Saúde Hormonal

Andropausa dá calor e suor? O que os estudos mostram, o que mais pode causar e quando investigar

Dr. Rodrigo Neves 7 de outubro de 2026 Leitura: 12 min

Resposta direta

Pode, mas episódios frequentes de calor são raros na andropausa comum. A diretriz da Endocrine Society inclui ondas de calor e suores entre os sinais de testosterona baixa. Num estudo sueco com homens de 55 a 75 anos, um em cada três relatou episódios de calor, mas só cerca de 4% os tinham algumas vezes por semana ou mais. Quando a testosterona é bloqueada no tratamento do câncer de próstata, o calor atinge a maioria.

Acordar de madrugada com o pescoço molhado e virar o travesseiro para achar o lado seco. Sentir o rosto esquentar numa sala com ar-condicionado. Quando isso acontece com um homem depois dos 50, a primeira explicação que aparece na busca costuma ser a andropausa, porque ondas de calor, o popular fogacho, estão em quase toda lista de sintomas que circula na internet.

Essas listas acertam em parte e erram na proporção. Elas colocam o calor ao lado da libido baixa e do cansaço, como se fosse igualmente frequente, e quase nunca lembram que suor noturno tem várias outras causas, que precisam entrar na conta antes de qualquer conclusão.

Neste artigo eu separo o que os estudos mostram sobre calor e suor na andropausa, explico por que a velocidade da queda hormonal muda tudo e listo as outras causas que investigo no consultório.

Calor e suor sem explicação?

A equipe do Dr. Rodrigo organiza uma avaliação para entender a causa, com conversa detalhada e os exames certos para o seu caso.

Agendar pelo WhatsApp

Andropausa dá calor? O que os estudos mostram

Dá, mas com uma ressalva importante sobre a frequência. A diretriz de 2018 da Endocrine Society, a sociedade internacional de endocrinologia que orienta o diagnóstico de testosterona baixa no homem, inclui ondas de calor e suores na lista de sinais que sugerem deficiência de testosterona, ao lado da queda da libido e da redução das ereções espontâneas.

O dado que mais ajuda a colocar o assunto no tamanho certo vem de um estudo publicado na revista Menopause, em 2003. Pesquisadores suecos enviaram um questionário a todos os homens de 55, 65 e 75 anos de uma cidade e analisaram as respostas de mais de 1.300 homens, excluindo os que tinham passado por castração cirúrgica ou medicamentosa. A pergunta era sobre calor que surge sem relação com exercício ou ambiente quente. Um em cada três relatou algum episódio, mas só 4,3% tinham calor pelo menos algumas vezes por semana, e 1,3% todos os dias.

O mesmo estudo encontrou relação entre ter calor e ter outros sintomas associados à testosterona baixa, como queda de força, falta de energia e tristeza. Só que ele foi feito com questionário, sem dosar o hormônio, então mostra uma associação e não prova que o calor vinha da testosterona. Na prática, leio assim: calor de vez em quando é comum depois dos 55 e tem várias explicações; calor frequente, que atrapalha o dia e o sono, é incomum entre homens dessa idade e merece investigação.

Por que a queda brusca de testosterona dá mais calor que a queda lenta

A andropausa é uma queda lenta da testosterona, que acontece ao longo de décadas. Expliquei esse ritmo em detalhe no artigo sobre o que é a andropausa e quando ela começa.

O contraste aparece nos homens que fazem privação androgênica, o tratamento do câncer de próstata que derruba a testosterona de forma rápida e intencional, por cirurgia ou medicamento. Um estudo sueco publicado no Journal of Urology, em 1994, com 63 homens nessa situação, observou que 68% tiveram ondas de calor durante o tratamento, e quase metade ainda tinha os episódios cinco anos depois.

O calor tem relação com o hipotálamo, a região do cérebro que funciona como termostato do corpo. Uma revisão publicada em 2025 no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism descreve as ondas de calor como efeito comum do bloqueio hormonal e mostra que os tratamentos mais novos em estudo agem justamente nas vias do hipotálamo que regulam a temperatura. Os autores do estudo sueco de 2003 lembram que, nos homens em privação androgênica, as ondas de calor são tão comuns quanto nas mulheres na menopausa.

