Retatrutida: o que os estudos de fase 3 mostram sobre o próximo avanço no emagrecimento

Por Dr. Rodrigo NevesAtualizado em maio de 2026Leitura: 9 min

Enquanto Ozempic e Mounjaro dominam o noticiário sobre emagrecimento, um terceiro medicamento avança nos estudos clínicos com resultados que chamaram atenção da comunidade médica mundial. A retatrutida, desenvolvida pela Eli Lilly, acaba de apresentar os primeiros dados de fase 3, e os números merecem uma leitura cuidadosa.

Este artigo resume o que os estudos publicados realmente mostram, qual é o status regulatório atual e o que esses dados podem significar para pacientes que buscam tratamento para obesidade.

Status regulatório (maio de 2026): A retatrutida ainda é um medicamento investigacional. Não está aprovada pela FDA nem pela Anvisa para uso clínico. Os dados apresentados aqui são de estudos clínicos em andamento.

O que é a retatrutida e como ela é diferente

A retatrutida (código de pesquisa: LY3437943) é uma molécula desenvolvida para atuar em três receptores hormonais ao mesmo tempo: GLP-1 (glucagon-like peptide-1), GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) e glucagon.

Por isso, ela recebe o nome de triplo agonista ou, informalmente, GLP-3.

Para comparar: a semaglutida (Ozempic, Wegovy) atua em apenas um receptor, o GLP-1. A tirzepatida (Mounjaro, Zepbound) atua em dois, GLP-1 e GIP. A retatrutida vai um passo além ao adicionar o glucagon nessa equação.

Essa diferença não é cosmética. Cada receptor adicionado contribui com um mecanismo diferente de controle do peso e do metabolismo.

Como o triplo agonismo age no organismo

Os três alvos da retatrutida têm papéis complementares:

A hipótese é que o agonismo do glucagon, associado aos efeitos do GLP-1 e do GIP, produza uma perda de peso superior porque não se limita a reduzir a ingestão calórica. Ele também aumenta o gasto energético. Os estudos indicam que essa combinação pode ser a razão pelos resultados mais expressivos observados até agora.

O que os estudos de fase 2 mostraram

Os dados de fase 2 foram publicados em 2023 no New England Journal of Medicine, uma das revistas de maior rigor científico do mundo.

O estudo avaliou adultos com obesidade (sem diabetes tipo 2) ao longo de 48 semanas. Os resultados principais:

Fonte: Jastreboff AM et al. "Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity." NEJM, 2023. DOI: 10.1056/NEJMoa2301972

Esses números superaram os resultados observados na fase 2 da semaglutida e foram comparáveis, ou superiores em alguns desfechos, aos da tirzepatida. Para a comunidade médica, isso colocou a retatrutida no radar como uma possível próxima geração de tratamento.

Paralelamente, um estudo publicado na Nature Medicine avaliou o efeito da retatrutida em pacientes com doença hepática esteatótica metabólica (MASLD), com resultados promissores na redução de gordura hepática.

Fonte: Sanyal AJ et al. Nature Medicine, 2024. DOI: 10.1038/s41591-024-03018-2

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O que se sabe sobre a fase 3 até agora

A Eli Lilly iniciou um programa de fase 3 chamado TRIUMPH para obesidade e TRANSCEND para diabetes tipo 2. Em dezembro de 2025, os primeiros resultados de fase 3 foram divulgados.

O estudo TRIUMPH-4 avaliou adultos com obesidade ou sobrepeso e osteoartrite de joelho, sem diabetes. Os resultados principais após cerca de 48 semanas de tratamento:

Fonte: Eli Lilly Press Release, dezembro de 2025. ClinicalTrials.gov: NCT05931367

Em março de 2026, os primeiros resultados do estudo TRANSCEND-T2D-1 foram divulgados, mostrando reduções significativas de hemoglobina glicada e peso em adultos com diabetes tipo 2.

O programa completo inclui mais de sete estudos de fase 3, cobrindo obesidade com complicações cardiovasculares, apneia obstrutiva do sono, lombalgia crônica e doença hepática gordurosa. Os resultados desses estudos devem ser publicados ao longo de 2026 e 2027.

