Saúde Hormonal

Nutrólogo pode fazer reposição hormonal? Quem pode prescrever hormônio, o que diz a lei e o que pesa na escolha do médico

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 10 min

Resposta direta

Sim. O nutrólogo é médico, inscrito no CRM, e a Nutrologia é uma das especialidades médicas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina. Pela lei, o médico inscrito pode exercer a medicina em qualquer de seus ramos, o que inclui pedir exames hormonais e prescrever reposição quando a deficiência é comprovada. O nutricionista, que é outro profissional, não prescreve hormônio.

A dúvida costuma aparecer em dois momentos. No primeiro, a pessoa já faz acompanhamento com um nutrólogo por causa do peso ou do metabolismo, os exames mostram a testosterona baixa ou os hormônios da menopausa em queda, e vem a pergunta: dá para tratar isso ali mesmo ou é preciso marcar com outro médico? No segundo, ela ainda está escolhendo com quem começar e não sabe se procura nutrólogo, endocrinologista, ginecologista ou urologista.

Na busca, a pergunta aparece de vários jeitos: nutrólogo pode receitar testosterona, pode passar hormônio, pode pedir exames hormonais. E quase sempre vem misturada com outra confusão comum, entre nutrólogo e nutricionista, que são profissões diferentes, com regras diferentes.

Neste artigo eu explico, com as normas na mão, quem pode prescrever reposição hormonal no Brasil, o que vale para todo médico, onde entra o nutricionista e o que de fato pesa na hora de escolher quem vai conduzir o seu tratamento.

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Nutrólogo é médico?

Sim. Nutrólogo é o médico que atua em Nutrologia, área da medicina ligada à alimentação, à nutrição e ao metabolismo. Antes de qualquer coisa, ele se formou em Medicina e tem inscrição no Conselho Regional de Medicina (CRM) do estado onde atende.

A Nutrologia está na lista oficial de especialidades médicas do Brasil. A Resolução CFM nº 2.380/2024, que atualizou essa lista, reconhece 55 especialidades, entre elas Nutrologia, Endocrinologia e Metabologia, Ginecologia e Obstetrícia, Urologia, Geriatria e Clínica Médica.

É aqui que mora a confusão mais comum. Nutricionista é outro profissional: formado em Nutrição, com registro no Conselho Regional de Nutricionistas. As duas profissões cuidam de alimentação, mas têm leis, conselhos e limites de prescrição diferentes, e isso muda a resposta quando o assunto é hormônio.

Nutrólogo pode receitar testosterona e outros hormônios?

Pode. A Lei 3.268/1957, que organiza os conselhos de medicina, diz que o médico pode exercer a medicina "em qualquer de seus ramos ou especialidades" depois de registrar o diploma e se inscrever no CRM. A Lei do Ato Médico (Lei 12.842/2013) descreve o campo de atuação do médico como a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das doenças, sem dividir esse campo por área. Nenhuma das duas reserva a reposição hormonal a um tipo de médico.

No caso da testosterona existe uma regra a mais, e ela vale para a receita, não para a área do médico. A testosterona pertence ao grupo dos esteroides anabolizantes, e a Lei 9.965/2000 determina que a farmácia só venda esses medicamentos com a retenção da receita de médico ou dentista registrado no conselho, com o número do CRM ou do CRO, o CPF do profissional e o código da doença (CID). O dentista prescreve dentro da odontologia; a reposição hormonal fica com o médico.

Também vale para todo médico, nutrólogo ou não, a norma ética do Conselho Federal de Medicina sobre testosterona e outros androgênios. A Resolução CFM nº 2.333/2023, que trata desses hormônios e dos anabolizantes, diz que a reposição está indicada quando há deficiência específica comprovada, com relação entre essa deficiência e o quadro clínico. A mesma resolução veda o uso de testosterona sem a comprovação diagnóstica da deficiência e o uso de anabolizantes com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de desempenho esportivo.

Ou seja: a área de atuação não muda a regra. O que a regra exige de qualquer médico é diagnóstico antes da receita. Para a visão geral do tratamento, o guia de reposição hormonal reúne os artigos sobre homem, mulher e vias de aplicação.

Nutrólogo pode pedir exames hormonais?

Pode. Pedir exames faz parte do diagnóstico, e o diagnóstico é trabalho do médico, seja qual for a área em que atua. A investigação hormonal tem método, e um exemplo ajuda a entender por quê.