Na andropausa comum, a queda é gradual. Por isso, quando um homem me conta que acorda encharcado várias noites por semana, eu não paro na testosterona: ela entra na investigação, junto com as outras causas.

Andropausa pode dar sudorese noturna?

Pode, e muitos homens descrevem o problema assim. Mas suor noturno é um sintoma pouco específico. Uma revisão sistemática publicada em 2012 no Journal of the American Board of Family Medicine encontrou estimativas que começam em cerca de 10% entre pacientes mais velhos atendidos na atenção primária e concluiu que o sintoma, sozinho, parece ser inespecífico.

Uma forma simples de organizar o raciocínio é olhar o que vem junto. Calor que aparece sem relação com exercício ou ambiente quente, acompanhado de libido baixa, queda de energia e perda de força, fala a favor de investigar a parte hormonal. Febre, tosse ou perda de peso junto com o suor apontam em outra direção.

O que mais causa calor e suor noturno no homem

Antes de atribuir o calor à andropausa, eu passo por uma lista de causas que têm tratamento próprio e que mudam completamente a conduta.

Tireoide acelerada

O hipertireoidismo, quando a tireoide produz hormônio em excesso, é um clássico do calor. No consenso brasileiro do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, publicado em 2013, a sudorese excessiva aparece em 91% dos pacientes, a intolerância ao calor em 89% e o nervosismo em 99%. O mesmo documento lembra que, nos idosos, o quadro pode ser mais discreto, com predomínio de coração acelerado, falta de ar e inchaço. A avaliação começa pelo TSH, o hormônio da hipófise que comanda a tireoide, e pelos hormônios da própria tireoide.

Apneia do sono

A apneia obstrutiva do sono, quando a via aérea se fecha repetidas vezes durante a noite e a respiração para por alguns segundos, é uma causa de suor noturno que pouca gente conhece. Num estudo islandês publicado no BMJ Open, em 2013, com 822 pacientes com apneia, 30,6% dos homens sem tratamento relatavam suor noturno três vezes por semana ou mais, contra 9,3% dos homens da população geral. Com o uso adequado do aparelho de pressão positiva (como o CPAP), a frequência caiu para níveis parecidos com os da população geral.

A própria Endocrine Society lembra que a apneia do sono interfere no nível de testosterona. Escrevi sobre essa relação no artigo sobre testosterona, sono e apneia. Por isso pergunto sempre sobre ronco, pausas na respiração percebidas por quem dorme junto e sono que não descansa.

Ansiedade e crise de pânico

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) lista suor, calafrios, coração disparado e tontura entre os sintomas físicos de uma crise de pânico. Homens em fase de estresse intenso podem ter episódios de suor e mal-estar de origem ansiosa, e o tratamento nesse caso segue outro caminho.

Medicamentos

Uma revisão publicada na revista Drug Safety, em 2008, por pesquisadores da Mayo Clinic, lista classes de remédio que aumentam o suor, entre elas os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os antidepressivos tricíclicos e os opioides. Por isso, revisar os remédios em uso é um dos primeiros passos da consulta. Nunca suspenda um medicamento por conta própria: o ajuste é feito com o médico que prescreveu.

Infecções

Algumas infecções dão suor noturno, e a tuberculose é um exemplo importante no Brasil. O Ministério da Saúde aponta como sinais tosse por três semanas ou mais, febre à tarde, suor noturno e emagrecimento. Esse conjunto pede avaliação sem demora e não tem relação com testosterona.

Andropausa pode causar tontura, ansiedade ou dor de cabeça?

A melhor resposta vem de um dos maiores estudos já feitos sobre o tema, o European Male Ageing Study (EMAS), publicado no New England Journal of Medicine em 2010, com 3.369 homens europeus de 40 a 79 anos. Os sintomas que se relacionaram à testosterona foram ereção matinal mais rara, desejo sexual baixo, disfunção erétil, dificuldade para atividade física vigorosa, tristeza e cansaço. Desses, só os três sexuais formaram um padrão consistente com a queda do hormônio.

