Saúde Hormonal

Libido baixa no homem depois dos 40: causas hormonais e não hormonais, e como a avaliação separa uma da outra

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 11 min

Resposta direta

Libido baixa no homem depois dos 40 pode vir da queda de testosterona, mas também de causas que não são hormonais: remédios como antidepressivos e finasterida, depressão, estresse, sono ruim, álcool em excesso, conflitos no relacionamento e doenças crônicas. Muitas vezes há mais de uma ao mesmo tempo. A avaliação separa as causas pela história, pela revisão dos remédios, pelo exame físico e por exames de sangue colhidos de manhã.

Você percebe que o interesse por sexo foi ficando para depois. Não aconteceu de uma vez: primeiro sumiram os pensamentos espontâneos, depois a iniciativa, e hoje o assunto quase não aparece. Como você já passou dos 40, a explicação que vem à cabeça é a mais conhecida: a testosterona caiu.

Às vezes caiu mesmo. Mas a queda do desejo sexual no homem tem várias origens possíveis, hormonais e não hormonais, e com frequência mais de uma ao mesmo tempo. Neste artigo eu organizo essas causas, com o que a ciência diz sobre cada uma, e explico como a avaliação separa uma da outra. O conteúdo é educativo e não substitui a consulta.

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É normal a libido cair no homem depois dos 40?

É comum, mas não precisa ser aceito como inevitável. Um levantamento internacional publicado no International Journal of Impotence Research, em 2005, com 13.618 homens de 40 a 80 anos de 29 países, mostrou que a falta de interesse por sexo está entre os problemas sexuais dessa faixa e que a idade se associa a mais chance desse problema. A mesma pesquisa observou que, nos homens, os problemas sexuais andam mais ligados à saúde física e ao envelhecimento do que nas mulheres.

A idade pesa, mas raramente chega sozinha: com ela vêm mais remédios de uso contínuo, mais doenças crônicas, sono pior e mais estresse. A diretriz da Endocrine Society, publicada em 2018, inclui a libido baixa entre as situações em que vale dosar a testosterona, e a investigação não deve parar no hormônio.

Libido é o desejo; ereção é a resposta física. As duas falham por motivos diferentes, e a relação entre testosterona, desejo e ereção está no artigo sobre libido e disfunção erétil na andropausa. Aqui o foco é o desejo e tudo o que pode apagá-lo.

Quais são as causas hormonais da libido baixa no homem?

Testosterona baixa. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, em 2010, com 3.369 homens de 40 a 79 anos de oito centros europeus, avaliou sintomas físicos, emocionais e sexuais. Os três sintomas sexuais, pouco desejo, ereção matinal rara e dificuldade de ereção, foram os únicos que formaram um conjunto ligado à testosterona baixa, e quanto mais desses sintomas o homem tinha, mais baixo costumava estar o hormônio. A diretriz da Endocrine Society também coloca a redução do desejo sexual entre os sinais mais específicos de falta de testosterona.

Prolactina alta. A prolactina é um hormônio produzido pela hipófise, uma glândula na base do cérebro. Um estudo italiano publicado no Journal of Sexual Medicine, em 2013, com 3.714 homens atendidos por queixa sexual, encontrou libido reduzida em todos os que tinham prolactina alta. A diretriz da American Urological Association (AUA) orienta dosar a prolactina quando a testosterona está baixa e o LH, o hormônio da hipófise que comanda o testículo, está baixo ou no limite inferior.

Tireoide. Tanto a tireoide lenta (hipotireoidismo) quanto a acelerada (hipertireoidismo) mexem com a vida sexual. Num estudo pequeno, com 48 homens, publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, em 2005, o desejo sexual baixo apareceu em 64% dos que tinham hipotireoidismo e em cerca de 18% dos que tinham hipertireoidismo, e as alterações sexuais podiam se reverter com a tireoide normalizada.

Quais remédios podem diminuir a libido do homem?

Essa é a causa que mais passa despercebida: o homem raramente liga o remédio que toma há meses à mudança no desejo. E, como apontou uma meta-análise publicada no Journal of Clinical Psychopharmacology, em 2009, quando ninguém pergunta diretamente, os pacientes quase não relatam esses efeitos.

