Saúde Hormonal

Andropausa e menopausa: o que homens e mulheres têm em comum

Dr. Rodrigo Neves 18 de junho de 2026 Leitura: 8 min

É uma cena que se repete no consultório com frequência impressionante: um casal chega para conversar e, sem combinar, os dois descrevem quase a mesma coisa. Ela fala em ondas de calor, noites mal dormidas, irritabilidade e um peso que apareceu na cintura sem explicação. Ele fala em cansaço que não passa, libido em queda, dificuldade de concentração e a barriga que cresceu mesmo sem mudar a alimentação.

Eles costumam achar que são histórias diferentes. Afinal, menopausa é "coisa de mulher" e o homem, na cabeça da maioria, "não tem nada disso". Na minha prática clínica, o que vejo é o contrário: a andropausa e a menopausa são processos distintos no mecanismo, mas conversam muito mais do que se imagina. São dois capítulos da mesma história, o envelhecimento hormonal.

Neste artigo eu quero deixar claro onde os dois processos se separam, onde eles se encontram e por que entender essa comparação ajuda tanto o homem quanto a mulher a reconhecerem que o cansaço, o humor e o corpo mudando têm, muitas vezes, uma raiz hormonal mensurável e tratável.

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Dois processos, uma mesma raiz: a queda dos hormônios sexuais

Tanto a menopausa quanto a andropausa têm o mesmo pano de fundo: a redução dos hormônios sexuais que sustentam energia, humor, libido, músculo, osso e metabolismo ao longo da vida. No caso feminino, o protagonista é o estrogênio (e também a progesterona). No caso masculino, é a testosterona.

A menopausa é definida como a parada permanente da menstruação causada pela queda do estrogênio, e ocorre, em média, por volta dos 51 anos. Antes dela existe a perimenopausa, a fase de transição que costuma começar alguns anos antes, em geral na metade dos 40 anos, quando os hormônios começam a oscilar e os primeiros sintomas aparecem.

A andropausa, por outro lado, é o nome popular para o que chamamos tecnicamente de hipogonadismo de início tardio: a queda progressiva da testosterona que acompanha o envelhecimento masculino. Não existe um "evento" como a parada da menstruação. A produção vai diminuindo aos poucos, de forma silenciosa.

Essa origem comum é o que explica por que tantos sintomas se sobrepõem. Quando os hormônios sexuais caem, o corpo reage de maneiras parecidas, independentemente do sexo. É aqui que homens e mulheres, sem saber, acabam compartilhando boa parte das queixas.

A grande diferença: abrupto x gradual

Se existe uma distinção que precisa ficar gravada, é esta: a menopausa é relativamente abrupta, e a andropausa é gradual. Essa diferença muda tudo, do reconhecimento dos sintomas até a forma de investigar cada caso.

Na mulher, a função dos ovários se encerra ao longo de um período de poucos anos. A queda de estrogênio é rápida o suficiente para ter um marco claro: a menstruação para. Por isso a mulher costuma perceber que "algo mudou" e, muitas vezes, busca ajuda mais cedo, porque o sinal é evidente.

No homem, a história é outra. A testosterona cai cerca de 1% ao ano a partir dos 40 anos, segundo material de referência da Mayo Clinic. Em um estudo longitudinal de longa duração, o Massachusetts Male Aging Study (publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2007, por Travison e colaboradores), a queda observada foi de aproximadamente 1,2% ao ano mesmo comparando homens de mesma idade ao longo do tempo. É uma erosão lenta, ano após ano, sem nenhum marco visível.

"A mulher percebe a menopausa porque o corpo dá um aviso claro. O homem quase nunca percebe a andropausa, porque ela chega devagar, disfarçada de cansaço, de estresse, de idade chegando. É por isso que tantos homens demoram anos para investigar."
Base científica: material da Mayo Clinic sobre o tema deixa claro que o termo "menopausa masculina" é impreciso justamente por essa diferença de ritmo. Além disso, a maioria dos homens mais velhos ainda mantém a testosterona dentro da faixa de referência, e apenas cerca de 10% a 25% têm níveis considerados baixos. Ou seja: nem todo homem que envelhece tem andropausa com indicação de tratamento. O diagnóstico exige sintomas claros somados à confirmação laboratorial.

Essa diferença de velocidade é também o motivo pelo qual a andropausa é tão sub-diagnosticada. A queda lenta faz com que os sintomas sejam normalizados, pelo próprio paciente e, muitas vezes, pelo sistema de saúde, que trata os sinais isoladamente sem investigar a raiz hormonal.

Os sintomas que homens e mulheres compartilham

Aqui está a parte que mais surpreende meus pacientes. Quando o estrogênio cai na mulher e a testosterona cai no homem, boa parte das queixas é praticamente a mesma. O corpo, privado dos seus hormônios sexuais, manda sinais parecidos.