A diretriz da Endocrine Society para homens, publicada em 2018, recomenda medir a testosterona total pela manhã, em jejum, com um método confiável, e repetir a dosagem para confirmar. Pela diretriz, o diagnóstico de deficiência exige sintomas compatíveis e valores baixos de forma clara e consistente. Um resultado baixo isolado, colhido no horário errado, não fecha diagnóstico.

A lista de exames depende do sexo, da idade e da queixa. Eu detalho os pedidos em dois artigos: exames para reposição hormonal masculina e exames antes da reposição hormonal feminina.

Nutricionista pode prescrever hormônio?

Não. A Lei 8.234/1991, que regulamenta a profissão de nutricionista, atribui a ele a prescrição de dietas e de "suplementos nutricionais, necessários à complementação da dieta". A Resolução CFN nº 656/2020, do Conselho Federal de Nutricionistas, detalha esse campo: vitaminas, minerais, aminoácidos, proteínas, fibras, probióticos e outros suplementos autorizados pela Anvisa, além de medicamentos isentos de prescrição feitos à base de vitaminas, minerais, aminoácidos ou proteínas.

Hormônio não está nessa lista. E a testosterona, pela Lei 9.965/2000, só é vendida com receita de médico ou dentista. Por isso, a resposta para buscas como "nutricionista pode prescrever testosterona" é não.

Isso não diminui o papel do nutricionista. Alimentação, composição corporal e rotina pesam muito em qualquer tratamento hormonal, e a própria Lei do Ato Médico prevê que o médico atue "em mútua colaboração" com os demais profissionais de saúde. Na prática, os dois se complementam: o médico investiga e trata a deficiência hormonal, o nutricionista organiza a alimentação.

Nutrólogo, endocrinologista, urologista ou ginecologista: quem faz reposição hormonal?

Todos são médicos, e todos podem prescrever reposição hormonal. A lista do CFM separa as especialidades pela formação e pelo foco de cada uma, mas nenhuma norma reserva a reposição a uma delas. É por isso que há endocrinologistas, ginecologistas, urologistas, nutrólogos, geriatras e clínicos que conduzem reposição hormonal.

O título da especialidade mostra a formação do médico; a rotina de cada um mostra com o que ele trabalha no dia a dia. Dentro de cada área, cada médico escolhe o que acompanha na rotina. Perguntas como "todo ginecologista faz reposição hormonal?" ou "reposição hormonal masculina: urologista ou endocrinologista?" têm a mesma resposta: qualquer um deles pode fazer, e o que define o tratamento é como ele é conduzido.

Por isso, na hora de escolher, além da área, vale observar quatro pontos práticos.

O que pesa na escolha do médico para reposição hormonal

Eu aprofundo esses pontos em como escolher o médico para a reposição hormonal.

Como é feita a avaliação antes da reposição hormonal

Na minha prática clínica, a reposição hormonal começa pela conversa, e não pela receita. A primeira consulta levanta os sintomas, quando começaram, o que piora e o que melhora, além de sono, peso, treino, libido, humor, doenças anteriores, cirurgias, remédios em uso e histórico familiar de câncer, trombose e doença do coração.

Depois vêm o exame físico e os exames de sangue. No homem, a testosterona é dosada pela manhã e repetida para confirmar. Na mulher, a avaliação considera a fase da vida (perimenopausa, menopausa ou pós-menopausa) e há quanto tempo os ciclos pararam, porque, segundo o posicionamento de 2022 da North American Menopause Society, a relação entre benefício e risco é mais favorável antes dos 60 anos ou até 10 anos de menopausa. A bioimpedância mede massa muscular e gordura e serve de ponto de partida para comparar ao longo do tratamento.

Antes de prescrever, é preciso conferir se existe algo que contraindica a reposição ou pede cuidado extra, como câncer de mama ou de próstata, trombose prévia ou hematócrito alto (excesso de glóbulos vermelhos no sangue). A lista completa está em quem não pode fazer reposição hormonal. Com o quadro montado, a decisão é tomada junto com o paciente: se há indicação, qual hormônio, qual via e como será o acompanhamento.

Depois do início vêm os retornos, com exames de controle e nova bioimpedância, para ajustar o tratamento conforme a resposta de cada pessoa. É assim que eu conduzo a reposição no consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, e é esse caminho que vale procurar em qualquer médico que você escolher.

Perguntas frequentes

Nutrólogo pode receitar testosterona?

