Saúde da Mulher

Menopausa: como aliviar os sintomas, o que tomar com e sem hormônio e o que não tem evidência

Dr. Rodrigo Neves 29 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

Para aliviar os sintomas da menopausa, a reposição hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para os fogachos (ondas de calor) e o ressecamento vaginal, segundo a Menopause Society e a FEBRASGO. Sem hormônio, têm evidência de nível I a terapia cognitivo-comportamental, a hipnose clínica, alguns antidepressivos, a gabapentina e o fezolinetant, aprovado pela Anvisa em 2026. Perder peso ajuda. Isoflavona e cimicífuga não superaram o placebo nas revisões Cochrane.

Às três da manhã, depois do segundo suor noturno, a busca no celular costuma ser a mesma: menopausa, o que tomar. A resposta que aparece vai de isoflavona de soja a antidepressivo, passa por chá, adesivo de estrogênio e por um remédio novo que a Anvisa aprovou em 2026, tudo misturado, sem dizer o que tem estudo por trás.

Este artigo organiza essa lista: quando a reposição hormonal é a indicação, as opções sem hormônio que as sociedades médicas recomendam, o que as mudanças de hábito conseguem, o que os fitoterápicos mostraram nas revisões Cochrane e como a avaliação é feita antes de escolher o caminho.

Os sintomas da menopausa estão atrapalhando o seu dia?

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O que ajuda nos sintomas da menopausa? O mapa em um minuto

Três documentos resumem o consenso atual. A declaração de 2022 da North American Menopause Society (hoje The Menopause Society) afirma que a reposição hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores (fogachos e suores noturnos) e para a síndrome geniturinária da menopausa (ressecamento e dor na relação), além de prevenir a perda óssea. A FEBRASGO, em setembro de 2025, chama a terapia hormonal de primeira escolha para os sintomas do climatério. E a diretriz NG23 do NICE (Reino Unido), atualizada em 2024, manda oferecer reposição hormonal a quem tem sintomas vasomotores.

Para quem não pode ou prefere não usar hormônio, a Menopause Society publicou em 2023 uma declaração só sobre tratamento não hormonal, classificando cada opção pelo nível de evidência:

Reposição hormonal na menopausa: quando ela é a indicação

Quando os fogachos atrapalham o sono e o dia, a reposição hormonal é a primeira linha para a maioria das mulheres. Segundo a declaração de 2022 da Menopause Society, para mulheres com menos de 60 anos ou com até 10 anos de menopausa, sem contraindicações, a relação entre benefício e risco é favorável para tratar sintomas vasomotores incômodos e prevenir a perda óssea; para quem começa mais de 10 anos depois da menopausa ou acima dos 60, ela fica menos favorável, pelo risco absoluto maior de doença coronariana, AVC, trombose venosa e demência.

Em fevereiro de 2026, o FDA (a agência reguladora americana) retirou da tarja de alerta dos produtos de terapia hormonal as frases sobre doença cardiovascular, câncer de mama e demência provável. O que os estudos dizem sobre segurança está em terapia hormonal na menopausa é segura?.

Quando a reposição não é indicada (a lista está nas perguntas ao fim), ou quando a mulher prefere outro caminho, entram as opções abaixo.

Remédio para menopausa sem hormônio: as opções de prescrição com evidência

Fezolinetant: o primeiro de uma classe nova

O fezolinetant age no cérebro, não nos hormônios: bloqueia o receptor de neurocinina 3, peça do termostato do hipotálamo que fica hiperativa quando o estrogênio cai (o mecanismo está no artigo sobre fogachos na menopausa). O FDA aprovou o medicamento em maio de 2023 para sintomas vasomotores moderados a intensos, e a Anvisa anunciou, em 23 de junho de 2026, a autorização do registro no Brasil, com o nome comercial Veoza.

No SKYLIGHT 1, publicado na revista The Lancet em 2023, 527 mulheres com pelo menos 7 episódios moderados a intensos por dia foram sorteadas entre fezolinetant e placebo. Na semana 12, quem tomava o medicamento tinha, em média, entre 2,4 e 2,6 fogachos a menos por dia do que o grupo placebo; o SKYLIGHT 2, de mesmo desenho, encontrou entre 1,9 e 2,5 a menos. A nota da Anvisa resume: em quatro semanas, redução média de 53% nas ondas diárias de calor. A proporção de mulheres com algum efeito adverso nas primeiras 12 semanas foi parecida entre fezolinetant e placebo.

