Queda de cabelo: as causas hormonais e metabólicas e quais exames a avaliação pede
Resposta direta
A queda de cabelo difusa costuma ter causa hormonal ou metabólica: tireoide, reserva baixa de ferro (ferritina), queda do estrogênio na menopausa, excesso de androgênios (como na síndrome dos ovários policísticos), pós-parto, emagrecimento rápido, remédios e estresse intenso. A investigação começa pela história e por exames de sangue: hemograma, ferritina, TSH e T4 livre e, conforme o caso, vitamina D e androgênios. Queda em falhas, com descamação ou dor, pede avaliação do couro cabeludo.
O ralo do chuveiro, a escova, o travesseiro: o cabelo passa a aparecer em todo lugar e, no espelho, o rabo de cavalo parece pela metade. A primeira reação costuma ser trocar o xampu ou começar uma vitamina da farmácia. Semanas depois, a queda continua e vem a dúvida: isso é hormonal? Que exame eu faço?
A pergunta tem fundamento. O folículo (a raiz do fio) é um dos tecidos que mais se dividem no corpo e responde a hormônio da tireoide, ferro, estrogênio, androgênios, calorias e proteína. Quando um desses pilares falha, o cabelo é dos primeiros a mostrar. Neste artigo, explico os dois padrões mais comuns de queda, as causas hormonais e metabólicas por trás de cada um, o que muda na mulher e no homem depois dos 40, quais exames uma avaliação pede e quando a causa é do próprio couro cabeludo.
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Por que o cabelo cai: o ciclo do fio e os dois padrões mais comuns
Cada fio cresce por anos (fase anágena), descansa por alguns meses (fase telógena) e cai para dar lugar a um novo. Segundo uma revisão publicada no Journal of Clinical and Diagnostic Research em 2015, no couro cabeludo saudável 90% a 95% dos folículos estão em crescimento, e a perda normal fica em torno de 100 a 150 fios por dia. Queda acima disso, por semanas, merece investigação.
Dois padrões respondem pela maior parte dos casos. O primeiro é o eflúvio telógeno: um gatilho (febre, cirurgia, parto, dieta agressiva, remédio novo, doença da tireoide, falta de ferro, estresse intenso) empurra muitos fios para a fase de repouso, e eles caem em bloco cerca de 3 a 4 meses depois; quando dura mais de 6 meses, chama-se crônico. É o padrão típico das causas hormonais e metabólicas.
O segundo é a alopecia androgenética (calvície de padrão): o folículo, por predisposição herdada, vai encolhendo sob a ação dos androgênios (os hormônios masculinos, presentes também na mulher), e o fio nasce cada vez mais fino. No homem, aparece nas entradas e na coroa; na mulher, como rarefação no topo da cabeça. A revisão do American Family Physician de 2017 estima que 30%, 40% e 50% dos homens têm o quadro aos 30, 40 e 50 anos; a diretriz europeia (S3) cita de 29% a 42% das mulheres a partir dos 70, em dois estudos no Reino Unido e nos EUA. Os dois padrões podem coexistir, e por isso a avaliação olha o desenho da queda e o terreno hormonal ao mesmo tempo.
Queda de cabelo e tireoide: o que muda no fio
O hormônio tireoidiano é necessário para o folículo se formar e se manter. Tanto o hipotireoidismo (tireoide lenta) quanto o hipertireoidismo (tireoide acelerada) estão entre as causas endócrinas de eflúvio telógeno, e a queda difusa é, às vezes, o sinal de apresentação de uma tireoide lenta, antes do cansaço e do ganho de peso. Sobrancelhas e pelos do corpo também podem rarear.
Um estudo descritivo no International Journal of Trichology, de 2013, avaliou 1.232 pessoas com queixa de queda de cabelo ao longo de 25 meses: a frequência de alteração tireoidiana aumentou com a idade em todos os padrões, e os autores recomendam pedir TSH e anti-TPO (marcador de tireoidite autoimune) a toda pessoa com queda. É um estudo de um único serviço, sem grupo de comparação, mas coerente com a prática; o post sobre tireoide lenta e o que os exames mostram aprofunda essa interpretação.