Os sintomas centrais da menopausa descritos na literatura médica incluem quatro grandes grupos: ondas de calor, sono ruim, queixas geniturinárias e sexuais, e alterações de humor. Quando olho a lista de sintomas da andropausa, encontro um espelho impressionante. Veja os que aparecem dos dois lados:

Fadiga e queda de energia
Queda da libido
Alterações de humor e irritabilidade
Sintomas depressivos
Sono fragmentado
Névoa mental e memória
Ganho de gordura abdominal
Perda de massa muscular
Perda de densidade óssea
Ondas de calor e suores noturnos

Repare que até as ondas de calor, que a maioria associa exclusivamente à menopausa, aparecem em parte dos homens com queda acentuada de testosterona, sobretudo na forma de suores noturnos. Não é tão comum quanto na mulher, mas existe.

O humor é outro ponto de encontro. Na mulher, o estrogênio modula a transmissão de serotonina e noradrenalina, neurotransmissores ligados à estabilidade do humor, e por isso a perimenopausa está associada a maior risco de sintomas depressivos. No homem, a relação é parecida: sintomas depressivos foram relatados em uma parcela expressiva dos pacientes com hipogonadismo, com estimativas que vão de cerca de 35% a 50% em algumas séries clínicas. Em ambos os casos, o que parece "só estresse" ou "só a idade" pode ter um componente hormonal real.

E há o osso, que é talvez o sintoma mais silencioso de todos. A perda de estrogênio na mulher leva à perda de densidade óssea e ao risco de osteoporose, um fato bem estabelecido. No homem, a queda mais acentuada de testosterona também se associa à redução da densidade óssea ao longo do tempo. Os dois sexos envelhecem o esqueleto quando perdem seus hormônios sexuais.

Onde os processos se separam de novo

Apesar de tanta semelhança, seria um erro tratar andropausa e menopausa como a mesma coisa. Elas se separam em pontos importantes, e reconhecer isso é parte de um diagnóstico honesto.

O primeiro ponto é justamente o que já vimos: a menopausa tem um marco (a parada da menstruação) e a andropausa não. Isso significa que, na mulher, o diagnóstico do evento é clínico e relativamente direto. No homem, depende inteiramente de exames que confirmem a queda hormonal, porque não há sinal externo equivalente.

O segundo ponto está na especificidade dos sintomas. No homem, os estudos mostram que os sintomas mais firmemente ligados à queda de testosterona são os sexuais: redução da libido, queda das ereções matinais e disfunção erétil. O European Male Ageing Study (EMAS), publicado no New England Journal of Medicine em 2010 por Wu e colaboradores, foi exatamente nessa direção: identificou que esses sintomas sexuais são os mais associados a níveis baixos de testosterona, e que a síndrome de hipogonadismo de início tardio se confirma em uma minoria dos homens, especialmente naqueles com testosterona mais baixa. Ou seja, no homem, fadiga e mau humor sozinhos não fecham diagnóstico, é a combinação com os sintomas sexuais e com a laboratorial que pesa.

O terceiro ponto é o ritmo do tratamento e do acompanhamento. Por ser abrupta, a menopausa muitas vezes pede uma abordagem mais imediata dos sintomas. Por ser gradual, a andropausa permite, em parte dos casos, uma janela maior para intervir no estilo de vida antes mesmo de pensar em reposição. Cada lado tem seu tempo.

Como eu abordo os dois lados no consultório

Na minha prática clínica, eu não trato "a menopausa" ou "a andropausa" como rótulos. Trato a pessoa que está na minha frente, com seus sintomas, sua idade, seu histórico e seus exames. E, por mais diferentes que homens e mulheres sejam no mecanismo, a lógica da avaliação tem uma espinha comum.

O primeiro passo é sempre o mesmo: ouvir e mapear os sintomas com calma. Quando aparece um conjunto de queixas (energia, humor, sono, libido, composição corporal), eu não me contento com a explicação fácil de que "é a idade". Eu investigo.

O segundo passo é a avaliação laboratorial. Para a mulher, isso envolve o perfil dos hormônios sexuais femininos e marcadores associados. Para o homem, a investigação se apoia em exames que confirmam a queda hormonal e excluem outras causas. De forma comparativa:

Avaliação na mulher Avaliação no homem
Estradiol e progesterona Testosterona total e livre
FSH e LH (marcadores da transição) LH e FSH (origem testicular x central)
SHBG (disponibilidade hormonal) SHBG e estradiol
Perfil tireoidiano completo Perfil tireoidiano completo
Glicemia, insulina e perfil metabólico Glicemia, insulina e perfil metabólico
Densitometria óssea quando indicada PSA e hematócrito antes de protocolo hormonal

Repare como as colunas se espelham. Tireoide, metabolismo e disponibilidade hormonal entram dos dois lados, porque os sintomas se sobrepõem e é preciso descartar que um hipotireoidismo, uma resistência à insulina ou um estresse crônico estejam mimetizando o quadro hormonal.