Antidepressivos. Nessa meta-análise, vários antidepressivos causaram mais disfunção sexual do que o placebo, o que pode incluir queda do desejo, atingindo de cerca de um quarto a quatro quintos dos pacientes, conforme o remédio. Outros não mostraram diferença em relação ao placebo. A variação entre medicamentos é grande, e por isso o ajuste é uma conversa com o médico que prescreveu, nunca uma suspensão por conta própria.

Finasterida. É usada no aumento benigno da próstata e, em apresentação mais fraca, na queda de cabelo. Uma meta-análise publicada no Journal of Sexual Medicine, em 2016, com 17 ensaios randomizados e 17.494 homens, mostrou que essa classe (inibidores da 5-alfa-redutase, enzima que converte a testosterona em di-hidrotestosterona) aumentou o risco de libido baixa em relação ao placebo nos homens tratados pela próstata; na queda de cabelo, a diferença não foi estatisticamente significativa. Na bula da versão para queda de cabelo aprovada pela FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, 3,8% dos homens relataram algum efeito sexual nos estudos, contra 2,1% no placebo, e o efeito desapareceu em quem parou o remédio. A bula registra ainda relatos, depois da aprovação, de alterações da libido que persistiram após a suspensão, sem relação de causa estabelecida.

Outros remédios e substâncias. A diretriz da Endocrine Society lista os analgésicos opioides e os corticoides entre os medicamentos que podem baixar a testosterona, e inclui a interrupção do uso prolongado de esteroides anabolizantes entre as situações em que vale dosar o hormônio.

Depressão, estresse e relacionamento podem tirar a libido?

Podem, e com frequência. Um estudo pequeno publicado no Journal of Affective Disorders, em 1999, com 55 homens e 79 mulheres com depressão ainda sem tratamento, encontrou queda do interesse sexual em mais de 40% dos homens, antes de qualquer antidepressivo. Por isso, diante de libido baixa, eu sempre pergunto sobre humor, prazer nas outras áreas da vida e sono. A ligação entre testosterona e humor está no artigo sobre andropausa e depressão masculina.

O relacionamento também pesa. No estudo italiano com 3.714 homens citado acima, a libido reduzida era mais frequente com testosterona baixa e quase dobrava na presença de transtornos psicológicos ou psiquiátricos. Já nos homens com libido baixa sem nenhuma dessas causas, e sem remédios que agem no sistema nervoso, o perfil era outro: mais conflitos em casa e no casal, e um corpo em geral mais saudável, com glicose e triglicérides mais baixos.

Estresse prolongado, sobrecarga no trabalho e falta de tempo a dois são queixas que muitos pacientes relatam junto com o desejo baixo. Nesses casos, exame de sangue nenhum mostra a causa, e a conversa é parte do diagnóstico.

Sono, álcool e doenças crônicas também derrubam a libido?

Sono. A maior parte da liberação diária de testosterona no homem acontece durante o sono, e dormir pouco derruba o hormônio, como detalho em testosterona, sono e apneia. Ronco e pausas na respiração merecem atenção.

Álcool. Beber socialmente é diferente de beber muito e com frequência. Uma revisão publicada no Indian Journal of Psychological Medicine, em 2014, encontrou disfunção sexual em 40% a 95% das pessoas com dependência de álcool, taxas sempre mais altas do que em quem bebe socialmente, e a queda do desejo aparece entre as queixas comuns nos homens.

Doenças crônicas e peso. A diretriz da Endocrine Society lembra que a testosterona é afetada por obesidade, diabetes, distúrbios do sono e pelo estado geral de saúde, e que parte das quedas é funcional, ligada a obesidade, opioides ou doença sistêmica, e pode melhorar quando a condição de base é tratada. Quando o desejo cai junto com ganho de barriga, glicose subindo ou pressão alta, a investigação precisa olhar o metabolismo inteiro.

Como a avaliação separa uma causa da outra?