Pode. O nutrólogo é médico e, como todo médico inscrito no CRM, pode prescrever testosterona quando a deficiência é comprovada por sintomas e exames. A receita segue a Lei 9.965/2000: fica retida na farmácia e traz o registro do médico e o código da doença. O CFM veda o uso sem diagnóstico de deficiência e com finalidade estética ou de desempenho, regra que vale para qualquer médico.

Nutricionista pode prescrever testosterona ou outros hormônios?

Não. A prescrição do nutricionista, definida pela Lei 8.234/1991 e pela Resolução CFN nº 656/2020, cobre dietas, suplementos alimentares e medicamentos isentos de prescrição feitos à base de vitaminas, minerais, aminoácidos ou proteínas. Hormônio fica fora desse campo, e a testosterona só é vendida com receita de médico ou dentista. O nutricionista segue importante no tratamento, cuidando da alimentação.

Nutrólogo e endocrinologista são a mesma coisa?

Não. São duas especialidades médicas diferentes na lista do Conselho Federal de Medicina: Nutrologia e Endocrinologia e Metabologia, cada uma com formação e foco próprios. Os dois profissionais são médicos, com inscrição no CRM, e ambos podem pedir exames hormonais e prescrever reposição quando há indicação. Na escolha, vale observar também como cada um avalia e acompanha o paciente.

Ginecologista faz reposição hormonal?

Pode fazer. O ginecologista é médico e pode prescrever a reposição hormonal da menopausa, assim como outros médicos inscritos no CRM. Na prática, cada ginecologista escolhe com o que trabalha na rotina, e nem todos acompanham reposição de perto. Vale perguntar, ao marcar a consulta, se o médico acompanha mulheres na menopausa e como organiza os retornos e os exames de controle.

Clínico geral pode prescrever reposição hormonal?

Pode. A Lei 3.268/1957 permite ao médico inscrito no CRM exercer a medicina em qualquer de seus ramos, e nenhuma norma reserva a reposição hormonal a uma área. No caso da testosterona, a resolução do CFM exige de qualquer médico a deficiência comprovada antes de prescrever. Por isso, além da área, vale observar como a avaliação e o acompanhamento são feitos.

Conclusão

Nutrólogo pode fazer reposição hormonal, assim como endocrinologista, ginecologista, urologista, geriatra ou clínico: todos são médicos, e a lei não reserva o tratamento a uma área. O nutricionista, que é outro profissional, não prescreve hormônio, mas pode ser um parceiro valioso no cuidado com a alimentação.

O que define uma boa reposição é o caminho até ela: sintomas ouvidos com atenção, diagnóstico confirmado (no homem, com a testosterona baixa em mais de um exame; na mulher depois dos 45 anos, em geral pelos sintomas), conferência do que contraindica o tratamento e retornos para ajustar. É esse caminho que vale exigir de quem for cuidar de você.

Referências

  1. Brasil. Lei nº 3.268, de 30 de setembro de 1957. Dispõe sobre os Conselhos de Medicina (art. 17: exercício da medicina em qualquer de seus ramos após inscrição no CRM). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l3268.htm
  2. Brasil. Lei nº 12.842, de 10 de julho de 2013. Dispõe sobre o exercício da Medicina (arts. 2º e 3º). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/L12842.htm
  3. Brasil. Lei nº 9.965, de 27 de abril de 2000. Restringe a venda de esteroides ou peptídeos anabolizantes (receita de médico ou dentista, retida na farmácia). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9965.htm
  4. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.380/2024. Homologa a Portaria CME nº 1/2024, relação das especialidades e áreas de atuação médicas. https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2024/2380_2024.pdf
  5. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023. Normas éticas para a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes. https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2023/2333_2023.pdf
  6. Brasil. Lei nº 8.234, de 17 de setembro de 1991. Regulamenta a profissão de nutricionista (art. 4º, VII). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1989_1994/l8234.htm
  7. Conselho Federal de Nutricionistas. Resolução CFN nº 656/2020 (alterada pela Resolução CFN nº 731/2022). Prescrição dietética de suplementos alimentares pelo nutricionista. https://cfn.org.br/wp-content/uploads/resolucoes/Res_656_2020.html
  8. Hospital Sírio-Libanês. Guia Farmacêutico: medicamentos de controle especial (lista C5, anabolizantes, inclui testosterona). https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/apoio-a-prescricao/medicamentos-de-controle-especial
  9. Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29562364/
  10. The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society Advisory Panel. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35797481/

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Dr. Rodrigo Neves

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