O ponto de atenção é o fígado. Em setembro de 2024, o FDA alertou para casos raros de lesão hepática grave e, em dezembro, levou o aviso para a tarja de alerta do produto: exames de sangue do fígado antes de começar, todo mês nos três primeiros meses e depois aos 6 e 9 meses, e orientação para parar e procurar o médico diante de sinais como urina escura ou pele e olhos amarelados. O NICE recomenda, desde 2026, o fezolinetant como opção quando a reposição hormonal não é adequada.

Antidepressivos (ISRS e IRSN)

Alguns antidepressivos reduzem fogachos independentemente de haver depressão, e por isso têm evidência de nível I na declaração de 2023. Em 2013, o FDA aprovou a paroxetina em dose baixa para sintomas vasomotores moderados a intensos, o primeiro tratamento não hormonal aprovado lá para essa indicação. A NG23 do NICE, por outro lado, orienta não oferecer ISRS, IRSN ou clonidina como primeira linha quando o problema é só o calorão. Na prática, fazem mais sentido quando o fogacho vem com ansiedade ou humor instável, ou quando a reposição não é possível. A escolha é decisão médica.

Gabapentina e oxibutinina

A gabapentina, medicamento de epilepsia e dor neuropática, também tem evidência de nível I para fogachos na declaração de 2023; a oxibutinina, remédio de bexiga hiperativa, tem níveis I a II. Nenhuma das duas tem a menopausa como indicação principal: são escolhas de segunda linha, para perfis específicos.

Menopausa: o que fazer para melhorar sem remédio

Terapia cognitivo-comportamental: a que tem mais evidência

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) adaptada à menopausa é a opção não medicamentosa mais bem documentada. A Menopause Society dá a ela nível I, e o NICE, em 2024, passou a recomendar que ela seja considerada para sintomas vasomotores, junto com a reposição hormonal ou para quem tem contraindicação ou prefere não usar hormônio, presencial, remota, em grupo ou em autoajuda.

O que ela muda é, sobretudo, o quanto o sintoma atrapalha. No ensaio britânico MENOS 2, publicado na revista Menopause em 2012, 140 mulheres com 10 ou mais fogachos ou suores noturnos problemáticos por semana foram sorteadas para TCC em grupo, TCC de autoajuda ou nenhum tratamento. Em 6 semanas, os dois formatos reduziram a nota de incômodo (de 1 a 10) em cerca de 2 pontos a mais do que o controle, diferença mantida aos 6 meses; a frequência dos suores noturnos também caiu.

Hipnose clínica

A hipnose clínica recebeu nível I na mesma declaração de 2023: sessões estruturadas, com profissional treinado, voltadas a reduzir a frequência e o incômodo dos fogachos.

Perda de peso

Perder peso tem evidência (níveis II a III) para reduzir fogachos. Um ensaio de 2010, em Archives of Internal Medicine, acompanhou 338 mulheres com sobrepeso ou obesidade; entre as que tinham fogachos incômodos, o programa intensivo de perda de peso aumentou a chance de melhora em comparação com o grupo controle. A FEBRASGO reforça que evitar o ganho de peso e tratar a obesidade é fundamental, porque ambos pioram os sintomas. Por que a balança muda nessa fase está em menopausa e ganho de peso.

Exercício, sono, álcool e cafeína: o que esperar

Para os fogachos em si, a Menopause Society não encontrou evidência suficiente para recomendar exercício, ioga, mindfulness, técnicas de resfriamento ou evitar gatilhos. A atividade física continua parte do tratamento do climatério ao lado da dieta, como a FEBRASGO coloca, e pesa em ossos, peso e humor. O que muda é a expectativa: exercício melhora a saúde na menopausa; sozinho, não costuma apagar o calorão.

O sono merece capítulo próprio, porque suor noturno, insônia e cansaço se alimentam. Higiene do sono, TCC para insônia e reposição estão em insônia na menopausa; álcool e cafeína à noite entram nessa conta mais pelo sono fragmentado do que pelo fogacho.