Na minha prática clínica, a investigação começa pela conversa, não pelo exame. Um documento de procedimentos publicado no Journal of Sexual Medicine, em 2013, recomenda esse caminho para homens com desejo baixo: avaliar humor, relacionamento e hormônios, buscar causas biológicas e psicológicas, e orientar o tratamento pela causa encontrada. No consultório, em Alto de Pinheiros, São Paulo, a avaliação segue estas etapas:

Com isso, o quadro costuma se encaixar em um de três desenhos: causa hormonal, causa não hormonal ou uma mistura das duas, que é o que eu mais vejo no consultório depois dos 40. Quando a testosterona baixa é confirmada em mais de uma coleta e vem com sintomas, a reposição hormonal pode ser indicada, sempre com acompanhamento. No braço de função sexual dos Testosterone Trials, publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, em 2016, 470 homens com 65 anos ou mais, libido baixa e testosterona baixa receberam testosterona ou placebo por um ano: a testosterona melhorou 10 de 12 medidas de atividade sexual, e a melhora do desejo acompanhou o quanto o hormônio subiu. Como o tratamento é conduzido está no guia de reposição hormonal masculina.

Libido baixa no homem: o que fazer e o que evitar?

O primeiro passo é não tratar o sintoma às cegas. Dois atalhos comuns costumam atrasar a solução:

Enquanto a avaliação acontece, alguns cuidados fazem sentido para quase todo mundo: dormir o suficiente para acordar descansado, reduzir o álcool, retomar a atividade física, cuidar do peso e conversar abertamente com quem está ao seu lado. Quando a causa é emocional ou do relacionamento, psicoterapia e terapia de casal são tratamento de verdade. Quando é hormonal, a reposição pode entrar. Muitas vezes os dois caminhos andam juntos.

Perguntas frequentes

Libido baixa com testosterona normal: o que pode ser?

Pode ser uma causa não hormonal, como antidepressivo, finasterida, depressão, estresse, sono curto, excesso de álcool ou conflito no relacionamento. Também pode ser outro hormônio, como prolactina alta ou tireoide alterada. Vale ainda conferir se o exame foi colhido de manhã e repetido, e se a testosterona livre precisa ser avaliada, porque um valor isolado pode enganar. A história clínica costuma indicar o caminho.

Antidepressivo pode diminuir a libido?

Pode. Uma meta-análise de 2009 mostrou que vários antidepressivos causam mais disfunção sexual do que o placebo, com grande variação entre eles, e que alguns não diferem do placebo nesse ponto. A depressão em si também reduz o desejo. Por isso, a saída não é suspender o remédio por conta própria, e sim conversar com o médico que prescreveu sobre os ajustes possíveis.

Finasterida tira a libido do homem?

Pode reduzir em parte dos homens. Nos estudos da bula aprovada pela FDA para queda de cabelo, 3,8% dos homens relataram algum efeito sexual, contra 2,1% no placebo, e o efeito desapareceu em quem parou o remédio. Uma meta-análise de 2016 encontrou aumento do risco de libido baixa nos homens tratados pela próstata. Quem nota mudança deve conversar com o médico antes de parar.

Qual médico procurar quando a libido cai?

Um médico que investigue o quadro inteiro: hormônios, remédios em uso, humor, sono e metabolismo. Urologistas, endocrinologistas e médicos que trabalham com reposição hormonal fazem essa avaliação. Quando aparece depressão, ansiedade ou conflito no relacionamento, psiquiatra, psicólogo ou terapeuta de casal entram junto. O importante é que a investigação não pare no primeiro exame de testosterona.

Falta de libido no homem tem tratamento?

As principais causas têm tratamento, e ele depende de qual delas está presente. Testosterona baixa confirmada pode receber reposição hormonal; prolactina alta e tireoide alterada têm tratamento próprio; remédios podem ser ajustados pelo médico que prescreveu; sono, álcool e peso entram no plano; e questões emocionais ou do casal pedem psicoterapia. Por isso a avaliação vem antes de qualquer conduta.

Conclusão

Libido baixa depois dos 40 é um sintoma com várias origens possíveis. Atrás dele pode estar a testosterona, mas também a prolactina, a tireoide, um remédio de uso contínuo, a depressão, o sono curto, o álcool, o peso ou o momento do relacionamento, e muitas vezes mais de um desses fatores ao mesmo tempo.

O caminho mais seguro é investigar antes de tratar: ouvir a história, revisar os remédios, examinar e pedir os exames certos. Com a causa identificada, o tratamento passa a mirar o que de fato apagou o desejo.

Referências

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