheres, portanto, a subida acompanha a idade; em uma parte, a menopausa acrescenta um empurrão próprio. Como não dá para saber de antemão quem é quem, os autores do SWAN recomendam medir a pressão com frequência durante a transição. O efeito no coração como um todo está no artigo sobre menopausa e risco cardiovascular.
Por que a pressão sobe na menopausa: hormônio, peso, sono e sal
A parte hormonal tem mecanismo conhecido. As diretrizes brasileiras de 2024 e 2025 descrevem que a queda do estradiol mexe no sistema renina-angiotensina-aldosterona (hormônios que regulam sal, água e o calibre dos vasos), reduz o óxido nítrico (que relaxa as artérias), aumenta a endotelina (que as contrai) e ativa o sistema nervoso simpático, o do estado de alerta. Com o tempo, a aorta enrijece, o que ajuda a explicar a hipertensão em que só a sistólica fica alta.
O peso vem em seguida. A diretriz de 2024 registra que, no SWAN e no WHI (Women's Health Initiative, o grande estudo americano sobre reposição hormonal), o ganho de índice de massa corporal nessa fase parece mais ligado à idade, enquanto a falta de estrogênio leva a gordura para a barriga.
O sono é a peça menos lembrada. A apneia obstrutiva do sono (paradas repetidas da respiração à noite) ativa o simpático, aumenta o cortisol e mantém inflamação, segundo a diretriz de 2025, que a inclui entre as causas de hipertensão a investigar e a descreve como mais frequente em homens e em mulheres depois da menopausa. Como a apneia é investigada, com a polissonografia (o exame do sono), está no artigo sobre apneia do sono.
Por fim, sal e pílula. A diretriz de 2025 observa que a hipertensão na pós-menopausa tende a ser sensível ao sal. E, na perimenopausa (os anos de transição antes da última menstruação), muitas mulheres ainda usam pílula combinada. Na seção sobre mulheres jovens e anticoncepcionais, a mesma diretriz cita uma metanálise de 24 estudos em que o risco de hipertensão foi 47% maior entre as usuárias de mais tempo e cresceu 13% a cada cinco anos de uso, e recomenda medir a pressão antes de começar a pílula combinada e, depois do início, a cada 6 meses, cuidado que vale também para quem ainda a usa na perimenopausa.
Como medir a pressão do jeito certo: consultório, MAPA e MRPA
A diretriz de 2025 pede técnica: sentada há pelo menos 5 minutos, costas apoiadas, pernas descruzadas, bexiga vazia e sem falar; sem cigarro, comida ou cafeína nos 30 minutos anteriores; braço apoiado na altura do coração e manguito (a braçadeira) do tamanho certo. São três medidas com 1 minuto de intervalo, valendo a média das duas últimas. Salvo pressão muito alta ou lesão já instalada nos órgãos, o diagnóstico pede medidas repetidas em visitas diferentes ou a medida fora do consultório, por dois exames:
- MAPA (monitorização ambulatorial da pressão arterial): um aparelho mede a pressão a cada 15 a 20 minutos acordada e a cada 20 a 30 minutos dormindo, por 24 horas. É o exame que mostra a pressão durante o sono. Indica hipertensão a média de 24 horas a partir de 130/80, a de vigília a partir de 135/85 ou a do sono a partir de 120/70.
- MRPA (monitorização residencial da pressão arterial): aparelho automático validado, em casa, de 4 a 6 dias na mesma semana, com três medidas pela manhã e três à noite. A média normal fica abaixo de 130/80.
Medir fora do consultório revela dois fenômenos. Na hipertensão do avental branco, a pressão fica em 140/90 ou mais no consultório e abaixo de 130/80 fora dele; ela aparece em 7% a 15% das pessoas sem tratamento. Na hipertensão mascarada, o contrário: normal no consultório e alta fora, em 8% a 22%, chegando a 62% na faixa de pré-hipertensão. As duas se associam a mais risco cardiovascular a longo prazo.
Qual é a pressão ideal depois da menopausa? As metas da diretriz de 2025
Pela classificação da diretriz de 2025, com medida de consultório:
- Normal: sistólica abaixo de 120 e diastólica (a mínima) abaixo de 80 mmHg.