Menopausa, o que tomar natural? O que os estudos mostram sobre fitoterápicos

A resposta é menos animadora do que a prateleira sugere. A revisão Cochrane sobre cimicífuga (black cohosh), publicada em 2012 com 16 ensaios e 2.027 mulheres, não encontrou diferença entre a planta e o placebo na frequência dos fogachos; comparada à cimicífuga, a terapia hormonal reduziu mais os episódios; e a segurança ficou inconclusiva. Os autores concluíram que a evidência é insuficiente para apoiar o uso.

A revisão Cochrane sobre fitoestrógenos (isoflavonas de soja e de outras plantas), de 2013, com 43 ensaios e 4.364 participantes, não encontrou evidência conclusiva de que esses suplementos reduzam a frequência ou a intensidade dos fogachos e suores noturnos; muitos estudos eram pequenos, com alto risco de viés, e o efeito placebo foi forte. A única ressalva: concentrados de genisteína merecem investigação.

Por isso a Menopause Society os lista entre as opções não recomendadas. O NICE é um pouco mais aberto: reconhece alguma evidência para isoflavonas e cimicífuga, mas manda explicar que há muitas preparações, com segurança incerta, composição variável e interações relatadas; para a erva-de-são-joão (hipérico), alerta para interações potencialmente graves com tamoxifeno, anticoagulantes e anticonvulsivantes.

Nenhum desses produtos substitui tratamento. Se você usa algum, conte na consulta, porque ele pode interagir com o que será prescrito.

Como é feita a avaliação antes de escolher o tratamento

No consultório, em Alto de Pinheiros, São Paulo, a avaliação começa pela história, não pelo remédio: quais sintomas incomodam, com que frequência e o quanto atrapalham sono, trabalho e relação; quando foi a última menstruação; antecedentes pessoais e familiares que pesam na decisão, como câncer de mama, trombose, doença do fígado e enxaqueca; e tudo o que a paciente já toma, inclusive chás, suplementos e fitoterápicos.

Os exames não servem para confirmar a menopausa, que o NICE define, depois dos 45 anos, por 12 meses sem menstruar, sem exame de sangue. Eles mapeiam o terreno: mamografia e exame ginecológico em dia, colesterol e glicose, função do fígado (importante se o fezolinetant estiver na mesa), tireoide quando os sintomas se confundem e densitometria conforme idade e risco. A bioimpedância estima gordura e massa muscular. O que é pedido antes da reposição está em exames para reposição hormonal feminina.

Com isso na mão, a decisão é conjunta: reposição hormonal quando indicada, opção não hormonal quando não é, ou a combinação. O acompanhamento é parte do tratamento: retorno para ajustar, exames de fígado no calendário quando há fezolinetant e revisão periódica da necessidade de continuar.

Quando procurar o médico

Procure avaliação quando os sintomas atrapalham o sono, o trabalho ou a relação; antes de começar qualquer suplemento ou fitoterápico; se já usa antidepressivo ou outro remédio contínuo; se os sintomas começaram antes dos 45 anos; e sempre que houver sangramento depois de 12 meses sem menstruar. O que pede investigação está em menopausa: sintomas e quando procurar avaliação.

Perguntas frequentes

Qual o melhor remédio para menopausa sem hormônio?

Não existe um único melhor. Pela declaração de 2023 da Menopause Society, têm evidência de nível I a terapia cognitivo-comportamental, a hipnose clínica, alguns antidepressivos (ISRS e IRSN), a gabapentina e o fezolinetant. A escolha depende do sintoma principal, do que mais incomoda (frequência ou impacto), da sua história e dos outros remédios que usa.

O fezolinetant já está disponível no Brasil?

A Anvisa anunciou, em 23 de junho de 2026, a autorização do registro, com o nome Veoza, para sintomas vasomotores moderados a intensos da menopausa. O registro é o primeiro passo: a chegada às farmácias e o preço vêm depois. É medicamento de prescrição e exige exames de fígado antes e durante o uso.

Antidepressivo para menopausa é só para quem tem depressão?

Não. Alguns ISRS e IRSN reduzem fogachos mesmo sem depressão, e por isso têm evidência de nível I; o FDA aprovou em 2013 a paroxetina em dose baixa para essa indicação. O NICE, porém, não os considera primeira linha quando o problema é só o calorão. Fazem mais sentido quando há também ansiedade ou humor instável, ou quando a reposição não é possível.