Queda de cabelo e ferritina baixa: o que os estudos mostram
A ferritina é a proteína que guarda o ferro; o exame estima a reserva do corpo. A deficiência de ferro é a carência nutricional mais comum do mundo e entra em toda lista de causas de eflúvio telógeno, mas a relação com a queda é debatida há décadas.
Um estudo de 2003 (J Invest Dermatol) achou ferritina média mais baixa em mulheres com alopecia androgenética (37 ng/mL) e com alopecia areata (25 ng/mL) do que em mulheres sem queda (60 ng/mL), mas não no eflúvio telógeno. Dois estudos maiores não confirmaram essa relação: um, de 2010, com 381 mulheres com queda, não encontrou mais deficiência de ferro do que no grupo sem queda; outro, de 2002, com 194 mulheres, achou ferritina até 20 em só 6% delas. Uma revisão de 2019 lembra que a definição de deficiência variou de 15 a 70 microgramas por litro entre os estudos e que não há evidência firme de que repor ferro, sozinho, resolva a queda.
A revisão da Cleveland Clinic de 2006 dosa ferritina em todo paciente com queda e trata a deficiência quando a encontra, com ou sem anemia, com dois cuidados: a ferritina sobe com inflamação, então um valor "normal" pode esconder reserva baixa; e, no homem e na mulher depois da menopausa, ferritina baixa pede investigar perda de sangue antes de qualquer suplemento.
Queda de cabelo na mulher: menopausa, pós-parto e ovários policísticos
Menopausa. O estrogênio cai rápido e os androgênios caem devagar, e o folículo passa a sentir mais o lado androgênico, com afinamento no topo da cabeça; o post sobre menopausa, pele e cabelo explica o mecanismo. A mulher nessa fase também acumula as outras causas (tireoide, ferro, vitamina D), e nenhuma deve ser atribuída à idade sem exame.
Pós-parto. A revisão de 2015 classifica a queda depois do parto como "liberação anágena atrasada": fios que ficaram mais tempo em crescimento entram em repouso juntos e caem em bloco meses depois. Tende a ser autolimitada, mas pode se somar à falta de ferro e a uma alteração da tireoide, e esses dois exames entram na avaliação.
Síndrome dos ovários policísticos (SOP). Na mulher mais jovem, queda de padrão feminino com acne, pelos no rosto e no corpo (hirsutismo) e ciclo irregular aponta para excesso de androgênios. A diretriz de SOP de 2023 indica testosterona total e livre como exames de entrada, com androstenediona e DHEAS se vierem normais, e avisa que o anticoncepcional combinado atrapalha essa leitura, porque sobe a SHBG (proteína que carrega os hormônios) e reduz a produção de androgênios; o post sobre testosterona na mulher trata do que o valor significa. Hirsutismo recente, grave ou em piora rápida, sobretudo depois da menopausa, pede investigar tumor produtor de androgênio.
Queda de cabelo no homem depois dos 40: testosterona, DHT e o que o exame mostra
No homem, a causa mais comum é a alopecia androgenética. A diretriz europeia (S3) descreve o DHT (di-hidrotestosterona, derivado mais potente da testosterona) como o androgênio principal do processo: ele age na papila do folículo e miniaturiza o fio em homens predispostos, e quem tem deficiência genética da enzima que o forma não desenvolve calvície. A calvície de padrão não indica testosterona alta nem baixa: é sensibilidade herdada do folículo ao DHT.
Por isso a diretriz recomenda, no homem adulto com calvície leve a moderada, o minoxidil tópico e a finasterida oral, com resposta avaliada aos 6 meses e uso contínuo para manter o efeito; a decisão é individual e passa pelos efeitos adversos conversados na consulta. Na mulher, a finasterida não tem licença, é contraindicada na idade fértil pelo risco ao feto masculino, e a diretriz não a sugere na pós-menopausa.