- Pré-hipertensão: sistólica de 120 a 139 ou diastólica de 80 a 89. O 12 por 8, antes chamado de normal, entrou nesta faixa.
- Hipertensão: 140/90 ou mais, em estágios 1, 2 e 3; o estágio 3 começa em 180/110.
A meta de tratamento é única: abaixo de 130/80 mmHg para toda pessoa com hipertensão, com risco cardiovascular baixo, moderado ou alto, recomendação forte e de alta certeza. Mulheres e homens têm as mesmas metas, e o alcance da meta deve ser confirmado pela MAPA ou pela MRPA. Quem está a partir de 120/80 já deve adotar as medidas sem remédio. E um dado da mesma diretriz pesa para as mulheres: o risco cardiovascular começa a subir com uma sistólica cerca de 10 mmHg mais baixa que no homem.
O que ajuda a baixar a pressão no dia a dia
Pela diretriz de 2025, as medidas sem remédio valem para todos, inclusive para quem já toma medicação. Os efeitos citados são médios, em pessoas com hipertensão:
- Sal: no máximo 2 g de sódio por dia, ou 5 g de sal, uma colher de chá. O brasileiro consome perto do dobro. Cada 1,15 g de sódio a menos por dia reduz a sistólica em 2,8 mmHg. Sal rosa e sal marinho têm o mesmo sódio do sal comum.
- Potássio: pelo menos 3,5 g por dia, de frutas, verduras, legumes, leguminosas e laticínios magros, com redução de cerca de 4,8 mmHg na sistólica. Quem tem doença renal crônica ou potássio alto no sangue precisa de orientação individual.
- Dieta DASH (rica em frutas, hortaliças, laticínios magros e cereais integrais): reduziu a pressão em 8,7/4,5 mmHg, e mais quando combinada com menos sódio.
- Peso: cada quilo perdido reduziu a sistólica em cerca de 1 mmHg numa metanálise; a cintura recomendada para a mulher fica abaixo de 88 cm.
- Exercício: 150 minutos por semana de aeróbico moderado, como caminhar, dançar ou nadar. É o único treino que reduz a pressão das 24 horas; a musculação complementa.
- Álcool: para a mulher, no máximo uma dose por dia (cerca de 100 mL de vinho ou 200 mL de cerveja), sem exageros pontuais.
- Sono: de qualidade e com duração adequada, o que na menopausa inclui cuidar da insônia e investigar a apneia.
Reposição hormonal sobe a pressão? O que dizem as diretrizes
A Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, de 2024, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), da FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e da Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC), resume que o estrogênio dado na menopausa não tem efeito sobre a pressão. O tipo e a via pesam: no estudo WHI, com estrogênio oral de origem equina, diferente do estradiol, com ou sem progestagênio sintético (hormônio associado para proteger o útero), a pressão subiu em média de 1 a 1,5 mmHg; e, nos dados observacionais do WHI, o estrogênio transdérmico (gel ou adesivo na pele) se associou a menor risco de hipertensão que o oral.
As recomendações, repetidas na diretriz de hipertensão de 2025:
- Com hipertensão controlada e fogachos e suores moderados a intensos, a mulher pode usar reposição por qualquer via.
- A via transdérmica é a preferida quando há também obesidade, colesterol alterado, diabetes ou síndrome metabólica.
- Na pressão de difícil controle, a diretriz de 2024 sugere estrogênio transdérmico e, em quem tem útero, progesterona micronizada (a mesma molécula produzida pelo ovário), por ter menor potencial de trombose que outros progestagênios.
- A pressão é monitorada desde o início; se não ficar controlada, a reposição é interrompida.
Pressão descontrolada, em 180/110 mmHg ou mais, contraindica começar a reposição, como detalha o artigo sobre quem não pode fazer reposição hormonal. E a reposição é indicada para os sintomas: a diretriz de 2024 afirma que não há indicação de iniciá-la com o objetivo de prevenir um primeiro evento cardiovascular. Na mulher com pressão alta, a pressão segue tratada até a meta, e a reposição, quando indicada, entra para os sintomas da menopausa.