Já ansiedade e nervosismo, segundo o comunicado da Universidade de Manchester sobre o estudo, ficaram entre os sintomas que os pesquisadores conseguiram descartar como ligados à testosterona. Isso não quer dizer que o homem com andropausa não possa ficar ansioso. Quer dizer que ansiedade, sozinha, não é um bom sinal de testosterona baixa. Humor deprimido e queda de energia, esses sim, aparecem na lista da Endocrine Society como sinais inespecíficos, e falei sobre eles no artigo sobre andropausa e humor.

Tontura e dor de cabeça não fazem parte da lista de sinais de deficiência de testosterona da diretriz da Endocrine Society. Quando aparecem junto com calor e suor, eu penso primeiro em outras explicações, como crise de ansiedade, alteração de pressão ou efeito de medicamento, e investigo cada uma. Dor de cabeça nova, forte ou diferente do habitual pede avaliação médica própria, sem esperar exame hormonal.

Quando o calor e o suor pedem avaliação sem esperar

Alguns sinais mudam a prioridade da investigação. Procure avaliação logo se o suor vier com:

Nesses casos, o caminho é investigar a causa antes de pensar em hormônio. Se nada disso está presente e o calor vem junto com libido baixa, cansaço e perda de força, a investigação hormonal ganha peso.

Como é feita a avaliação do homem com calor e suor

No consultório em Alto de Pinheiros, em São Paulo, a avaliação começa por uma conversa detalhada. Quero saber quando o calor começou, em que horário aparece, quantas vezes por semana, se o paciente acorda molhado, se ronca, quais remédios usa, se perdeu peso e como estão a libido, a energia e o humor. Esse retrato ajuda a separar as causas antes de qualquer exame.

Depois vêm os exames, escolhidos pela história. Para a parte hormonal, a Endocrine Society recomenda dosar a testosterona total pela manhã, em jejum, e repetir a dosagem para confirmar, porque o diagnóstico de deficiência exige sintomas compatíveis e testosterona baixa de forma clara e consistente. Quando o valor fica perto do limite, ou há condições que alteram a proteína que transporta o hormônio, entra também a testosterona livre. O TSH avalia a tireoide, e outros exames entram conforme a suspeita. Detalhei o painel no artigo sobre exames para reposição hormonal masculina.

A bioimpedância, que estima a composição do corpo (músculo, gordura e água), ajuda a entender o quadro metabólico, já que perda de músculo e ganho de gordura aparecem na lista de sinais da Endocrine Society. E, quando há suspeita de apneia, o sono precisa ser investigado com exame próprio.

Com o diagnóstico fechado, a conduta é individual. Se a causa é tireoide, apneia, remédio ou ansiedade, o tratamento vai nessa direção. Se a deficiência de testosterona for confirmada, a reposição hormonal entra como opção, depois de conversar sobre benefícios e riscos, e com acompanhamento periódico de sintomas e exames, como recomenda a própria diretriz. Você encontra o caminho completo no guia de andropausa e reposição hormonal masculina.

Perguntas frequentes

Andropausa dá calor ou frio?

O que se descreve na queda de testosterona são ondas de calor e suores, citados na lista de sinais da diretriz da Endocrine Society. Sensação de frio não faz parte dessa lista. Calafrio junto com suor combina mais com febre, que pode indicar infecção, ou com crise de ansiedade, que segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos provoca suor, calafrios e tontura.

Andropausa pode causar tontura?

Tontura não aparece entre os sinais de deficiência de testosterona listados pela Endocrine Society. Quando um homem tem tontura junto com calor e suor, outras causas precisam ser investigadas primeiro, como crise de ansiedade, alteração de pressão e efeito de medicamentos em uso. Se a tontura vier com desmaio, falta de ar ou dor no peito, a avaliação deve ser imediata.

Andropausa pode causar ansiedade?

Sozinha, a ansiedade não é um bom marcador de testosterona baixa. O European Male Ageing Study, com 3.369 homens, encontrou um padrão consistente de queda hormonal só nos sintomas sexuais. Segundo o comunicado da instituição que divulgou o estudo, ansiedade e nervosismo ficaram entre os sintomas que não se mostraram ligados ao hormônio. Ansiedade persistente merece avaliação própria.

Suor noturno em homem: o que pode ser?