O que muda depois dos 40 é que a calvície de padrão passa a dividir espaço com as causas metabólicas: tireoide, ferro (no homem, ferritina baixa sempre pede investigar sangramento), remédios de pressão e colesterol, perda de peso rápida e estresse. Uma queda difusa, que acomete o couro cabeludo inteiro e poupa o desenho de entradas e coroa, foge do padrão androgenético e merece exames. Quem faz reposição de testosterona e nota mudança no cabelo deve relatar na consulta, porque a leitura depende do padrão da queda e dos hormônios medidos.
Queda de cabelo depois de emagrecer rápido, com Mounjaro e por remédios
Dieta agressiva e perda de peso rápida são gatilhos clássicos de eflúvio telógeno: a revisão de 2019 cita uma série de 9 pacientes com queda 2 a 5 meses depois de um programa intenso de emagrecimento, com perda de 11,7 a 24 kg, e a hipótese é que a restrição calórica deixe a matriz do fio sem energia. O eflúvio é autolimitado na maioria dos casos depois que o gatilho é removido, por isso o emagrecimento médico acompanha proteína, micronutrientes e cabelo junto com a balança.
Com as canetas de GLP-1 o raciocínio é o mesmo: a bula brasileira do Mounjaro lista a queda de cabelo como efeito comum no controle do peso, pelo provável eflúvio da perda rápida; o post sobre efeitos colaterais do Mounjaro detalha os números. Outros remédios também entram na lista: retinoides orais (usados para acne), anticonvulsivantes, betabloqueadores, antitireoidianos, anticoagulantes e a interrupção do anticoncepcional. Nunca interrompa um remédio por conta própria: o ajuste é feito com quem prescreveu.
Quais exames pedir para queda de cabelo?
A revisão de 2015 propõe uma bateria mínima: hemograma, ferritina, TSH, T4 e T3, e a revisão do American Family Physician de 2017 soma a deficiência de zinco e as doenças de rim e fígado entre as causas a excluir. Em cima disso, a avaliação hormonal acrescenta o que o padrão da queda pede:
- Ferro: ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina, lidos ao lado de um marcador de inflamação (PCR), para que a inflamação não disfarce uma reserva baixa.
- Tireoide: TSH, T4 livre e anti-TPO.
- Androgênios na mulher com queda de padrão feminino, acne, hirsutismo ou ciclo irregular: testosterona total e livre por cálculo (com SHBG) e, se normais, androstenediona e DHEAS, conforme a diretriz de SOP de 2023; de preferência fora do anticoncepcional e no momento certo do ciclo.
- Estradiol e FSH na mulher em transição para a menopausa, para situar a fase.
- Glicemia e insulina, porque a resistência à insulina caminha junto com o excesso de androgênios na mulher e com a saúde metabólica em geral.
Vitamina D, zinco e biotina: pedir ou não?
A revisão de 2019 é cautelosa: na alopecia areata, a falta de vitamina D é frequente e a reposição faz sentido quando o nível está baixo; na queda de padrão feminino e no eflúvio, os estudos se contradizem. Num estudo com 115 pessoas com eflúvio, 9,6% tinham zinco baixo. A regra é dosar os dois quando a história sugere risco (pouco sol, dieta restritiva, cirurgia bariátrica, doença intestinal, gestação recente) e repor o que estiver comprovadamente baixo; sem fator de risco, procurar deficiência às cegas não se justifica, e a biotina, a mais vendida para cabelo, entra na mesma regra.
Como é feita a avaliação da queda de cabelo
Na consulta, a investigação começa pela linha do tempo: quando a queda começou, em bloco ou aos poucos, o que aconteceu de 2 a 5 meses antes (parto, cirurgia, febre, dieta, remédio novo, perda de peso, estresse intenso). Depois vem o exame do couro cabeludo: o desenho da queda, a espessura dos fios, o teste de tração (na queda ativa, mais de 10% dos fios saem com facilidade) e sinais de pele, como descamação e falhas redondas.