Como é feita a avaliação da pressão na menopausa
A diretriz de 2025 organiza a avaliação em conversa, exame físico e exames complementares. No consultório em Alto de Pinheiros, São Paulo, a consulta segue essa ordem, olhando também a transição hormonal:
- Anamnese. Sintomas da menopausa, pré-eclâmpsia (pressão alta na gravidez) nas gestações, sal, álcool, atividade física, estresse, sono e ronco, anticoncepcional e outros remédios que podem elevar a pressão, histórico familiar.
- Medida correta e, quando preciso, MAPA ou MRPA para confirmar o diagnóstico e afastar o avental branco.
- Exame físico e bioimpedância. Peso, cintura e composição corporal, que mostra quanto do peso é gordura e quanto é músculo.
- Exames de rotina da hipertensão: urina, potássio, creatinina (que mostra a função dos rins), albumina na urina, glicemia, colesterol, ácido úrico e eletrocardiograma, repetidos ao menos uma vez por ano quando normais.
- Cálculo do risco cardiovascular, para definir metas e prioridades.
Se a reposição estiver em discussão, entram os exames próprios dessa decisão, descritos em exames antes da reposição hormonal feminina. O caminho completo está no guia de menopausa e climatério.
Perguntas frequentes
Pressão alta na menopausa é normal?
É comum, mas não deve ser deixada de lado. A hipertensão fica mais frequente com a idade e a transição hormonal contribui, porém a diretriz brasileira de 2025 fixa as mesmas metas para mulheres e homens: abaixo de 130/80 mmHg para quem tem hipertensão. Pressão que subiu perto dos 50 merece confirmação e acompanhamento.
A pré-menopausa já pode aumentar a pressão?
Pode. Na perimenopausa, a transição que antecede a última menstruação, a pressão já costuma subir: no SWAN, ela vinha aumentando antes da menopausa na maioria das mulheres, e em cerca de um terço a sistólica acelerou depois. Pesam ainda a pílula combinada, o ganho de peso e o sono pior. Os autores recomendam medir a pressão com frequência durante a transição.
O calorão da menopausa aumenta a pressão?
Há associação, sem prova de que um cause o outro. No SWAN, a presença de fogachos e suores previu níveis mais altos de sistólica ao longo dos anos. Quem tem fogachos frequentes se beneficia de medir a pressão com regularidade, de preferência também fora do consultório.
Reposição hormonal causa pressão alta?
Pela diretriz brasileira de 2024, o estrogênio usado na menopausa não tem efeito sobre a pressão. Com o estrogênio oral de origem equina do estudo WHI, porém, a subida média foi de 1 a 1,5 mmHg, e, nos dados observacionais do WHI, o transdérmico (gel ou adesivo) se associou a menor risco de hipertensão que o oral. A pressão é acompanhada desde o início da reposição.
Aparelho de pulso serve para medir a pressão em casa?
A referência é o aparelho de braço, automático e validado, com braçadeira do tamanho certo. A diretriz de 2025 aceita o de punho, também validado, quando medir no braço é difícil, como em parte das pessoas com obesidade. Medidas soltas servem de triagem; a confirmação vem da MRPA ou da MAPA.
Conclusão
A pressão tende a subir na transição da menopausa por uma soma de fatores: idade, peso, sal, sono e, em parte das mulheres, um efeito próprio da queda hormonal. Medida com técnica, confirmada fora do consultório quando preciso e tratada até a meta abaixo de 13 por 8, ela passa a ser acompanhada com números confiáveis.
Pressão alta e reposição hormonal podem conviver quando a pressão está controlada e a via é escolhida com critério, decisão que começa pela avaliação.
Referências
- Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2025 (Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia). Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624. https://doi.org/10.36660/abc.20250624
- Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. https://doi.org/10.36660/abc.20240478
- Zanchetti A, Facchetti R, Cesana GC, et al. Menopause-related blood pressure increase and its relationship to age and body mass index: the SIMONA epidemiological study. J Hypertens. 2005;23(12):2269-2276. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16269969/
- Matthews KA, Crawford SL, Chae CU, et al. Are changes in cardiovascular disease risk factors in midlife women due to chronological aging or to the menopausal transition? J Am Coll Cardiol. 2009;54(25):2366-2373. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20082925/
- Samargandy S, Matthews KA, Brooks MM, et al. Trajectories of Blood Pressure in Midlife Women: Does Menopause Matter? Circ Res. 2022;130(3):312-322. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35113663/
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