O terceiro passo é a abordagem funcional. Tanto na mulher quanto no homem, eu não olho apenas para o número de um hormônio. Olho para o terreno: sono, inflamação, resistência à insulina, saúde adrenal, nutrição. Muitas vezes corrigir esse terreno já melhora os sintomas. Em outros casos, a reposição hormonal é necessária, mas funciona muito melhor quando o metabolismo está em ordem. E, quando há indicação de reposição, ela é sempre individualizada, com acompanhamento e dentro dos critérios de segurança de cada caso. Não existe protocolo único nem decisão sem avaliação.

O que esperar de uma avaliação hormonal

Se você se reconheceu em alguma parte deste texto, seja como homem ou como mulher, o que eu quero que fique é uma mensagem simples: cansaço persistente, queda de libido, humor instável, sono ruim e mudança na composição corporal não são destino inevitável da idade. São sinais que merecem ser investigados.

Uma avaliação bem feita não busca apenas "achar um hormônio baixo" para repor. Ela busca entender o quadro inteiro, comparar sintomas com exames, descartar outras causas e construir uma estratégia que faça sentido para aquela pessoa específica. No site drrodrigoneves.com.br você encontra informações sobre como funciona a consulta de avaliação hormonal e o que esperar do processo.

O mais bonito do trabalho, para mim, é quando aquele casal que chegou com queixas parecidas entende que cada um tem sua própria história hormonal, com seu ritmo e sua estratégia, mas que ambos podem viver essa fase com muito mais energia e qualidade do que imaginavam.

Perguntas frequentes

Andropausa é o mesmo que "menopausa masculina"?

O termo "menopausa masculina" é popular, mas impreciso. A menopausa feminina é relativamente abrupta, com a parada da menstruação e queda rápida de estrogênio em poucos anos. A andropausa é a queda gradual da testosterona ao longo de muitos anos, sem um evento marcador. Por isso usamos os termos "andropausa" ou "hipogonadismo de início tardio" para descrever o fenômeno masculino. São processos parecidos no resultado, mas diferentes no ritmo.

Por que homens e mulheres têm sintomas tão parecidos se os hormônios são diferentes?

Porque os hormônios sexuais, estrogênio na mulher e testosterona no homem, atuam em sistemas semelhantes: energia, humor, sono, libido, músculo, osso e metabolismo. Quando esses hormônios caem, o corpo reage de formas parecidas, independentemente do sexo. É por isso que fadiga, alterações de humor, sono fragmentado, perda de massa muscular e perda de densidade óssea aparecem dos dois lados.

Homem também tem ondas de calor?

Pode ter. As ondas de calor são muito mais associadas à menopausa, mas parte dos homens com queda acentuada de testosterona relata episódios semelhantes, principalmente na forma de suores noturnos. Não é tão frequente quanto na mulher, mas é um sintoma reconhecido e que, quando aparece junto de outros sinais, merece investigação hormonal.

Com que idade cada um costuma começar?

A menopausa ocorre, em média, por volta dos 51 anos, sendo precedida pela perimenopausa, que costuma começar na metade dos 40 anos. A queda da testosterona no homem é mais precoce e mais lenta: começa de forma gradual e cai cerca de 1% ao ano a partir dos 40 anos, mas os sintomas perceptíveis costumam aparecer entre os 40 e os 55 anos. Cada pessoa tem seu próprio ritmo, influenciado por estilo de vida, sono, estresse e composição corporal.

Os sintomas têm tratamento nos dois casos?

Sim. Em ambos os casos, o caminho começa com uma avaliação completa, que combina sintomas, histórico e exames laboratoriais. A partir daí, a estratégia pode envolver ajustes no estilo de vida (sono, treino de força, controle de peso, manejo do estresse), suporte nutricional e, quando indicada, reposição hormonal individualizada e acompanhada. A decisão é sempre personalizada e nunca deve ser tomada sem avaliação médica.

Conclusão

Andropausa e menopausa são, de fato, processos diferentes. Um é abrupto, o outro é gradual. Um tem um marco claro, o outro chega disfarçado. Mas, no fundo, os dois contam a mesma história: a queda dos hormônios sexuais que sustentam energia, humor, libido, músculo, osso e metabolismo ao longo da vida.

É por isso que tantos casais chegam ao consultório descrevendo queixas tão parecidas sem perceber. Fadiga, alterações de humor, sono ruim, mudança na composição corporal e queda da libido são sinais que homens e mulheres compartilham quando o relógio hormonal começa a mudar.

A boa notícia é que reconhecer esses sinais é o primeiro passo. Tanto para o homem quanto para a mulher, uma avaliação cuidadosa, com exames adequados e olhar para o quadro inteiro, abre a porta para uma fase da vida com muito mais qualidade. O que aprendemos de cada lado, no fim, serve aos dois.

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Dr. Rodrigo Neves

Médico especialista em longevidade, saúde metabólica e modulação hormonal. Mais de 10.000 pacientes atendidos. drrodrigoneves.com.br