Os exames entram em cima dessa história, nunca no lugar dela: ferro e inflamação, tireoide completa, androgênios e estrogênio conforme o sexo e a fase, vitamina D e zinco quando há risco, glicemia e insulina. A bioimpedância estima massa muscular e gordura e ajuda a acompanhar quem está emagrecendo. No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, é com esse conjunto na mesa que se decide o que tratar primeiro, e o cabelo é reavaliado nos retornos, porque a resposta do fio leva meses. Quem está em reposição hormonal tem o cabelo acompanhado como parte do ajuste.
Quando a causa é do couro cabeludo e precisa de outro olhar
Nem toda queda é hormonal ou metabólica. Falhas redondas e lisas, descamação com coceira, dor, pústulas ou poros do folículo que desapareceram sinalizam doença do próprio couro cabeludo, inclusive formas cicatriciais, em que o folículo é destruído e não volta: a revisão do American Family Physician recomenda, nesse caso, encaminhar ao médico da pele e do couro cabeludo. Essa avaliação pode andar em paralelo com a investigação hormonal, porque uma coisa não exclui a outra.
Perguntas frequentes
Quantos fios por dia é normal perder?
Em torno de 100 a 150 fios por dia, segundo a revisão de 2015: é a parcela de folículos em fase de repouso (5% a 10% do total) sendo renovada. O sinal de alerta é a quantidade subir por semanas seguidas, o rabo de cavalo afinar ou o couro cabeludo ficar visível em áreas onde antes não era. Nesse caso, vale uma avaliação em vez de esperar passar.
Queda de cabelo por estresse volta a crescer? Quanto tempo dura o eflúvio telógeno?
O eflúvio telógeno é, na maioria dos casos, autolimitado. A revisão de 2015 descreve que a queda leva de 3 a 6 meses para cessar depois que o gatilho é removido, e que o rebrote é notado nos 3 a 6 meses seguintes. Quando passa de 6 meses, chama-se crônico e pede investigação mais ampla, porque com frequência existe um gatilho que se mantém, como tireoide, ferro, remédio ou dieta restritiva.
Ferritina normal no laudo pode estar baixa para o cabelo?
Essa discussão existe. A revisão de 2019 lembra que o limite inferior da faixa de referência feminina é questionado, porque foi calculado em populações onde a deficiência de ferro era comum, e que os estudos de queda usaram definições de deficiência de 15 a 70 microgramas por litro. Por isso a ferritina é lida junto com saturação de transferrina, hemograma e um marcador de inflamação, e a decisão de repor ferro é do médico, nunca por conta própria.
Parar ou começar o anticoncepcional pode fazer o cabelo cair?
As duas situações aparecem nas listas de gatilhos de eflúvio telógeno: a revisão de 2015 cita os anticoncepcionais orais entre os remédios associados, e a revisão de 2017 cita a interrupção da pílula. A queda costuma aparecer meses depois da mudança e tende a se estabilizar. A troca ou a retirada do método é decisão a tomar com o médico, que também olha ferro e tireoide, porque é comum mais de uma causa junta.
Queda de cabelo: qual médico procurar?
Depende do padrão. Queda difusa, em bloco, com cansaço, mudança de peso, ciclo irregular, pós-parto ou emagrecimento recente pede uma avaliação clínica e hormonal (tireoide, ferro, androgênios, vitaminas). Falhas redondas, descamação, coceira, dor ou cicatriz no couro cabeludo pedem o médico da pele e do couro cabeludo. Muitas vezes os dois caminham juntos: a investigação hormonal corrige o terreno, e a avaliação do couro cabeludo trata o que é local.
Conclusão
Queda de cabelo é sintoma, e um sintoma que avisa cedo: tireoide, reserva de ferro, estrogênio, androgênios, calorias e proteína passam pelo folículo antes de aparecerem em outro lugar. Trocar de xampu ou comprar uma vitamina sem exame pula a pergunta que importa, que é por que o fio está caindo.
A resposta sai da linha do tempo, do padrão da queda e de exames lidos em conjunto. Quando a causa é hormonal ou metabólica, tratá-la é o caminho; quando é do couro cabeludo, o olhar certo é outro, e os dois podem andar lado a lado.
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