"A retatrutida representa a primeira vez que três receptores hormonais distintos foram combinados em uma única molécula com resultados clínicos robustos." Jastreboff et al., NEJM 2023.

Perspectivas de aprovação e o que isso significa para pacientes

A retatrutida ainda não tem pedido de aprovação submetido à FDA ou à Anvisa. Com base no ritmo atual dos estudos, a estimativa mais provável é a seguinte:

Existe a possibilidade de a Eli Lilly solicitar o processo de revisão prioritária junto à FDA, dado o perfil de necessidade médica não atendida que a obesidade representa. Isso poderia encurtar o processo para seis meses. Mas isso ainda não foi confirmado.

Qualquer estimativa de data de disponibilidade no mercado deve ser tratada como projeção, não como certeza. Estudos de fase 3 podem gerar surpresas, tanto positivas quanto negativas.

A visão clínica: promessa real ou hype?

Os dados da retatrutida são, até o momento, os mais expressivos já observados para um medicamento no tratamento da obesidade. Uma perda de quase 24% do peso corporal em fase 3 é um resultado que, há dez anos, seria considerado irrealista.

Isso coloca a retatrutida em uma categoria diferente em termos de potencial de impacto. Mas há pontos que merecem atenção clínica.

Os efeitos adversos gastrointestinais, típicos dessa classe de medicamentos, foram relevantes: náusea em 38 a 43% dos participantes, diarreia em 34%, constipação em 22 a 25% e vômitos em 20%. As taxas de descontinuação por eventos adversos foram de 12,2% na dose de 9 mg e 18,2% na dose de 12 mg, comparadas a 4% no placebo.

Isso significa que quase 1 em cada 5 participantes na dose mais alta não concluiu o tratamento por intolerância. São números que precisam ser considerados na avaliação risco-benefício individual.

Outro ponto relevante é que os dados de longo prazo ainda são limitados. A manutenção do peso após a suspensão do medicamento, o perfil cardiovascular em desfechos duros e a segurança em populações específicas ainda estão sendo estudados.

Para pacientes que hoje buscam tratamento, o cenário atual já oferece alternativas eficazes com respaldo regulatório. A retatrutida representa uma possível próxima geração, mas não é uma solução disponível nem imminente no curto prazo.

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Perguntas frequentes

A retatrutida já pode ser usada no Brasil?

Não. A retatrutida é um medicamento ainda em fase de estudos clínicos e não tem aprovação regulatória em nenhum país. Qualquer oferta de retatrutida fora de um ensaio clínico formal deve ser tratada com cautela, pois não há garantia de origem, pureza ou segurança do produto.

Qual é a diferença entre retatrutida, semaglutida e tirzepatida?

A semaglutida (Ozempic, Wegovy) atua em um receptor hormonal, o GLP-1. A tirzepatida (Mounjaro, Zepbound) atua em dois, GLP-1 e GIP. A retatrutida atua nos três: GLP-1, GIP e glucagon. Esse mecanismo adicional, especialmente o agonismo do glucagon, é a principal hipótese para explicar os resultados de perda de peso mais elevados observados nos estudos.

Quando a retatrutida deve ser aprovada nos Estados Unidos?

Com base no ritmo atual dos estudos, a submissão do pedido de aprovação à FDA deve ocorrer no final de 2026 ou início de 2027. A aprovação, se concedida, está estimada para 2027 ou 2028. Essas são projeções baseadas no cronograma atual e podem mudar conforme os resultados dos estudos em andamento.

Os resultados da retatrutida se mantêm após parar o medicamento?

Os dados disponíveis até o momento não permitem responder essa pergunta com precisão para a retatrutida. Com base no que se observou com a semaglutida e a tirzepatida, há tendência de recuperação de peso após a suspensão, o que reforça a necessidade de avaliar o contexto clínico individual antes de iniciar qualquer terapia dessa classe.

Dr. Rodrigo Neves

Médico especialista em longevidade, saúde metabólica e modulação hormonal. Mais de 10.000 pacientes atendidos. drrodrigoneves.com.br