Exercício físico ajuda nos fogachos da menopausa?

Para o fogacho em si, a Menopause Society não encontrou evidência suficiente para recomendar exercício, ioga ou mindfulness. Mesmo assim, a atividade física segue parte do tratamento do climatério, segundo a FEBRASGO, por ossos, peso e humor. Perder peso, quando há excesso, tem evidência de reduzir os episódios.

Posso combinar tratamento não hormonal com a reposição hormonal?

Em alguns casos, sim. O NICE recomenda considerar a terapia cognitivo-comportamental junto com a reposição hormonal, não só no lugar dela. Combinar medicamentos (reposição e antidepressivo, por exemplo) depende do motivo de cada um e das interações, e é decisão médica. As situações em que a reposição não é indicada estão em quem não pode fazer reposição hormonal.

Conclusão

Existe tratamento para os sintomas da menopausa, por mais de um caminho. A reposição hormonal segue como a opção mais eficaz quando está indicada; sem hormônio, a terapia cognitivo-comportamental, alguns antidepressivos, a gabapentina e o fezolinetant têm evidência de nível I, e perder peso ajuda.

O que não tem respaldo é o que mais se vende: isoflavona e cimicífuga não superaram o placebo nas revisões Cochrane. A escolha sai da sua história, dos seus exames e do que você prefere.

Referências

  1. The 2023 Nonhormone Therapy Position Statement Advisory Panel. The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2023;30(6):573-590. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37252752/
  2. The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society Advisory Panel. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35797481/
  3. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Menopause: identification and management. NICE guideline NG23 (publicada em 2015, recomendações atualizadas em 2024; itens 1.3.1, 1.4.4 a 1.4.8 e 1.5.1 a 1.5.4). https://www.nice.org.uk/guidance/ng23
  4. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Fezolinetant for treating vasomotor symptoms associated with menopause. Technology appraisal guidance TA1143. 2026. https://www.nice.org.uk/guidance/ta1143
  5. Lederman S, Ottery FD, Cano A, et al. Fezolinetant for treatment of moderate-to-severe vasomotor symptoms associated with menopause (SKYLIGHT 1): a phase 3 randomised controlled study. Lancet. 2023;401(10382):1091-1102. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36924778/
  6. Johnson KA, Martin N, Nappi RE, et al. Efficacy and Safety of Fezolinetant in Moderate to Severe Vasomotor Symptoms Associated With Menopause: A Phase 3 RCT (SKYLIGHT 2). J Clin Endocrinol Metab. 2023;108(8):1981-1997. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36734148/
  7. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa autoriza medicamento não-hormonal que trata sintomas da menopausa. Notícia publicada em 23 de junho de 2026. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/anvisa-autoriza-medicamento-nao-hormonal-que-trata-sintomas-da-menopausa
  8. U.S. Food and Drug Administration. FDA Approves Novel Drug to Treat Moderate to Severe Hot Flashes Caused by Menopause. Press announcement, 12 de maio de 2023. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-novel-drug-treat-moderate-severe-hot-flashes-caused-menopause
  9. U.S. Food and Drug Administration. FDA adds warning about rare occurrence of serious liver injury with use of Veozah (fezolinetant) for hot flashes due to menopause. Drug Safety Communication, 12 de setembro de 2024, atualizada em 16 de dezembro de 2024. https://www.fda.gov/drugs/drug-safety-communications/fda-adds-warning-about-rare-occurrence-serious-liver-injury-use-veozah-fezolinetant-hot-flashes-due
  10. U.S. Food and Drug Administration. FDA Approves Labeling Changes to Menopausal Hormone Therapy Products. Press announcement, 12 de fevereiro de 2026. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-labeling-changes-menopausal-hormone-therapy-products
  11. U.S. Food and Drug Administration. Approval letter, NDA 204516, Brisdelle (paroxetine) capsules, for the treatment of moderate to severe vasomotor symptoms associated with menopause. 2013. https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/appletter/2013/204516Orig1s000ltr.pdf
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  16. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). É preciso abrir o leque da informação e da escuta para a mulher na menopausa. Notícia, 17 de setembro de 2025. https://febrasgo.org.br/pt/noticias/item/2206-e-preciso-abrir-o-leque-da-informacao-e-da-escuta-para-a-mulher-na-menopausa

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Dr. Rodrigo Neves

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