As causas mais investigadas são queda de testosterona, tireoide acelerada, apneia do sono, ansiedade, efeito de medicamentos como alguns antidepressivos e opioides, e infecções como a tuberculose. Febre, tosse prolongada ou perda de peso junto com o suor pedem avaliação rápida, antes de qualquer investigação hormonal.

Calor excessivo no homem é sempre hormonal?

Não. Num estudo sueco com homens de 55, 65 e 75 anos, um em cada três relatou episódios de calor sem relação com exercício ou ambiente quente, mas a maioria era ocasional. Calor frequente pode vir da testosterona baixa, mas também da tireoide, da apneia, da ansiedade ou de medicamentos. Só a avaliação com história detalhada e exames mostra a causa em cada homem.

Conclusão

A andropausa pode dar calor e suor, mas os números mostram a proporção certa: episódios ocasionais são comuns depois dos 55, episódios frequentes são incomuns, e o calor intenso aparece de forma marcante quando a testosterona cai de maneira brusca. Por isso, calor e suor que se repetem merecem investigação completa, e não um rótulo apressado.

Investigar significa olhar tireoide, sono, remédios, ansiedade e infecções ao lado dos hormônios. Quando a testosterona baixa é a causa, ela é confirmada em exame repetido e tratada com acompanhamento; quando a causa é outra, o tratamento é outro.

Referências

  1. Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29562364/
  2. Spetz AC, Fredriksson MG, Hammar ML. Hot flushes in a male population aged 55, 65, and 75 years, living in the community of Linköping, Sweden. Menopause. 2003;10(1):81-87. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12544681/
  3. Karling P, Hammar M, Varenhorst E. Prevalence and duration of hot flushes after surgical or medical castration in men with prostatic carcinoma. J Urol. 1994;152(4):1170-1173. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8072086/
  4. Lin KL, Talmor B, Crumbaker M, Joshua AM. A Review of Hot Flash Management in Patients With Prostate Cancer. J Clin Endocrinol Metab. 2025;110(9):2509-2519. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40397707/
  5. Mold JW, Holtzclaw BJ, McCarthy L. Night sweats: a systematic review of the literature. J Am Board Fam Med. 2012;25(6):878-893. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23136329/
  6. Maia AL, Scheffel RS, Meyer ELS, et al. Consenso brasileiro para o diagnóstico e tratamento do hipertireoidismo: recomendações do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(3):205-232. https://doi.org/10.1590/S0004-27302013000300006
  7. Arnardottir ES, Janson C, Bjornsdottir E, et al. Nocturnal sweating--a common symptom of obstructive sleep apnoea: the Icelandic sleep apnoea cohort. BMJ Open. 2013;3(5):e002795. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23674447/
  8. National Institute of Mental Health (NIMH). Panic Disorder: What You Need to Know. Revisado em 2025. https://www.nimh.nih.gov/health/publications/panic-disorder-when-fear-overwhelms
  9. Cheshire WP, Fealey RD. Drug-induced hyperhidrosis and hypohidrosis: incidence, prevention and management. Drug Saf. 2008;31(2):109-126. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18217788/
  10. Ministério da Saúde. Tuberculose: sintomas, diagnóstico e tratamento. gov.br/saude. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/t/tuberculose
  11. Wu FC, Tajar A, Beynon JM, et al. Identification of late-onset hypogonadism in middle-aged and elderly men. N Engl J Med. 2010;363(2):123-135. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20554979/
  12. University of Manchester. Symptoms of 'male menopause' unzipped (comunicado sobre o European Male Ageing Study). ScienceDaily, 17 jun. 2010. https://www.sciencedaily.com/releases/2010/06/100616171639.htm

Quer entender de onde vem o seu calor?

Agende uma avaliação com o Dr. Rodrigo Neves: história detalhada, exames escolhidos para o seu caso e acompanhamento.

Agendar pelo WhatsApp
R

Dr. Rodrigo Neves

Médico, CRM-SP 160969. Atua em reposição hormonal, longevidade e saúde metabólica. Mais de 10.000 pacientes atendidos. Conheça o Dr. Rodrigo Neves

Usamos cookies para melhorar sua experiência e medir nossas campanhas. Saiba mais na Política de Privacidade.